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quinta-feira, 11 de julho de 2019

Um prato ratinho numa escavação arqueológica






Nas escavações arqueológicas as cerâmicas  são dos espólios mais frequentes que surgem, constituindo  elementos importantes e essenciais para um estudo económico e sociológico da época a que reportam, pois proporcionam bastas informações "acerca das sociedades que em cada época produziram e utilizaram estes objectos do quotidiano"1. Foi o que aconteceu  com um fragmento de um prato ratinho que, juntamente com outros, viu a luz do dia e da celebridade aquando de um acompanhamento arqueológico de obra na Rua do Carmo, no Porto. (nº8 da Planta)
A Casa do Infante seleccionou-o como Peça do Mês, com o título "Prato de faiança popular", em Março de 2014.

"Itinerário da Faiança do Porto e de Gaia", Pág.121


Peças do conjunto recolhido junto do antigo Convento do Carmo, à Praça de Lisboa

Neste conjunto, para além de peças de louça brioso, percursoras da "louça ratinha de Coimbra"2,surgem outros fragmentos de argila vermelha, revestida com esmalte verde, de possível atribuição a fabrico de Aveiro.

Esta iniciativa vem realçar a importância das escavações arqueológicas para o estudo da faiança portuguesa.
Por casualidade, a Colecção de Faiança da Fundação Cargaleiro possui um exactamente igual, se bem que um pouco maior e em excelente estado de conservação. Figurou na Exposição "Cerâmica na Colecção da Fundação Manuel Cargaleiro", com o nº 42 de catálogo.



Ambas as peças se perfilam dentro dos espiralados, com a espiral central circunscrita por dois círculos concêntricos. A leveza da decoração está na cercadura, que se prolonga no espaço central, desenvolvendo-se por um entrelaçado de grinaldas, formadas por um cordão de pequenos círculos em verde, entrecuzados por filamentos ondulados, em manganés.
Folheando o catálogo do Palácio do Correio Velho, realizado em Março de 1996 sobre a colecção de faianças do Eng. Abecassis, deparamo-nos com um prato com decoração semelhante, sendo que as grinaldas são formadas por pequenos círculos. (Fila superior, segundo a contar da direita).


Catálogo PCV "Colecção de Faianças  Eng. José Abecassis", Pág.118

Para terminar esta breve análise de faiança ratinha, acrescenta-se um outro prato, que pertenceu às colecções do Cmdte Vilhena e, também, do Eng. Abecassis. Apresenta a mesma cercadura, repetindo-a no centro, em vez da espiral.





1- Paulo Dórdio, Ricardo Teixeira, Anabela Sá - "O recente contributo da arqueologia" in Itinerário da Faiança do Porto e Gaia, MNSR, Pág.119.
2- Paulo Dórdio, Ricardo Teixeira, Anabela Sá - "O recente contributo da arqueologia" in Itinerário da Faiança do Porto e Gaia, MNSR, Pág.155.









quarta-feira, 25 de julho de 2018

A Faiança Ratinha e as migrações internas em Portugal







Um conjunto de pratos que simbolizam elementos de um rancho de ratinhos que se dirigem para as planícies alentejanas. O manajeiro, o rapaz com a sua merenda, o camponês e a sua alfaia agrícola e o violeiro, que vai animar os fins de tarde.
Desde sempre houve um desequilíbrio entre o norte, fortemente povoado e o sul, com graves carências populacionais. Era "um Portugal onde a terra falta ao homem e outro onde o homem falta à terra"1. Interessante expressão que espelha de forma real a disparidade da distribuição populacional no nosso país, problema que, também hodiernamente, se faz sentir de modo acutilante. A população teve, desde sempre, tendência em se concentrar em certas zonas, rareando noutras.
Entre as causas que propiciaram estas variações populacionais encontram-se  a orografia e o clima. Zonas com relevo baixo, vales pouco profundos e com chuvas abundantes atraem pessoas, opondo-se àquelas onde  o relevo mais alto, bem como as áridas planuras, com clima mais seco e quente que obriga a uma maior escassez de gentes.
"Onde a água existe e as condições de terreno são favoráveis, a população fixa-se e a propriedade divide-se; onde ela falta, a exploração agrícola  (...) só é possível em regime de grande propriedade"2.
Estas grandes assimetrias completam-se e complementam-se. A abundância de produção agrícola pede abundância de esforço e braços. Assim se conjugam vontades.
A resposta para esta contínua falta de mão-de-obra está nas migrações internas. São movimentos populacionais de carácter temporal limitado, associados aos ciclos produtivos agrícolas. Os fluxos migratórios tomam, preferencialmente, a direcção Norte-Sul e da montanha para a planura.
Maioritariamente oriundos do distrito de Castelo Branco, os Ratinhos eram  trabalhadores incansáveis, mourejando  sob o Sol escaldante, na mira de um ganho  maior.




Girão, Aristides de Amorim
"Geografia de Portugal"





O migrante Ratinho. Socos de madeira nos pés, fato de cotim, escuro, varapau ao ombro levando a manta e a merenda. A seu lado a interpretação sob o olhar arguto do artesão conimbricense. Semelhanças entre as duas imagens: um caminha para o seu local de trabalho, o outro, já de regresso, cansado, mas feliz.  Saudades para quem parte. Felicidade para quem regressa.




Num momento de descanso e final de um dia de trabalho. Duas figuras ligadas ao trabalho agrícola. Arrimado à sua pá, o homem, arrogante na sua virilidade, penacho no chapéu, prepara a ida à fonte, na mira das conversadas.
Pratos característicos da produção de Coimbra, conhecidos por faiança ratinha, nomeada que se lhe colou por serem levados pelos migrantes ratinhos, quando se deslocavam para as fainas agrícolas do Alentejo. Policromia, cercadura, plantas que ladeiam as figuras centrais.






O manajeiro e o violeiro. Funções importantes. Trabalho e distração. Pela Primavera, dirigia-se ao Alentejo a fim de averiguar sobre o estado das searas, do seu crescimento e estado de maturação. Apalavradas as ceifas, tomava de empreitada várias casas, comprometendo-se na angariação da mão-de-obra necessária para o trabalho a realizar. Regressado à sua terra iniciava o alistamento e formava as camaradas.Com alguma segurança, com um certo ar de senhor, que lhe advinha do conhecimento e exercício do que também tinha executado, dava conta da notícia do que iriam ganhar, escondendo, para os novatos nessas lides, o menos bom.
Partiam em meados de Maio. A pé, de burro, às vezes de combóio e, por vezes, de camioneta.




No fim da jorna do dia, na frescura do entardecer, mandavam notícias através daqueles que sabiam escrever. Apesar de cansados, o corpo pedia um pouco de dança. Surgiam as violas. O balho começava.
O manajeiro, com um certo ar de senhor, mas a que não faltam trejeitos de saltimbanco, olha-nos do meio da sua dupla cercadura florida. Figura ingénua, de um ingénuo artista.
O violeiro, em passo de dança, marca o ritmo e a roda começa. Braços no ar, bater ritmado dos pés, as figuras volteiam, incansáveis. Mais uma faina cumprida. Para o ano há mais.



1/2- Aristides de Amorim Girão e Fernanda de Oliveira Lopes Velho "Estudos da Populaçáo Portuguesa. Evolução Demográfica e Ocupação do Solo Continental  (1890-1940), Coimbra,1944, Separata da Revista Biblos, vol.XX.















quinta-feira, 22 de março de 2018

A Faiança Ratinha na colecção Abecassis





O Eng. José Abecassis foi um apaixonado coleccionador de faianças, com especial destaque para os paliteiros. Criterioso, reuniu um acervo do que de melhor se produziu na faiança nacional, sendo um dos seus enfoques a denominada Faiança Ratinha. 
O Palácio de Correio Velho leiloou a sua colecção, em Março de 1996. 

PCV, Catálogo
Colecção de Faianças
Eng. José Abecassis

PCV, Catálogo, Pág.18
Como já tinha sido referido, entre a sua colecção de faiança sobressaem os Ratinhos. Reuniu uma variedade impressionante de pratos, com  motivos decorativos diversificados. Enunciá-los, seria excessivo. A imagem fala por si mesma. Dos exemplares representados nesta página, dois se podem mostrar. 





Bicromático, em tons de verde e manganés. Pesado e de pasta compacta. Na cercadura e centro revelam-se encordoados, que se entrelaçam entre si, num entrecruzar sinuoso de linhas, que nos deixam admirados pela riqueza do desenho, conseguida pela utilização de instrumentos simples e de fácil manuseamento: pincel e cana de secção circular. 




Neste exemplar, com uma decoração mais requintada, podemos intuir a influência (?) de alguns painéis azulejares. A taça, onde se entrevêem dois corações asseteados, quiçá alusivos a amores incompreendidos, está ladeada por dois pássaros. Um ramo florido ornamenta o vaso. Observa-se uma paleta cromática - verde, amarelo ocre e manganés -, tão característica da faiança de Coimbra. Com três cores consegue uma decoração rica e sugestiva. Temporalmente, podemos situá-los no último terço do século XIX.

PCV, Catálogo, Pág.19

Esta página do catálogo mostra-nos, essencialmente, figuras humanas. Umas representam imagens de nobres mas, na generalidade, caracterizam figuras populares. Era a  faiança produzida para os menos favorecidos economicamente, mas que também tinham direito à imaginação e criatividade dos artesãos que, com forte probabilidade, a eles destinavam as suas pinturas. Também desta página se mostram dois exemplares.




A senhora, no seu traje de ver a Deus, de saia de riscas, mais curta do que era usual, presa na cintuda com uma faixa  que lhe dá um ar distinto. Blusa com decote pronunciado, mas não em exagero, que cai sobre as ancas, formando uma sobressaia. Na cabeça, um chapéu "mignon", com fitas duplas que caiem sobre as costas.
Envolve-a uma dupla cercadura florida,  preenchendo a superfície restante do covo.





A seu lado, como se fosse o seu acompanhante, mas que sabemos que tal não poderá ter acontecido, pois a figura representada - um jovem trabalhador, provavelmente agrícola -, não está vestida com os trajes adequados, comparativamente àqueles envergados pela senhora.
Uma cercadura mais leve e simples, formada por esponjados e linhas onduladas, que estabelecem a união entre as flores. A policromia exibida inclui já o azul, se bem que em apontamentos muitos escassos. Temporalmente, aponta para finais do século XIX. O desgaste que se nota no vidrado permite-nos concluir, com alguma certeza, o uso que lhe foi dado pelos seus utilizadores até ao momento em que entrou numa colecção sendo, desde então, considerado como elemento destinado a expôr e a preservar.


PCV, Catálogo, Pág.24


Nesta página, mais uma vez, predominam as figuras. Na última linha, os músicos: tocadores de viola, de gaita de foles e guitarristas. Todos eles, homens e mulheres, pelos trajes que envergam, mais populares e simples, sugerem pertencer ao povo. Muitos mais instrumentos musicais surgem, também, nas representações figurativas da Faiança Ratinha. No entanto, estes são aqueles que aparecem em maior número, talvez pelo carácter recriativo que lhes está subjacente.




Este prato, nas palavras do leiloeiro "dos melhores da colecção", tem uma presença marcante. Mostra-nos uma senhora abastada - colar e brincos de pingente - que, delicadamente, segura uma flor na mão. Saia comprida, listrada, e um corpete, apertando frontalmente com uma fileira de botões. A senhora tem como base para apoiar os pés, uma estrutura, semelhando um murete. 
Envolve-a uma dupla cercadura florida,  preenchendo a superfície restante do covo.

PCV, Catálogo, Pág.25
Esta página brinda-nos com a riqueza e variedade das representações zoomórficas: aves e peixes, com predomínio para as primeiras.



Uma  palangana com uma decoração excepcional: um soberbo pelicano. A representação desta ave ocupa uma forte tradição no imaginário social. Símbolo escolhido pelo rei D. João II traduz os valores fundamentais da fidelidade e do sacrifício. Zela extremosamente pelos filhotes, alimentando-os com o próprio sangue. Enrola-se sobre si mesmo, numa atitude de protecção.
Apresenta uma decoração cheia, de cores fortes e marcantes. Aliás, tem a comprovação de ter pertencido à colecção do Eng. Abecassis.








sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Ratinhos mais modernos






Mais um duo de ratinhos. Desta vez com uma ornamentação mais avant-garde, estilizada quer no formato, quer  na disposição decorativa.
A mesma arca, já aqui mostrada diversas vezes, representa o casamento perfeito para qualquer tipo de faiança. Traz memórias de ranchos, de criados (desculpem a palavra, mas era a que se usava em casa dos meus avós, uma casa agrícola na qual trabalhavam homens e mulheres). Em pratos grandes, mas de esmalte, eram servidas as refeições, em comunidade. Agrupados à volta da mesa, cada um com o seu garfo de três dentes, em ferro, retirava calmamente a comida que, de seguida, molhava  no prato ao lado.
Não sei dizer porquê, mas aquela refeição, aos meus olhos e dos meus primos, sabia melhor comparativamente à que tinha sido servida à mesa. As arcas serviam para guardar as fornadas de pão que se coziam quinzenalmente. Trigo e centeio, este último escuro, mas com um sabor tão próprio, que ainda hoje perdura no paladar.
Extravasei o tema.



Exemplares já mais avançados no tempo, talvez das primeiras décadas do século XX, mas com  características decorativas dos ratinhos, observáveis na cercadura e no apontamento da pluma de pavão. Coloridos, tons ricos de azuis e verdes, mostram flores, únicas, que dominam e captam o nosso olhar.



A flor, esguia e elegante, espraia-se pelo covo, numa conjugação perfeita com os esponjados presentes na aba. O pintor, sabedor do seu ofício, rapidamente delineou uma flor que avulta ao centro, rodeada de folhas e flores em botão.




Este prato, palangana pelas dimensões, apresenta também uma flor única, enquadrada pelas folhas e demais folhagem. Policromia exuberante, forte, em que sobressaem os zuis e os verdes. Centralmente domina o amarelo ocre, tão do gosto dos artesãos conimbricenses. Ao cimo, quase que a esconder-se, a pluma de pavão, de raízes orientalizantes e uma das marcas da Faiança Ratinha.
Num artigo saído no jornal Público, de 3 de Fevereiro de 1998, a sua autora Luísa Soares de Oliveira diz que "com a cerâmica ratinha, estamos com toda a certeza perante a adaptação mais genuína dos padrões orientais, que séculos antes tinham já influenciado a azulejaria e a cerâmica europeias".

Este post é dirigido a todos os que apreciam esta faiança que acalma o olhar e enriquece  a alma.









segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Coimbra tem mais encanto



O azul é a minha cor favorita. As faianças um dos meus temas de eleição. Em conjunto, tornam-se um motivo para debater algumas ideias, aventar hipóteses, sugerir ...
Neste recanto em tons de azul reuni algumas peças que poderemos, com alguma certeza, atribuir à produção coimbrã. As palanganas  são-no, indubitavelmente. As terrinas, pelo formato, pela cor, pela decoração, também apontam para uma mesma  proveniência.



Duas peças em ricos tons de azul, com apontamentos de manganés. Nitidamente inspiradas na produção oriental e no conceito de horror vacui mostram-nos uma ornamentação de vegetação exuberante, na qual as flores se distribuem por toda a superfície, numa clara demonstração de vontade de o autor preencher todo o espaço de que dispunha. Partindo de uma base assinalada por dois traços, as ramagens espalham-se, subindo até ao topo, definindo um eixo vertical à composição. Pelo meio, breves apontamentos de leves pinceladas, assumem-se como as folhas desses mesmos ramos de flores. Estas, em esponjado, uma das características que define a Faiança Ratinha, exibem a sua riqueza cromática, nos seus magníficos azuis, limitados pelo correr do pincel, em traços cheios ou ondulados, numa interpretação livre dos seus autores.


Entre outros materiais, considerados mais ricos e nobres, a pobreza da faiança coimbrã, moldada pelas mãos rudes e trigueiras dos seus artesãos, revela toda a sua riqueza nas formas, na policromia, na decoração e num enternecer que aquece as almas.





Palangana de ramo central de flores de linho. Sereno e belo. Toda a sua pujança está na cercadura, encordoada, num entrelaçar entre círculos esponjados e  traços elegantes e leves. A sua bicromia - azul e manganés - sobressai no fundo branco leitoso do seu revestimento esmaltado.





Duas terrinas que poderão ser atribuídas à produção (?) de Coimbra. Os seus tons de azul conjugam bem com as peças ratinhas anteriormente caracterizadas. A forma hexagonal de uma delas é usualmente atribuída a Coimbra. A sua decoração marmoreada lembra os lambris de azulejos, igualmente marmoreados,  que cercavam muitas das composições azulejares que podemos observar in loco ou nos museus. Ambas têm um tamanho mignon . Por isso ainda mais atraem o nosso olhar.







terça-feira, 19 de abril de 2016

A menina dança?



Mais um aniversário. É lógico que se comemore a data com um evento que perdure para a memória dos tempos. Já três anos se passaram desde que iniciei esta aventura cibernética. Nem sempre a inspiração vem, nem sempre a disposição está presente, mas o prazer de partilhar ideias e temas é gratificante. Assim,  continuaremos ...
Vamos celebrar com um baile. Não um baile de debutantes, mas um bailarico popular, em que a Menina - aquela que os nossos olhos admiram no prato de Faiança Ratinha - possa mostrar a frescura da sua tez trigueira e a  agilidade dos seus passos de dança.
Já no seu traje de festa, aprecia  o ramo de flores que o seu conversado lhe ofertou. Mais logo, nas voltas rápidas do vira, de novo lhe agradecerá as suas atenções. 
Num tom monocromático de manganés, é uma figura algo ingénua, mas um tanto audaciosa, pois o espartilho que a molda, faz destacar a sua cintura de vespa e o seu busto elegante. Traja uma saia rodada,  assente numa crinolina (?) que espalha o tecido em seu redor. Podemos imaginar um tafetá axadrezado, ornamentado com pequenos círculos e cruzes nas intercepções das linhas. O corpete de mangas compridas, bem justo e cintado, mostra um decote rendado.
O rosto, de perfil, apresenta um ar jovem e algo atrevido. Na cabeça, um chapéu de copa alta, confere-lhe um ar prazenteiro.
É uma figura marcante, que ocupa toda a superfície, destacando-se no envolvimento das ramagens.
Esta peça apresenta uma pasta grosseira, usada na produção das "faianças mais ordinárias, a que se dá o nome de ratinhas"1.A louça assim classificada, ordinária e de pasta mais grosseira, destinava-se a uma camada social mais desfavorecida economicamente, mas que não deixava de apreciar - e reconhecemos-lhe esse direito - uma decoração alegre e agradável aos olhos.
 
 


 
A senhora que se reproduz vem publicada na "Arte Portuguesa", sob direcção de  João Barreira, pág.198 e poderá ter servido de inspiração para a imagem da peça de faiança ratinha com que se inicia este post. O mesmo estilo de traje, de chapéu, de decote rendado. Diferencia-se por segurar nas mãos ramos de flores. Está datada dos finais do século XVIII (?). O artesão que a delineou, revela  um traço mais definido e seguro que se não observa no seu seguidor. Podemos colocar a hipótese de ter havido acesso a gravuras de álbuns que circulassem nas oficinas, pois  o traje e acessórios que as senhoras envergam não se coadunam temporalmente com os modelos de finais do século XIX. Essa discrepância é mais notória em relação aos chapéus. Atente-se na imagem seguinte:


François Boucher "Histoire du costume en Occident de l'Antiquité a nos jours"
Paris, Flammarion, 1965, págs: 256 e 280
   
 
 
Se procedermos a uma análise dos pormenores, nomeadamente dos chapéus, estes remetem-nos para uma época anterior (meados do século XVII). Usavam-se chapéus de copa alta, para ambos os sexos, embora os femininos, por garridice, fossem mais ornamentados. É possível, pois, que o pintor/ artesão, não tendo uma imagem contemporânea da época da produção da peça, tenha recorrido a uma anterior. O efeito decorativo primou pela originalidade e não desmereceu o pretendido. Pelo contrário, conferiu-lhe um toque exótico e assaz original.
 
 
Imaginemos, agora, um baile mais formal, num qualquer palácio da cidade do Mondego. A iluminação brilha e  reflecte-se nos espelhos laterais, conferindo ao salão uma miríade de cores, tão belos e ricos são os trajes das damas que valsam. Aqui as regras de etiqueta são mais rigorosas. Exigem trajes elegantes, adequados à solenidade do evento.
Algumas questões se impõem. Será que, aos humildes artistas ratinhos, foi dado observar os elegantes que assistiram ao baile? Se assim não foi, como conseguiram reproduzir tão fielmente os trajes? As respostas ficaram perdidas no tempo, mas a realidade, tão fidedignamente desenhada, essa chegou até nós, permitindo-nos ajuizar da mestria dos artesãos, que com tanta certeza as elaboraram. É a riqueza, embelezada pela pobreza. Pobres nos materiais, ricos na policromia e na composição criativa. 
 




 
 

A senhora, galante no seu traje, de saia presa por faixa dupla, com passamanaria franjada,deixando entrever o tornozelo, fino e elegante. O corpete, decotado, com galão em tons de azul. Da mesma cor, a sobressaia, apanhada na parte de trás, permitindo-lhe liberdade para os movimentos mais ágeis da dança. Na cabeça um chapéu, com duas fitas que caem pelas costas. De novo se destaca a irreverência ratinha - o ramo florido que rodeia a figura central - chamando a atenção para o colorido e a graça da cercadura envolvente.

 
 
 
O gentleman, qual Carlos da Maia, acompanha a senhora até ao salão de baile onde, diligentemente a vê apontar no seu carnet, os nomes dos cavalheiros que com ela vão dançar. As regras são precisas. A etiqueta assim o exige. 
O tempo passa. As luzes diminuem de intensidade. As velas  apagam-se. O baile terminou.
 
 
1- Charles Lepierre "Estudo Chimico e Techonologico sobre a Ceramica Portugueza Moderna". Lisboa, Imprensa Nacional, 1899, pág.119.
François Boucher "Histoire du Costume en Occident de l'Antiquité a nos jours". Paris, Flammarion, 1965.
 

 
 


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Uma arca transmontana



O mobiliário rústico português tem um encanto muito particular e, especialmente para mim, o que é de origem transmontana . Esta arca viveu numa qualquer casa, de uma qualquer aldeia, do concelho de Macedo de Cavaleiros.
Impõe-se pela sua elegância e dimensões. Assenta numa base que lhe dá a elevação necessária para manter a sua dignidade. Frontalmente tem um saial recortado, com a particularidade de ser amovível. As pranchas que a constituem, em madeira de castanho, são tábuas inteiras, maciças, indicativas da robustez e da fortaleza, quer das terras, quer das árvores, quer das pessoas que habitaram zonas tão inóspitas e longínquas. É uma peça feita para durar, que domina os locais onde se encontra. Qual terá sido a sua utilidade? Guardar o pão cozido quinzenalmente num  forno comunitário, alimento de famílias numerosas? Guardar o bragal das moças casadoiras que, pacientemente, à luz bruxuleante das candeias, o  iam tecendo e bordando? Guardar os fatos de ver a Deus, que iriam servir de mortalha? 
Abrindo -se, revela um conteúdo diferente ... um conjunto de alguns pratos de faiança de Estremoz.



                                


Esta faiança foi produzida na cidade de Estremoz, situada no distrito de Évora. O seu período de laboração baliza-se entre finais do século XVIII e princípios do século XIX. As Invasões Francesas, à semelhança do que sucedeu em muitas outras fábricas do país, vieram causar distúrbios na sua produção. Foi precisamente o que aconteceu em Estremoz. 
Senhora de uma pasta leve e fina, bem como de uma decoração elaborada e polícroma, as peças estremocenses adquiriram grande apreço entre os coleccionadores. Inicialmente, alguns pratos apresentam-se com a faixa de Rouen. No entanto, a predominância em relação àquela  afirma-se através de uma decoração mais apelativa e agradável aos sentidos. É o caso das flores, paisagens e motivos diversos.






Verifica-se uma harmonia, que encanta os olhos e enternece a alma.




O primeiro prato representa um esboço de paisagem, a que faltam as ruínas, tão do gosto oitocentista. Este tipo de esquema está concebido para que o motivo paisagístico seja o pano de fundo, mostrando, em primeiro plano, árvores ou vegetação mais rasteira. Na aba, pequenos e leves ramos num dos tons próprios desta faiança: o verde azeitona. A sua forma mostra algumas anomalias, resultantes, talvez, de um deficiente acondicionamento nas casetas e no forno. Não deixa, no entanto, de revelar a sua beleza. O segundo avulta pela simplicidade dos seus tons de azul e não desmerece no meio do conjunto.




Nesta peça observa-se uma roseta inscrita num hexágono em forma de grinalda. Um covo rico, pleno de cor, contrasta com a aba, onde uma singela cercadura de folhas vive da sua leveza.
Um dos motivos mais comuns: flores. Aqui, o artista, revelou a sua mestria, dando-nos uma imagem central onde impera a simplicidade, mas onde o traço demonstra certeza e precisão.
As flores mais usuais são as rosas, as túlipas e as anémonas. Podem ser representadas isoladas ou em conjuntos de três.


Mas a arca, qual ilusionista, ainda escondia outro segredo. Qual?
Um humilde conjunto de ratinhos que, envergonhados perante a altivez do grupo de Estremoz, não queriam ser mostrados. Mas não houve hesitações. A arca, pedia veementemente, quase exigia,  a exibição deste conjunto de pratos Ratinhos, em união perfeita com a singeleza das suas decorações.






Sven Stapf "Faiança Portuguesa Faiança de Estremoz",1997