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| Ganhão - in SOUSA, Alberto "O Trajo Popular em Portugal nos séculos XVIII e XIX" |
Os Ratinhos, beirões serranos, sazonalmente, iam trabalhar nas herdades alentejanas. Contratados à época, partiam a pé e, mais tarde, de combóio ou de camioneta, para as herdades que os iam albergar durante o tempo que durava a ceifa.
Nas suas roupas de cotim, matraqueando o chão que pisavam, seguiam em filas ordeiras, não deixando que nada ou ninguém os desviasse do seu propósito - chegar a tempo ao destino que os esperava. O trabalho, árduo e esgotante, era recompensado com a paga final que com eles traziam e ia alimentar a família até à próxima jornada, dali a um ano.
As migrações sazonais que, de Norte para Sul, se dirigiam para o Alentejo, provinham, maioritariamente, do distrito de Castelo Branco.
Por transposição, o nome estendeu-se às peças de faiança que levavam e utilizavam nas parcas refeições. Daí a designação de Faiança Ratinha. Como eles, grosseira e forte, era transportada nos alforges para, por vezes, servir de moeda de troca por outros produtos, muitas vezes trapos e panos. Era com estes que, posteriormente, nas noites de inverno, iriam tecer as mantas ratinhas. Daí que, os ratinhos fossem, também, chamados de "troca-trapos".
A Faiança Ratinha, tão agradável pelo seu cromatismo e ornamentação, tem lugar de destaque na produção cerâmica coimbrã. A produção desta louça decorreu durante todo séc. XIX, terminando cerca da terceira década do século XX.
Proponho-me, neste blog, apresentar alguns dos seus exemplares.
Este prato integra-se na categoria da figuração humana. Representa uma "violeira". Pelo seu aspecto juvenil, doce e tranquilo, pelo traje e penteado constata-se uma cuidada e conseguida execução da pintura, o que a distancia de outras representações, mais comuns.
Percebe-se uma diferenciação relativamente à gramática decorativa habitual, porquanto a jovem, para além de ocupar o lugar central, se espraia para a aba. Ladeiam-na dois ramos de flores esponjadas que a acompanham, ocupando a restante superfície.
Dentro das representações femininas, as figurações mais comuns são as que mostram a mulher com instrumentos musicais ou em actividades relacionadas com trabalhos considerados femininos.
É o caso deste outro prato, no qual a jovem senhora - uma fiandeira - exibe o mesmo tipo de traje e penteado. Ainda que, pelo vestuário, indicie ser de um nível social mais elevado, executa uma das tarefas atribuídas às mulheres, segurando nas mãos o fuso e a roca. A aba, separada do covo por duplo filete em azul, apresenta uma cercadura ondeada, com apontamentos florais no bordo.


