segunda-feira, 30 de junho de 2014

Faiança do século XVII: alguns tipos decorativos



Faiança do século XVII

Por faiança entendem-se "todos os corpos cerâmicos, independentemente da forma, revestidos a esmalte estanífero"1.
Publicações recentes, baseadas em "peças exumadas em contextos arqueológicos"2, permitem colocar, embora com alguma (in)certeza, a produção de faiança estanífera em Portugal, já a partir de finais do século XVI.
Ultimamente, as escavações arqueológicas e a arqueologia subaquática, muitas delas realizadas em diferentes zonas do mundo - tendo em conta os locais onde os Portugueses chegaram ou navegaram - deram, em termos de datação cronológica, um contributo precioso para esclarecer as muitas dúvidas que perduram e que, não obstante, continuam de difícil esclarecimento.
Reinaldo dos Santos apontou quatro grandes períodos para a faiança do século XVII, fazendo-os corresponder aos quatro quartéis do século.  O segundo período, que apelidou de "áureo", era, em sua opinião, aquele que melhor expressava a produção deste século, porquanto foi, nessa época, o segundo quartel do mesmo, que passaram a inserir-se elementos decorativos portugueses numa ornamentação maioritariamente oriental. Em seu entender, teriam sido, então, também introduzidos na paleta cromática o manganés e o amarelo,  surgindo temas decorativos nacionais relacionados com a Restauração, tais como soldados e brasões reais.
Inicialmente, a organização ornamental da faiança seiscentista denota profundas influências orientais, reproduzindo, com bastante fidelidade, a decoração da porcelana do período Wan-li, dado que a procura por parte das elites é muito forte, havendo, para esta produção cerâmica nacional, mercado certo, nomeadamente na Alemanha, onde se encontra grande número de exemplares.
No entanto, vão aparecer novos elementos decorativos nascidos da própria imaginação dos artistas pintores, que  introduzem elementos externos à gramática oriental. Daí  a inserção de temas de origem portuguesa, mantendo, no entanto,  uma clara predominância decorativa oriental - soldados armados,escudos e figuras tipicamente ocidentais-, tendo em conta a recente independência face a Espanha.
Uma tão profícua diversidade de elementos ornamentais, permite a agregação em famílias decorativas: desenho miúdo, aranhões, faixa barroca, rendas, contas, conventual.


Todas as peças que de seguida se apresentam são de dimensões reduzidas, variando entre os dezoito e vinte e dois centímetros. Contrastando com as de maiores dimensões - as peças de aparato, destinadas unicamente a ser vistas - revelam sinais de uso, permitindo concluir que eram efectivamente utilizadas pelos seus possuidores.


Prato oitavado, com Decoração de Desenho Miúdo, a azul cobalto, com contornos a vinoso de manganés. Uma cartela central, com a palavra ESCUTA, entre flores. Uma miscelânea de elementos vegetalistas e zoomórficos percorre a aba.
Esta família decorativa caracteriza-se por combinar elementos decorativos orientais e ocidentais, numa pulverização que se espraia por toda a superfície da peça.





Pequeno prato com Decoração de Aranhões, a azul cobalto e vinoso de manganés. O nome desta família decorativa provém dos elementos decorativos das abas, os quais mais não eram que as interpretações feitas pelos artesãos da ornamentação oriental usada na porcelana chinesa.





Duas peças com Decoração de Faixa Barroca. A designação desta família decorativa atribui-se aos "objectos produzidos na segunda metade do século XVII, contendo uma faixa ou tarja decorada com folhas de acanto estilizadas"3. Para além dos pratos, foi  também usada noutro tipo de peças, como canudos de farmácia e bacias de barba. Contêm as mesmas cores: azul de cobalto e vinoso de manganés: no primeiro, a letra F surge enquadrada entre vegetação; no segundo, uma paisagem com árvores e rochedos. Ambos apresentam, nas abas, cercaduras formadas por enrolamentos de folhas de acanto.







Pequeno exemplar com Decoração de Rendas. A flor central, unicamente em azul cobalto, mostra uma ornamentação densa e rica, de arcos e volutas, decoradas com rendas. Numa clara demonstração do horror vacui, o artista preencheu toda a superfície da peça.
O nome desta família decorativa tem, como provável origem, as rendas usadas no "vestuário português de quinhentos e seiscentos"4. 






Decoração de Contas. Ao centro sobressai um coração asseteado, circunscrito por círculos concêntricos, entre grupos de três contas, inseridas num triângulo. A aba mostra o mesmo esquema decorativo. Os mesmos tons: azul cobalto e vinoso de manganés.
A temática desta família decorativa, datável essencialmente da segunda metade do século XVII, continuou a ser usada ao longo mesmo século. Mais não é que a interpretação feita pelos nossos oleiros de um tema da porcelana chinesa, a cabeça de um ruyi, exprimindo poder e boa sorte. 






Uma faiança com uma ornamentação extremamente simples, conhecida por Conventual, uma vez que muitas destas peças procediam de encomendas feitas principalmente por conventos e personalidades ligadas a casas religiosas. 
Apresentam uma decoração muito simples, na qual a ausência de ornatos é manifestamente demonstrativa de uma inspiração mais arcaica. O fundo é esmaltado de branco, nele sobressaindo o azul cobalto e, mais tarde, também o vinoso de manganés. Este tipo de faiança perdurou até meados do século XVIII. 
Prato com as armas da Ordem de São Domingos ao centro, despojado de qualquer outra decoração.




Uma outra peça que, pelo singelo da ornamentação, também cabe nesta categoria. É um prato, talvez de produção exclusiva para a sua encomendante, "D. Thereza Maria". A inscrição do nome surge rodeada por uma grinalda de flores.






A faiança do século XVII constitui matéria de atracção irresistível, não só por representar historicamente o início da produção de faiança em Portugal como pela riqueza e diversidade das decorações oferecidas.
Agradeço ao seu proprietário a  partilha das peças apresentadas.




1- Casimiro, Tânia de Oliveira e Alves " Faiança Portuguesa nas Ilhas Britânicas (dos finais do século XVI até inícios do século XVII)", dissertação de doutoramento apresentada à FCSU, UNL, 2010, texto policopiado.
2 -Tânia Manuel Casimiro "Faiança Portuguesa: datação e evolução crono-estilística", Revista Portuguesa de Arqueologia, volume 16, pág. 352.
3/4- Miguel Cabral de Moncada "Faiança portuguesa Séc. XV a XVIII",  Scribe, 2008, págs.98 e 111.
Rafael Salinas Calado "Faiança Portuguesa", Correios de Portugal, 1992.






sábado, 21 de junho de 2014

Uma manhã tímida de Sol...

Uma manhã no Príncipe Real...

Dia 21 de Junho, início do Verão, manhã tímida de Sol. 
Partiram, a Catarina e a avó, numa aventura à descoberta de uma zona da cidade - o Príncipe Real.





Jardim de traçado romântico, ao gosto inglês, assim idealizado em meados do século XIX. Destaca-se o grande Cedro-do Buçaco, com os seus vinte metros de diâmetro. Espaço verde por excelência, as suas esplanadas e quiosques típicos acolhem, quer a população do bairro, quer  o grande número de turistas que o incluem na sua rota de visitas.


Nas manhãs de sábado, aí se realiza um mercado de produtos biológicos. A Catarina, consciente da importância  dos produtos naturais,  indica aqueles que, segundo a sua douta experiência, são os melhores para a nossa alimentação.

Saídas do jardim, iniciaram a sua viagem exploratória. Foram espreitar o Jardim Botânico, onde decorria uma Feira de Artesanato.





O encanto das barraquinhas encantaram-na. Observadora, mas indecisa, não sabia bem que direcção tomar. Nem as tabuletas indicativas lhe valiam... 







Acolhe-se, pensativa, à sombra frondosa de árvore.  Que caminho seguir?... 
Num repente, decide-se. Vamos por ali! E corre, apressada, para uma mancha colorida e rosada: os chás.


A gentileza e simpatia da senhora, com um belo chapéu de palha, à boa moda saloia, eram contagiantes. Com um sorriso e sempre versejando, em rimas criativas, anunciava as virtudes dos diferentes chás

Caminhámos um pouco mais... Os seus grandes olhos castanhos  iluminaram-se. Avistara ...a sua grande paixão: enfeites para o cabelo. 

Imagem retirada de www.facebook.com/meggcraft

A partir de páginas de revistas, a artesã criou artísticas rosas em papel, na velha arte do origami. Difícil foi seleccionar. Tantas! Tão bonitas e vistosas! 




Cansada, quer regressar. O autocarro atrasa-se. Há tempo para uma pausa. Um café, para a avó e um croquete para a neta.




Um beijo muito grande da avó. Quando repetimos a aventura?









terça-feira, 10 de junho de 2014

Registo de Santo António


O Passeio de Santo António

Saíra Santo António do convento
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento
Um cândido sermão sobre o pecado.

Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia
Que vinha a noite plácida baixando.

E andando, andando sempre, viu-se num outeiro
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge, 
Com a resignação de quem é santo...

O luar, um luar claríssimo nasceu, 
Num raio dessa linda claridade,
O menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais...
Os rouxinóis ouviam-se distante,
O luar, mais alto, iluminava mais.

De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito,
Ela trazia ao ombro a cantarinha, 
Ele trazia...o coração no peito.

Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O menino, porém, ouviu e disse:
- Oh Frei António, o que foi aquilo?

O santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como mel:
-Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada.

Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de ouro no caminho.
-Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
-Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho...

-Tu não estás com a cabeça boa...
Um passarinho a cantar assim!...
E o pobre Santo António de Lisboa
calou-se embaraçado, mas por fim,

Corado como as vestes dos cardeais, 
Achou esta saída redentora:
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
... Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou:- Jesus
                                                   São horas...
                   E abalaram para o convento.
                                                                Augusto Gil




Em época de Santo António, entendi justificar-se uma representação que a ele - figura que penetra tão profunda e transversalmente no imaginário da sociedade portuguesa -  respeita.
Num oratório, estaria este pequeno registo de cerâmica, executado em forma de coração,  idealizado pelo coração puro de uma freira, que assim via, afectuosamente, os santos da sua devoção.
O Menino, ao colo de Sua Mãe, estende os braços para Santo António. Trata-se de um trabalho conventual, minucioso e delicado. As suas  pequenas dimensões, e todo o interior, requereram mãos primorosas, de artista, capazes de conceber, com graça ingénua, uma decoração tão subtil.
A forma de coração - ideal da afectividade - e o material duradouro em que foi concebido simbolizam, na perfeição, a perenidade da aliança emocional e estética entre o sagrado e o humano.

O coração humano pulsa. O coração de barro, em chamas, mostra a fé ardente e pura de quem o moldou. Esvaziado do seu conteúdo terreno, amorosamente foi  preenchido com uma composição poética, de pequenas flores e cabeças de anjos que envolvem as figuras sagradas e santas. A sua ingenuidade comove. Toca-nos e deixa-nos sem palavras. A capacidade de expressão foge, ficando a beleza de um voto de fé, de alguém, de um qualquer convento, que assim se manifestou. 




Este exemplar, um dos vários de uma colecção que a seu tempo mostrarei, vai integrar, em data breve, a exposição do Museu Antoniano, a propósito das celebrações de Santo António de Lisboa.


Moldado como  um verdadeiro coração, a que não faltam as veias e artérias, mostra duas pequenas aletas, expressando as chamas que incendeiam de fé e amor espiritual os que o contemplam. Ao jeito dos registos e a rematar o trabalho da sua autora, uma fita de passamanaria e uma renda envolvem toda a estrutura. 


Estas singelas obras-primas, manifestações artísticas elaboradas na serenidade da vida conventual, eram, muitas vezes, oferecidas às visitas, quando, em dia de abertura ao exterior, lhes era permitido contactar com familiares e amigos.
Como sempre, agradeço a disponibilidade manifestada para a partilha e publicação destas imagens. 






terça-feira, 3 de junho de 2014

Ex votos,promessas, milagres




Testemunhos de graças recebidas, os ex-votos, quadrinhos ou milagres, são pequenos quadros que expressam de forma inequívoca a devoção e arte populares. Executados sobre madeira, tela ou cobre, eram "histórias contadas, em vivo colorido, da vida dos homens, episódios de desgraça e dor que terminavam num final feliz"1, oferecidos às capelas ou igrejas do santo invocado e por intercessão do qual se concretizara o pedido. Portadores de pequenas legendas, muitas vezes imprecisas ou com erros de ortografia, numa linguagem não erudita, não deixam, no entanto, de ser uma manifestação de fé, ingénua, mas convicta, e um agradecimento sentido pela mercê concedida. Este tipo de ex-votos datam, de um modo geral, dos séculos XVIII e XIX.
Modernamente, encontram-se, com igual propósito, muitas fotografias, intercaladas com representações mais antigas, simbolizando os agradecimentos pelas promessas feitas e entretanto concedidas. Muitas remontam à época da Guerra do Ultramar, décadas de sessenta e setenta do século passado, mostrando, principalmente, soldados na sua farda de militares.
Sob diversas invocações, os ex- votos relatam situações e vivências difíceis,só ultrapassadas e vencidas por verdadeiro milagre.




Neste, invoca-se a protecção de Nossa Senhora do Bom Sucesso para uma parturiente que "estando cinco dias prigozamente de parto sem poder vir com a criança a lus" a Ela recorreu e foram salvos, mãe e filho.
Estas pinturas, muitas vezes ingénuas, pelo carácter naif da sua execução, dão preciosas informações, sobre o seu contexto histórico e social. 
De um modo geral, em todos eles se pode observar uma clara definição de dois espaços de representação: o sagrado e o terreno. No presente ex-voto, à direita, envolta numa nuvem, encontra-se Nossa Senhora com o Menino nos braços.
No espaço restante, dispõem-se as demais figuras intervenientes: o pai, ajoelhado e de mãos postas, frente à imagem. O "Sorgião" indicando a figura de recém-nascido, a mãe, desfalecida, nos braços de outra senhora. Pelos trajes, requintados, das figuras, de finais do século XVIII, que se adequam à data indicada - 1769 - e pelo mobiliário - uma cama de bilros, "ornada de muitos pequenos elementos de torneado verticais, intercalados de travessões e remates entalhados"2 - podemos concluir  tratar-se de uma família abastada. 



Este ex-voto encanta pelo delicado e singelo tema: um milagre de S. Francisco que curou um menino que estava doente com "maleitas". A mesma organização cénica: à direita, a figura de S. Francisco, envolvido por uma nuvem, significando a força espiritual. À esquerda, a figuração do votante: o menino, de mãos postas,  ajoelhado, agradece a mercê da sua saúde pois  "foi o Santo servido de tirar-lhas".


Muitas vezes os temas estavam ligados à vida quotidiana das populações. Indicavam as suas profissões e as condições em que tinha acontecido o desastre. É o caso deste ex-voto.


Aqui invoca-se N. Srª. dos Remédios. O espaço cénico alterou-se. A imagem da Senhora encontra-se num altar, à esquerda. A família, aos pés de cama, reza pelas melhoras do seu doente. O acidente, causado por uma bomba de dinamite que rebentou quando estava a "abranger" fogo a um fogueteiro, ocorreu em "Simfens", no dia 4 de Agosto de 1888. O médico aponta para a cabeça do doente, enquanto o padre administra a Extrema Unção. Pelo mobiliário retratado podemos intuir que existia algum desafogo financeiro.




Um  exorcismo. Sob a invocação de N. Srª. das Dores, envolta nas nuvens que estabelecem a fronteira entre o profano e o divino, é concedida a saúde a Maria do Rosário, que estava "vexada do enemigo". Esta, de joelhos, agradece. O mafarrico, encurralado pela acção conjunta de N. Srª. e do padre, foge...





Para o grande final, uma parede plena de graça e exotismo. Uma belíssima colecção de ex-votos. Agradeço a gentileza e a disponibilidade manifestadas, que permitiram a sua partilha.

1- Alberto Correia "Do Gesto à Memória Ex-Votos", IPM, 1998, pág.7.
2- Robert Smith "Pinturas de ex-votos existentes em Matosinhos e outros santuários portugueses", Matosinhos, 1966, pág.6.

domingo, 25 de maio de 2014

Faiança de Miragaia (?)

Faiança de Miragaia (?)




Noblesse oblige! 
Os excelentes textos publicados sobre esta faiança pela Maria Andrade e pelo Luís Montalvão tiveram o efeito de despertar em mim o  interesse por esta fábrica e pela sua produção.  Quer em leilões, quer em feiras de velharias e antiguidades, o meu olhar, agora mais direccionado, fez-me cobiçar algumas peças. Foi o caso desta terrina e deste galheteiro que, pela pasta mais fina, pelo azul cobalto, pelo esmalte brilhante, poderão ser  atribuídos (?) a Miragaia.
João da Rocha, natural de Sabadim, Arcos de Valdevez, regressado do Brasil, onde enriquecera, fundou e construiu a sua fábrica em terrenos anexos à Igreja de Miragaia. A sua laboração iniciou-se em 1775. Para tal, "contratou três oficiais que vieram do Rio de Janeiro, dois da fábrica do Rato e quatro da de Massarelos, todos eles portugueses e por consentimento dos proprietários das respectivas fábricas"1. Após a sua morte, em 1779, o seu sobrinho e herdeiro, João da Rocha Soares, vai tomar a direcção da fábrica, depois de regressar do Brasil. Em 1827 (2) ou 1830 (3), e para fazer face à crescente concorrência da porcelana inglesa, introduziu-se a produção de louça em "formas, imitando-se os respectivos tipos estrangeiros, sobretudo os ingleses"4. Segundo Vasco Valente, corresponde ao segundo período de laboração da fábrica, compreendido entre 1827 e 1840. Passa, nesta fase, a produzir "faiança tipo inglês, esmalte estanífero branco, pintura monocroma azul, sobre decalque obtido pelo processo de gravura em cobre"5.

Fábrica de Louça de Miragaia, pág. 216

É a este período que correspondem as marcas MP ou Miragaia/Porto, por vezes envolvidas em ramos de louro.


Esta terrina moldada, de forma oval, com o bojo arredondado e colo baixo, apresenta alguns elementos que indiciam uma possível (?) produção de Miragaia. A decoração pintada e estampilhada, completada com alguns elementos de execução manual, revela a influência oriental nas construções, uma delas coberta com cúpula, rodeada por vegetação exuberante. A paisagem está inserida numa cartela, que se destaca pela cor forte do azul que a envolve. As diferentes nuances dos azuis, permitem uma noção de perspectiva e profundidade. Limita-a, na parte inferior, uma palma .







A tampa mostra a mesma composição decorativa. Remata com uma pega em forma de flor, inserida num conjunto de pétalas relevadas. Os azuis degradés enriquecem a composição decorativa.



Um pormenor delicioso nas asas: dois pássaros, afrontados, talvez simbolizando um casal de noivos, porquanto era usual, em algumas regiões,  oferecer peças de faiança como prenda de noivado.




Neste pequeno galheteiro, com galhetas desiguais, embora de ornamentação idêntica, sobressaem as flores que caracterizam e apontam, com grande probabilidade, para o segundo período da produção de Miragaia, balizado, como se disse, entre 1822-1850. Apesar da dissonância das galhetas, o cômputo geral agrada pela elegância, pela dimensão e pelas cores.
Constituído por base com duas partes circulares, onde encaixam as galhetas, de base arredondada, estreitecendo e terminando num elegante bico. A base apresenta, ainda, uma pequena caldeira, com tampa canelada. A pega, de forma auricular, sustenta toda esta estrutura. A decoração de flores brancas, num fundo azul, é semelhante à de muitas peças assacadas a esta fábrica.


Adquirido num leilão, onde parecia perdido e a pedir que lhe dessem uma oportunidade de brilhar e de fazer valer os seus direitos de peça "genuína miragaiense" (?), quando chegou e enfrentou os galheteiros congéneres  não se coibiu de gritar bem alto, com o seu belo sotaque tripeiro, a sua genealogia: sou de Miragaia (?)! Sou de Miragaia (?)! Nasci do trabalho conjunto das mãos capazes do oleiro e das mãos prodigiosas do pintor, que me deram esta forma delicada e estas cores, que lembram o azul do mar, em dias de calmaria.




1/3/4 - Luís Augusto de Oliveira, " Exposição Restropectiva da Cerâmica Nacional em Viana do Castelo", Porto, 1920, pág: 127 e 128.
2/5 - Vasco Valente "Cerâmica Artística Portuense dos séculos XVIII e XIX, pág. 72.
Fábrica de Louça de Miragaia, MNSR, Porto, 2008.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A Avenida da Liberdade

      
Fui "fazer ... a Avenida"

Esta expressão teve origem num português acabado de chegar de Paris. Apareceu no Chiado, "trazendo no fato um pouco do aroma das acacias do Bois de Boulogne, nas maneiras um ar de blasé de clubman parisiense, na linguagem uns gallicismos terriveis que faziam desesperar o indigena, e um tanto aborrecido com esta boa terra que não sabia explorar o seu belo Tejo e o seu magnifico sol, bocejando em procura de qualquer cousa que lhe suavisasse as maguas pela terra que deixara, exclamava para o grupo de amigos que o rodeavam:
Rapazes, vamos fazer ... a Avenida. E descendo o Chiado, arrastando consigo uns mais corajosos que se arriscavam a sair da porta do Baltresqui ou do Magalhães, ele ia todas as tardes ... fazer a Avenida."1


Imagem retirada da internet

Era este um dos acontecimentos maiores da sociedade de Lisboa no raiar do século XX. Todos, damas e cavalheiros, se passeavam na Avenida, como era de bom tom nessa  época. Circulando calmamente por entre as frondosas árvores, comentavam os últimos gritos da moda vinda de Paris ou os discursos proferidos na Câmara dos Deputados.
O velho Passeio Público já não satisfazia as necessidades dos lisboetas, no que dizia respeito  às diversões. O projecto da Avenida veio substitui-lo. A sua concretização é entregue a Ressano Garcia que, tendo estudado em Paris, se vai inspirar nas concepções urbano-paisagísticas de  Georges-Eugène Haussmann. Foi este que levou  a cabo a renovação da capital francesa: parques, praças  e avenidas arborizadas rasgam-se e integram-se na malha urbana. A sua acessibilidade acompanha o rápido sucesso que os novos "quartiers" alcançaram.
As antigas concepções do passeio mundano, murado e reservado para as elites, são esquecidas.

"Um tarde de domingo na Avenida"
Ilustração Portuguesa, nº34, 27 de Junho de 1904


Também eu fui... fazer a Avenida. A Feira de Velharias da Avenida. Desta vez em pleno século XXI, mas com imagens e objectos  pertencentes ao passado.




Embora a feira se distribuísse unicamente pelo lado direito de quem desce - compare-se, à esquerda, com o lado oposto - era grande e tinha muitos expositores. De tudo, um pouco se podia apreciar. 


Um belo e bom conjunto de molduras, das quais sobressai uma,  Arte Nova, com os seus elegantes enrolamentos exibindo, ainda, a fotografia de um senhor.

Um rapaz ainda novo, coleccionador de brinquedos antigos, mostrava garbosos soldadinhos de chumbo, dispostos em posição de combate. Mais abaixo uma outra banca com brinquedos do meu tempo.






Num outro vendedor, algumas faianças portuguesas, das quais ressaltava esta, pela sua elegância e cor.
Um outro mundo, antigo, que vive de memórias, acarinhadas por alguns, felizmente.



O matraquear das máquinas faz coro com as notas da concertina e o ritmo do sapateado.



Para terminar, um presente para um feliz (desde a véspera já não angustiado) e orgulhoso adepto do Belenenses - o meu marido.




Moura Cabral, "Lisboa: Crónica Elegante", 1886



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Faiança com decoração de perdizes

Faiança alada. Gaia ou Coimbra (?)


A nossa produção cerâmica é muitíssimo rica, pela diversidade que nos oferece. Uma, de fabrico mais fino, destinada às camadas mais abastadas e conhecedoras, as quais, cientes do papel que desempenhavam na sociedade oitocentista, eram particularmente selectivas nas suas encomendas. Outra, de produção artesanal, de pasta mais fraca, mas que atrai pelo colorido e ingenuidade da decoração, destinada principalmente às camadas mais populares. É o caso das peças que se apresentam e que têm em comum a representação de pequenas aves, quer na cercadura, envolvendo um motivo decorativo principal, quer como ornamentação única na peça.


Estas peças, de uso quotidiano, usualmente conhecidas como "decoração de perdizes" e com um grau de anonimato implícito, não são de fácil  atribuição a uma determinada fábrica. Gaia ou Coimbra? Fica a incerteza.
Sabido é que, após as Invasões Francesas, principalmente a partir da década de trinta do século XIX, houve uma evolução no processo de fabrico, entrando-se numa fase de quase plena industrialização. As novas unidades, criadas em Lisboa, Coimbra e Gaia, demonstram essa nova tendência. Abandonam as práticas mais ancestrais, adaptando-se às novidades de produção, nomeadamente às modernas técnicas de estampagem.
Representativas de um gosto muito específico e singular, são hoje apreciadas  e procuradas, figurando em colecções particulares e museológicas.



Estas peças, de uso quotidiano, usualmente conhecidas como "decoração de perdizes" e com um grau de anonimato implícito, não são de fácil  atribuição a uma determinada fábrica. Gaia ou Coimbra? Fica a incerteza. do tema decorativo principal. Bastante bem conservada para o seu tempo de vida, encontrei um exemplar análogo no acervo do grande coleccionador que foi António Capucho.

António Capucho. Retrato do homem através da colecção, pág: 139



Pequeno prato de serviço, também com as armas reais, conquanto as flores apresentem uma cor mais forte, em tom de bordeaux. Estes pratos de serviço são mais usuais, pelo que existem em maior quantidade, apenas variando a cor das flores.






A representação das aves, quer como motivo central, quer servindo de suporte decorativo a outras decorações, desde sempre me fascinou. Como ornamentação principal, muito poucos exemplares a exibem. Encontrei, tão só, dois pratos grandes e quatro mais pequenos, de um serviço. Nos primeiros, porque a superfície é maior, vários pássaros esvoaçam pelo espaço disponível. Nos segundos, de menores dimensões, as aves, isoladas, voam, agrupadas num pequeno bando.






Colocados em conjunto com outras faianças, formam um conjunto harmonioso.





Associadas, aqui, a um motivo diferente, "as perdizes", acompanham um emplumado galo, altaneiro no seu porte.




Para finalizar, guardei duas outras imagens, gentilmente cedidas pela Maria Andrade, com a mesma decoração, mas em tipologias diferentes. A chávena faz parte do acervo do Museu de Alberto Sampaio e a jarra de altar pertence à sua colecção particular. O meu bem haja.





Imagem de um jarro pertencente ao acervo do Museu dos Biscainhos com a decoração das perdizes, envolvendo as Armas Reais. 

Luísa Arruda, Paulo Henriques, Alexandre Pais, João Pedro Monteiro,"António Capucho. Retrato do homem através da colecção", Civilização Editora, 2004.