segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Davenport e Le Grand Tour







Este gracioso conjunto de peças inglesas marcadas Davenport, percorreu um longo caminho. De Inglaterra, passando por terras transmontanas, chegou  a Lisboa, onde terminou o seu Grand Tour. Recorda os tempos bons da minha infância.
Desde sempre me lembro de os ver, integrados no conjunto do serviço, aprumados e elegantes, na cristaleira que lhes estava destinada, na casa da Avó Isabel, na Rua de Santa Catarina, nº1363, no Porto.




À entrada da casa, a Avó Isabel, com cinco dos seus netos. A garota sisuda, do laçarote e vestido de xadrez, sou eu.
Ainda hoje existe a casa. Rés-do-chão e primeiro andar. Albergava esconderijos fantásticos, que o pequeno cão, o Fox,  revelava num ápice. Era o motivo das nossas queixas, pois não nos deixava gozar o prazer de estarmos escondidos tempo suficiente.  Ainda consigo descrever a distribuição das várias divisões. O átrio tinha uma porta de guardavento, com vidrinhos verdes, que dava acesso ao andar superior. À esquerda ficava a sala de jantar, comprida, algo solene, com as paredes apaineladas de madeira. Ao fundo, no lado direito, a cristaleira com o serviço Davenport, só  usado em dias de festa.

Para o meu Pai  ficou um prato coberto e dois pratos. 
De forma quadrangular,com tampa ovalada e bastante alta, o prato coberto revela uma decoração minuciosa, em tons degradés, de azul, que lhe conferem profundidade. O tema é um dos clássicos: as crianças, de feições caracteristicamente chinesas, brincando, inseridas na paisagem.  Os jogos vão variando. O casario e a paisagem, porém, mantêm-se. As cercaduras, floridas e rendilhadas, envolvem toda a decoração.  A pega da tampa, como que formando um arco, apresenta pequenos sinais: pontos e cruzes. 






Imagem retirada da internet
A marca é curiosa e lembra as primeiras peças marcadas pela fábrica. A palavra Davenport, em letras maiúsculas, foi usada a partir de 1805, acompanhada de uma âncora, incisa na pasta. O exemplar que herdei tem o número 77. Será um indicativo cronológico?







Os outros dois pratos, embora com tema afim, crianças a brincar,  apresentam entre si algumas semelhanças na decoração floral das cercaduras. Devem, contudo, ser posteriores ao prato coberto, já que a marca é totalmente diferente e, temporalmente, atribuída ao último quartel do século XIX
Não é, pois, de excluir a hipótese de serem peças provenientes de dois serviços, um deles mais antigo e possívelmente da casa do meu Bisavô, João José Vaz de Morais Madureira Lobo, que vivia em Mirandela.





Imagem retirada da internet

O Grand Tour terminou. A viagem foi longa e aliciante.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Imagem de roca ... testemunho de fé e de serenidade




O rosto desta pequena imagem de roca transmite a serenidade que lhe advém da extrema leveza e juventude do seu rosto. Com dimensões não muito usuais - cerca de quarenta centímetros, quando em geral o seu porte tinha medidas superiores - torna-se graciosa e apelativa para os nossos olhares. Imaginamos que possa ter estado em adoração num qualquer oratório de uma qualquer devota anónima, que amorosamente dela cuidava.

Algumas destas imagens, esquecida ou desconhecida a sua antiguidade e importância, estão expostas em altares de pequenas capelas e igrejas, vestidas por orgulhosas zeladoras, brilhando nos seus trajes de cetim e galões dourados. É o caso de duas peças que encontrei, uma na Igreja de Vila de Ala, aldeia do concelho de Mogadouro, e uma outra, em Miranda do Douro. Curiosa, levantei um pouco a orla das suas saias. Eram mesmo santas de roca.

Estas imagens tiveram o seu apogeu nos séculos XVIII e XIX, quando as suas congéneres em gesso, produzidas em série, entraram na preferência das pessoas graças aos novos gostos sociais e ao processo de industrialização, que as fabricava por um valor mais económico.
A sua estrutura compositiva, articulação dos membros e diversidade de trajes e atributos, vocacionava-as para atrair a atenção dos devotos e desempenhar um papel de destaque nos rituais processionais, tão do gosto das populações. A expressão sofredora, nos casos das cenas da Paixão de Cristo, potenciava grandiosos efeitos visuais, levando, segundo a estética e a teatralidade barrocas, a que os espectadores se sentissem integrados na realidade da representação.
Devido à acção evangelizadora da Companhia de Jesus, muitas destas esculturas perduraram no tempo e são veneradas em muitas regiões, nomeadamente no Brasil, onde algumas ainda saem em procissões.





As santas de roca, também conhecidas por imagens de vestir, eram constituídas por dois elementos definidores: O corpo, esculpido realçando a cabeça e as mãos, bem trabalhadas e com carnação, era, de um modo geral, de madeira mais nobre. A armação, oculta pelo vestuário, resumia-se a uma estrutura de ripas, que servia, não só para sustentar a parte visível, como também tinha o propósito de tornar mais leve a imagem, contribuindo, assim, para aligeirar o peso de toda a encenação quando transportada no andor.
O enriquecimento das peças decorria, também, dos atributos que lhes eram apostos, muitas vezes rivalizando as confrarias para exibir os trajes mais ricos e as jóias mais vistosas.
Neste caso, a imagem exibe um pequeno fio de prata de onde pende uma pequena e singela jóia, em forma de flor.




A saia, de um rico veludo azul, com ramagens douradas, cai em pregas profundas que vão abrindo. Espraia-se em  seu redor, formando uma pequena cauda.

Numa tentativa de aproximar as Santas de Roca da realidade, eram-lhes apostas cabeleiras naturais e dado um tratamento especial aos pormenores.
Possuidoras de variados trajes, qual deles mais rico e sumptuoso, tinham a sua colecção particular de jóias de ouro, prata e pedrarias. Este enxoval ia sendo constituído por numerosas dádivas, resultantes de promessas ou também legadas em testamento.  
O cuidado posto no tratamento das faces e das mãos, bem como o esplendor e opulência das roupas que vestiam, tinham como objectivo enriquecer a cenografia, servindo para despertar um maior fervor e estabelecer uma comunicação estreita e directa com os acompanhantes.
A articulação dos braços e mãos permitia o seu posicionamento conforme a época e o evento religioso que ia decorrer. 






domingo, 21 de setembro de 2014

S. Vicente Ferrer, uma imagem alada


S. Vicente Ferrer




Pequena e graciosa imagem alada de S. Vicente Ferrer. 
Na iconografia cristã são assim figurados os santos dominicanos S. Tomás de Aquino e S. Vicente Ferrer. Este último, conhecido pela sua acção pregadora, cujos sermões eloquentes e comovedores levaram à conversão de muitos judeus e árabes, considerava-se o Anunciador do Juízo Final. 



Com uma altura de cerca de 26 cm, a imagem exibe um santo ainda com feições juvenis, que não espelham a  vida de sacrifícios extremos a que se submetia. Vestido com o hábito dos dominicanos, túnica e escapulário brancos, manto e pequena capa negros, com pintura e decoração de fino traço, tão ao gosto do século XVIII. 
Os atributos que lhe são apostos, para além das asas, raramente representadas, são, como no caso presente, o indicador direito apontando para o céu, numa clara alusão ao Juiz Supremo e o livro aberto, que segura na mão esquerda, e personifica a eficiência persuasiva e esclarecedora das suas palavras.



A figura jacente a seus pés é uma alusão ao Milagre de Salamanca. Olhando para o Santo, de modo implorativo, a miraculada agradece a graça recebida - a vida. Frei Manuel de Lima, no Agiológico Dominicano, conta-nos, a história desse milagre: "Teve notícia de que em Salamanca alguns ouvintes murmuravam dos seus sermões; ao outro dia sobe ao púlpito e ponderando que São João no seu Apocalipse vira um anjo, que pregava as vizinhanças do dia do Juízo, continua dizendo: Eu sou este Anjo do Apocalipse, eu sou o mesmo anjo que em figura se representou a São João.Alvoroçou-se o auditório, os censuradores desembuçaram o seu desagrado  e S. Vicente depois de uma breve pausa, torna a dizer: Sossegai, sossegai os escândalos. Acaba de expirar uma mulher à porta de São Paulo, venha aqui esse cadáver e ouçamos o seu testemunho. Veio o cadáver e descobriu.se perante o púlpito e perguntou-lhe o Santo: Mulher sou eu o Anjo do Apocalipse que publica a hora do Juízo universal? Sim, diz a mulher, tu és esse Anjo, tu o que foi representado naquela visão. Torna a perguntar-lhe São Vicente: Queres ficar com vida, ou queres ir para a sepultura? Quero viver, respondeu a mulher. Pois vive, disse o Santo e viveu largos anos, perene testemunha de tão multiplicados prodígios".1




S. Vicente Ferrer  nasceu em  Valência, no ano de 1350. Com dezassete anos deu entrada na Ordem dos Dominicanos. A sua acção pregadora, focada especialmente na necessidade da conversão, espalhou-se pela Europa principalmente pelos países circundantes, como França e Itália. Faleceu em Vannes, França, no ano de 1419. Foi canonizado em Roma pelo Papa Calisto III, em 1455.



Imagem retirada da internet


1- Frei Manuel de Lima "Agiológo Dominio", Tomo II, Lisboa, 1710, pág.32.
Juan Ferdinand Roig, "Iconigrafia de los Santos", Ediciones Omega, 1950.
Jorge Campos Tavares, "Dicionário de Santos", Lello e Irmãos Editores.
António José de Almeida "Iconografia insólita, em Aveiro: Santos alados".



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Salva de aguardente Miragaia (???)







Uma surpresa ...
Foi posta em praça, no último leilão da Cabral de Moncada, esta salva de aguardente. De imediato, nasceu uma intensa vontade de a ter, que, felizmente, se concretizou.
Face à descrição exaustiva de que foram objecto as peças análogas que vi, lindas e muitíssimo bem caracterizadas nos blogs do Luís, da Maria Andrade e da Maria Paula, creio que não há muito mais a dizer. Talvez, como indicam as várias interrogações apostas no título deste post, esta se possa aproximar do fabrico de Miragaia, pois apresenta as flores que são um dos elementos marcantes da sua produção. Por comparação com as outras peças registadas, a base é muito semelhante às mostradas, diferindo na cercadura do prato e na decoração central.






O prato exibe uma cena de casario alargado, querendo, porventura, lembrar uma pequena localidade, perdida no território. Não é, de todo, a costumada cena do pagode chinês, com as suas cúpulas redondas, a ponte e as árvores laterais. Pelos escassos exemplares que pude observar, todos eles mostram decorações diferenciadas. 

O fim a que se destinavam estas peças - aproveitamento da aguardente, através da recuperação dos pingos caídos dos copos bolcados- faz-me recordar uma pequena história que se passou comigo, já lá vão alguns anos, nas longínquas terras transmontanas. Num fim de tarde de Outubro, chuvoso e em que o frio apertava, fazia-se aguardente num grande alambique de cobre. As brasas ardiam e um fio escorria lentamente para o recipiente onde era recolhido. Quiseram dar-mo a provar, num daqueles pequenos copos de vidro estriado, com as marcas bem nítidas das várias vezes em que tinha sido cheio. Ingenuamente, bebi de uma só vez. As lágrimas caíram, tal o ardor que senti. Remédio santo. Até hoje, nunca mais toquei numa gota desse precioso líquido.



Um outro exemplar desta espécie de peças, este fotografado na leiloeira Marques dos Santos, a quem agradeço a gentileza por me ter permitido fazê-lo.
A decoração é  mais singela e muito agradável ao olhar. O ramo florido atravessa longitudinalmente a superfície do covo, conferindo-lhe um ar primaveril. De possível (?) atribuição a Gaia ou Coimbra, por comparação com algumas terrinas que apresentam decoração e paleta cromática semelhantes.














quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Algumas peças em Cantão Popular

Peças decoradas com o motivo Cantão Popular




Uma pessoa de família reuniu uma bela colecção de peças com a decoração conhecida por Cantão Popular. Estas terrinas demonstram o seu bom gosto. Se bem que se assemelhem no motivo decorativo e na forma, apresentam algumas diferenças nas pastas e nos azuis, uns mais intensos, outros mais esbatidos. Feitas por e para pessoas simples, eram executadas em materiais mais grosseiros,  apresentando alguns defeitos, como o vidrado escorrido e a pintura algo apressada. O facto de terem chegado inteiras até aos nossos dias, demonstra a estima em que eram tidas e o cuidado no seu manuseio.
De conformidade com as palavras que o Luís Montalvão escreveu no seu post, de 9.10.2010, o motivo conhecido por Cantão Popular, mais não é que "a adaptação livre e ingénua da louça inglesa do Willow Pattern e foi fabricado em Portugal por várias oficinas, a maioria anónimas, desde o início do século XIX até aos anos 60 ou 70 do século XX. 
A partir do momento em que se estabeleceu o contacto com o longínquo Oriente e logo que as peças oriundas da China começaram a chegar aos mercados europeus, as chinoiseries (muitas delas simples interpretações, algumas bem fantasiosas) tornaram-se moda em muitos ramos das artes decorativas e a cerâmica também acompanhou a nova tendência. O motivo conhecido entre nós por Cantão Popular, inspirado na porcelana inglesa, foi popularizado por Thomas Minton, cerca de 1790 e passou a caracterizar a porcelana inglesa desse período, rivalizando, quer em qualidade, quer na economia do preço, com a sua congénere chinesa.



  




Este prato coberto encanta pelas suas dimensões reduzidas, aproximadamente 23 cm. Também se insere, tal como as peças anteriores, na classificação sugerida pelo Luís, como um exemplar da família da "árvore de fruto". A liberdade de inspiração dos anónimos artistas, fosse por dificuldades de representação, fosse pela superfície reduzida que tinham para decorar, levou a que não estejam presentes alguns dos elementos - arvores, figuras lendárias, pombas - que inicialmente individualizaram este padrão.




Para finalizar, uma pequena jarra e uma chávena, estas com a figuração do pinheiro. A partir de um esquema decorativo conhecido e  bem dominado, os artistas demonstram a sua capacidade criativa,  interpretando, a seu modo, os elementos que caracterizam o Cantão Popular. 






"Velharias do Luís"- Luís Montalvão
"Arte, Livros e Velharias" - Maria Andrade





quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Jarro da Fábrica do Senhor do Além (?)






Uma peça interessante e invulgar, que desperta a atenção, quer pelas dimensões, quer pela forma e ainda pela riqueza decorativa. Forte probabilidade de ter sido produzida no início do século XX. 
É atribuída, por um coleccionador de escol, à Fábrica do Senhor do Além, situada na vertente norte da serra do Pilar, nas margens do Douro, em Vila Nova de Gaia. Foi uma das muitas fábricas vilagaienses, que existiram e laboraram nesta zona, nos séculos XIX e  XX. 

Ruínas da Fábrica do Senhor do Além
Imagem retirada do Blog "Monumentos Desaparecidos"
 Fotografia de Alexandre Silva
No ano de 1861, as instalações foram vendidas a António Rodrigues dos Santos, sendo o imóvel caracterizado como "uma propriedade de casas no sítio que foi antigamente o Hospício do Senhor d'Alem"1. A partir de 1866, a fábrica fica sob a gerência dos irmãos Vieira Braga. Estes, por dissensões internas, não conseguem manter a sua laboração e vai entrar num período de decadência. Finalmente, em 1908, uma nova gerência dá-lhe vida e fulgor. Adquire prestígio e a sua produção artística torna-se conhecida e apreciada. Embora não sejam muitas as peças conhecidas e marcadas, existem algumas que, inclusivamente, têm constado da almoeda de algumas casas leiloeiras, como a Cabral de Moncada.




Peça bem lançada, com um esmalte branco baço e uma paleta cromática forte e viva. Frontalmente, como se vê na primeira imagem, apresenta uma pequena albarrada, com flores em tons de rosa forte e amarelo. Poderá estar associada a idênticos motivos decorativos da produção azulejar a que a fábrica se dedicou no seu último período de laboração. Lateralmente, e nas imagens que antecedem, podem ver-se as armas de Portugal e do Brasil, encimadas pelas respectivas coroas real e imperial, e ladeadas por palmas. Todo este trabalho é relevado.  No frete, recolhido, bem como no início do bojo e no terminal da boca, observam-se cinturas de perlados, azuis e rosa, numa alternância ritmada e bem conseguida.



A boca é larga e bem lançada, admitindo-se que nela possa ter sido aposta  uma tampa. A asa, elegante e de forma auricular, num belo tom azul esverdeado, apresenta trabalho relevado, terminando num emaranhado de folhas.




Termino este post com uma pequena história, contada através de uma outra peça de faiança, exactamente do mesmo modelo e forma, também relevada, mas com paleta cromática diferente, alusiva a um aluno que sonhava, quem  sabe, com o canto dos grilos e com os espaços abertos que o deixariam mais feliz do que as repetidas lições do Senhor Professor. Como o respeito e a autoridade do mestre eram, à data, inquestionáveis e soberanos, o pai do garoto, cerâmico na Fábrica do Senhor d' Além, ciente de que o seu filho era um aluno rebelde e traquinas, modelou este jarro e ofereceu-o ao Mestre, como que pedindo desculpa pelo comportamento do seu rapaz.
Frontalmente pode ler-se o nome do homenageado António de Oliveira Reis, professor primário na freguesia de Avintes, ladeado pelos escudos de armas de Portugal e do Brasil.
"A Cerâmica em Vila Nova de Gaia", pág.286

A singularidade da peça está na tampa, que exibe todos os elementos necessários ao trabalho escolar: o quadro preto, o compasso, o esquadro, a secretária, o tinteiro, o ponteiro, a palmatória, o livro e a pena para escrever. Ao centro, choroso, o sonhador castigado...


  "A Cerâmica em Vila Nova de Gaia", pág.287


1 - Manuel Leão " A Cerâmica em Vila Nova de Gaia", Fundação Manuel Leão, 1999, pág: 284







segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Bandeiras ... do meu enternecimento


Era uma vez ... 
Dois pratos - um galo e um prato de garfo e faca - peças belíssimas, atribuídas à fábrica de Bandeira.
Foram adquiridos por meu Pai, em Borba, pela exorbitante... quantia de vinte escudos. Numa das suas viagens de serviço, acompanhado por um colega, este verdadeiro apreciador de faianças, entusiasmou-se e iniciou a sua e... minha colecção.
Muitos anos moraram na parede da sala de jantar, numa curiosa miscelânea, em que imperavam como únicos exemplares da produção de faiança portuguesa. 
Tão grande era a minha afeição que, quando foi a minha hora de "voar mai'lo meu homem", me seguiram. Outros se lhe juntaram. Formam, nos seus conjuntos - casario, garfo e faca e outros de que brevemente falarei - famílias decorativas, garridas e joviais, alegrando festivamente as paredes da sala.


Casarios inseridos em paisagens. Assemelham-se no conjunto arquitectónico. Diferenciam-se no tipo de vegetação - as árvores - e nas cercaduras.

A Fábrica da Bandeira nas palavras de Pedro Vitorino era "pequena, produzindo faiança vulgar e de uso doméstico; pintura policrómica predominando a estampilhagem"1. Não era costume desta Fábrica - tal como acontecia na generalidade da nossa faiança - marcar as peças, pelo que, muitas vezes, a sua atribuição se torna difícil e algo empírica. No entanto, os tons quentes que a caracterizam, a decoração "vistosa e densamente aplicada"2, o horror ao vazio que predomina nas suas abas e os pormenores de pintura à mão livre que completam as suas composições constituem indícios que tornam mais próxima a sua identificação/classificação.
Apesar de ser uma faiança "ordinaria e de uso doméstico"3, a sua produção foi distinguida com menções honrosas, na exposição de 1882, no Palácio de Cristal, no Porto e na de 1894, realizada em Gaia.



Nestes dois pratos, o casario envolve-se de forma harmoniosa com a vegetação, sendo de salientar a noção de perspectiva, se bem que ainda rudimentar. Aba com rosas e folhas, em tons quentes e vivos, principalmente os alaranjados. Igualizam-se  na disposição do conjunto de casas, mas distinguem-se nas envolvências: base e arvoredo.



Estes exemplares, mais pobres pela ingenuidade na composição das casas, demonstram uma mão algo insegura. Revelam, no entanto, uma acrescida singularidade na vegetação: palmeiras e cedros (?) e outras espécies que não consigo identificar. Na decoração da aba do primeiro prato ressaltam mal-me-queres, unidos por linhas onduladas em tom de azul.




Outra gramática decorativa: garfo e faca cruzados, intercalados com postas de peixe. Nas abas podem ver-se rosas e camélias, por entre folhas espessas, vibrantes nos seus tons de verde. 
A mesma tendência de profusão de cores, de superfície completamente decorada, na tentativa conseguida de agradar aos olhos, fazendo esquecer as dificuldades quotidianas que se sentiriam.


Para o fim, o prato mais especial. Um garfo e duas cabeças de peixe. Rico no desenho, na paleta cromática, na alegria e ingenuidade do tema.
Bom apetite!









1 - Pedro Vitorino "Cerâmica Portuense", Edições Apolino, Gaia- Portugal,MCMXXX
2 - Isabel Maria Fernandes "Meninos Gordos Faiança Portuguesa", Civilização Editora, 2005, Pág. 34
3 - Charles Lepierre "Cerâmica Portuguesa Moderna", Lisboa, Imprensa Nacional, 1899,Pág. 108