terça-feira, 19 de abril de 2016

A menina dança?



Mais um aniversário. É lógico que se comemore a data com um evento que perdure para a memória dos tempos. Já três anos se passaram desde que iniciei esta aventura cibernética. Nem sempre a inspiração vem, nem sempre a disposição está presente, mas o prazer de partilhar ideias e temas é gratificante. Assim,  continuaremos ...
Vamos celebrar com um baile. Não um baile de debutantes, mas um bailarico popular, em que a Menina - aquela que os nossos olhos admiram no prato de Faiança Ratinha - possa mostrar a frescura da sua tez trigueira e a  agilidade dos seus passos de dança.
Já no seu traje de festa, aprecia  o ramo de flores que o seu conversado lhe ofertou. Mais logo, nas voltas rápidas do vira, de novo lhe agradecerá as suas atenções. 
Num tom monocromático de manganés, é uma figura algo ingénua, mas um tanto audaciosa, pois o espartilho que a molda, faz destacar a sua cintura de vespa e o seu busto elegante. Traja uma saia rodada,  assente numa crinolina (?) que espalha o tecido em seu redor. Podemos imaginar um tafetá axadrezado, ornamentado com pequenos círculos e cruzes nas intercepções das linhas. O corpete de mangas compridas, bem justo e cintado, mostra um decote rendado.
O rosto, de perfil, apresenta um ar jovem e algo atrevido. Na cabeça, um chapéu de copa alta, confere-lhe um ar prazenteiro.
É uma figura marcante, que ocupa toda a superfície, destacando-se no envolvimento das ramagens.
Esta peça apresenta uma pasta grosseira, usada na produção das "faianças mais ordinárias, a que se dá o nome de ratinhas"1.A louça assim classificada, ordinária e de pasta mais grosseira, destinava-se a uma camada social mais desfavorecida economicamente, mas que não deixava de apreciar - e reconhecemos-lhe esse direito - uma decoração alegre e agradável aos olhos.
 
 


 
A senhora que se reproduz vem publicada na "Arte Portuguesa", sob direcção de  João Barreira, pág.198 e poderá ter servido de inspiração para a imagem da peça de faiança ratinha com que se inicia este post. O mesmo estilo de traje, de chapéu, de decote rendado. Diferencia-se por segurar nas mãos ramos de flores. Está datada dos finais do século XVIII (?). O artesão que a delineou, revela  um traço mais definido e seguro que se não observa no seu seguidor. Podemos colocar a hipótese de ter havido acesso a gravuras de álbuns que circulassem nas oficinas, pois  o traje e acessórios que as senhoras envergam não se coadunam temporalmente com os modelos de finais do século XIX. Essa discrepância é mais notória em relação aos chapéus. Atente-se na imagem seguinte:


François Boucher "Histoire du costume en Occident de l'Antiquité a nos jours"
Paris, Flammarion, 1965, págs: 256 e 280
   
 
 
Se procedermos a uma análise dos pormenores, nomeadamente dos chapéus, estes remetem-nos para uma época anterior (meados do século XVII). Usavam-se chapéus de copa alta, para ambos os sexos, embora os femininos, por garridice, fossem mais ornamentados. É possível, pois, que o pintor/ artesão, não tendo uma imagem contemporânea da época da produção da peça, tenha recorrido a uma anterior. O efeito decorativo primou pela originalidade e não desmereceu o pretendido. Pelo contrário, conferiu-lhe um toque exótico e assaz original.
 
 
Imaginemos, agora, um baile mais formal, num qualquer palácio da cidade do Mondego. A iluminação brilha e  reflecte-se nos espelhos laterais, conferindo ao salão uma miríade de cores, tão belos e ricos são os trajes das damas que valsam. Aqui as regras de etiqueta são mais rigorosas. Exigem trajes elegantes, adequados à solenidade do evento.
Algumas questões se impõem. Será que, aos humildes artistas ratinhos, foi dado observar os elegantes que assistiram ao baile? Se assim não foi, como conseguiram reproduzir tão fielmente os trajes? As respostas ficaram perdidas no tempo, mas a realidade, tão fidedignamente desenhada, essa chegou até nós, permitindo-nos ajuizar da mestria dos artesãos, que com tanta certeza as elaboraram. É a riqueza, embelezada pela pobreza. Pobres nos materiais, ricos na policromia e na composição criativa. 
 




 
 

A senhora, galante no seu traje, de saia presa por faixa dupla, com passamanaria franjada,deixando entrever o tornozelo, fino e elegante. O corpete, decotado, com galão em tons de azul. Da mesma cor, a sobressaia, apanhada na parte de trás, permitindo-lhe liberdade para os movimentos mais ágeis da dança. Na cabeça um chapéu, com duas fitas que caem pelas costas. De novo se destaca a irreverência ratinha - o ramo florido que rodeia a figura central - chamando a atenção para o colorido e a graça da cercadura envolvente.

 
 
 
O gentleman, qual Carlos da Maia, acompanha a senhora até ao salão de baile onde, diligentemente a vê apontar no seu carnet, os nomes dos cavalheiros que com ela vão dançar. As regras são precisas. A etiqueta assim o exige. 
O tempo passa. As luzes diminuem de intensidade. As velas  apagam-se. O baile terminou.
 
 
1- Charles Lepierre "Estudo Chimico e Techonologico sobre a Ceramica Portugueza Moderna". Lisboa, Imprensa Nacional, 1899, pág.119.
François Boucher "Histoire du Costume en Occident de l'Antiquité a nos jours". Paris, Flammarion, 1965.
 

 
 


quinta-feira, 17 de março de 2016

Pias de água benta

 
 
 
 
 
Em tempos mais recuados, nas missas dominicais, era usual o gesto de tocar com os dedos na água benta que as pequenas pias, como as acima representadas, continham. Estas, maiores ou menores, de diferentes materiais, encontravam-se à entrada das naves paroquiais. Tal gesto, tinha como finalidade  concretizar o sinal da cruz, destinado a purificar o corpo e a mente, recordando-nos a santidade do local onde entrávamos. Pretendiam, também, recordar as práticas da primitiva igreja cristã  que, na tradição de outras religiões, que a cristã conservou, tinham, à entrada dos seus templos, grandes recipientes com água, para os sacerdotes e os fiéis se purificarem, antes de iniciarem ou participarem nos ritos religiosos.
 
As duas pias de água benta representadas, senhoras de muita graciosidade e beleza, quer nas formas, quer no relevado e na cor, lembram aos homens o fim para que foram executadas - conter água benzida pelo sacerdote, para que todos pudessem, simbolicamente, através do gesto de reviver o sinal da cruz, entrar de alma pura para assistir ao ofício divino.
Nos seus escassos 22 cm de altura, mostram a grandeza das mãos rudes que as criaram. Ambas aludem ao martírio de Cristo - a Crucificação.  Ambas mostram caldeiras gomadas, em forma de cúpula invertida, e espaldares relevados e recortados. Vivem do contraste do azul profundo, com o branco etéreo do esmalte com que foram cobertas.
 

In Artur de Sandão "Faiança Portuguesa séculos
XVIII/XIX", vol.1, pág. 55
 

Atribuir a sua  produção a um determinado centro é difícil e não se pode fazer de ânimo leve. No entanto, por comparação com exemplares publicados em obras de referência, como é o caso de Artur de Sandão,  talvez não seja um grande atrevimento, podermos apontar indícios ao centro coimbrão, famoso pela produção de faiança. O autor situa o seu fabrico em Coimbra. Formato, tamanho, policromia serão, quiçá, elementos que se podem ter em conta para localizar a sua produção nas olarias conimbricenses, com provável datação em finais do século XVIII (???).
A produção de faiança nas olarias de Lisboa, de finais do século XVII e primórdios do XVIII, conhecida pela designação de Monte Sinai, atribuída por José Queiroz e que entrou no léxico de quem se interessa pelo estudo da faiança portuguesa,  influenciou grandemente as peças  produzidas em Coimbra.
 
 
In "Faiança Portuguesa séc. XVI a XVIII", pág.133
Miguel Cabral de Moncada 
 
 
 Três pias de água benta representando Nossa Senhora com o Menino, Santo António com o Menino e a Cruz alusiva ao martírio de Cristo, encimando o espaldar um anjo barroco. É patente a influência da talha portuguesa nas colunas que ladeiam as composições. Igualmente enriquecidas pelo contraste do branco leitoso com o azul profundo, realçado pelo esbatido cromático dos azuis.
Num pequeno artigo escrito por Matos Sequeira na Revista da Feira da Ladra, no ano de 1935 acerca do espólio cerâmico encontrado num vazadouro do antigo mosteiro do Santo Crucifixo das Capuchinhas da Bretanha, carinhosamente conhecido por Convento das Francesinhas, numa clara alusão à origem das suas fundadoras, faz-se referência ao aparecimento de fragmentos de pias de água benta.
Este convento foi fundado por D. Maria Francisca Isabel de Saboia, princesa da casa real francesa, que casou com D. Afonso VI. Com ela vieram quatro freiras que iriam fundar a casa conventual. Demolido o  edifício em 1911, os terrenos por ele ocupados serviram de base para a construção de uma réplica de um bairro antigo de Lisboa, integrado nas festas da cidade, no ano de 1935. Quando se procedia ao arranjo do terreno, foi descoberto um subterrâneo cheio de "cacos", demonstrativos da vida quotidiana das freiras que ali tinham vivido. Entre as muitas peças encontradas havia fragmentos  de pias de água benta, tanto das olarias alfacinhas, como da faiança de Brioso.
 
 
 


 
 
 
 


Uma das invocações religiosas mais veneradas e queridas em Portugal é a de N. Srª. da Conceição, como podemos concluir pelas que  imagens que seguem. Duas pias de água benta completas, com caldeira e espaldar, conservadas intactas, apesar da sua fragilidade. Atribuídas à produção de Brioso, possui, uma delas a inscrição N.S. 
 Ambas apresentam uma policromia em tons de azul cobalto e roxo vinoso. Os espaldares mostram um enquadramento relevado, estando as imagens inscritas em altares, com colunas vazadas e espiraladas. A primeira está encimada por um querubim e a segunda possui um frontão com a a inscrição IHS.


 
 
 
 
"Feira da Ladra", Revista Mensal Ilustrada, Tomo sétimo, 1935.
Miguel Cabral de Mondaca, "Faiança Portuguesa séc. XVI a XVIII", 2009.
José Queirós " Cerâmica Portuguesa e Outros Estudos", Editorial Presença, 1987.
Alexandre Pais, António Pacheco, João Coroado " Cerâmica de Coimbra", 2007. 

 





 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Azulejos setecentistas na Igreja de Santo António do Estoril

 


 
Painel formado por azulejos de figura avulsa - flores - enquadrados numa cercadura com
elementos em flor-de-lis, rematando com azulejos marmoreados.

Igreja de Santo António do Estoril
Imagem retirada da internet
 
 
 
 
 
Numa tarde de Outono, daquelas a ameaçar chuva, passeando pela marginal do Estoril, entrei no adro que antecede a Igreja de Santo António do Estoril. Observando com um pouco mais de atenção os bancos e os muretes verifiquei, com espanto, que estavam revestidos com azulejos antigos, datados do século XVIII.
Recorrendo a uma expressão usada por Luís Montalvão, recorri aos serviços da "santa internet" onde
obtive elementos que permitem descrever a história e vicissitudes desta igreja.
A primitiva edificação foi construída em terrenos doados por Luís da Maia à Ordem de São Francisco. O traçado, simples, estava em consonância com a oração contemplativa dos frades que habitavam o pequeno convento. Na primeira metade do século XVIII, o seu interior foi enriquecido com azulejos.
O terramoto de 1755 abalou fortemente a sua estrutura culminando na derrocada da quase totalidade das suas paredes. Por acção de Frei Basílio de S. Boaventura a reconstrução iniciou-se quase de imediato, sabendo-se que, já no ano de 1758, a zona da capela-mor estava concluída. Aproveitando o facto de ser totalmente reconstruída, o projecto foi alterado, conferindo-lhe uma maior monumentalidade, chegando até nós com o aspecto que tem hoje.
No ano de 1927 sofreu um incêndio. O projecto foi entregue ao arquitecto Tertuliano Marques que, para além de manter o traçado original, salvou alguns dos azulejos setecentistas que podemps observar nos muretes e bancos que circundam o terreiro adjacente à entrada da igreja.
 
 
 
 




Este grupo que guarnece um dos  muretes mostra azulejos de figura avulsa, intercalando com peças de cercadura, sem uma preocupação mínima de os enquadrar enquanto grupo, como foi feito noutras partes do mesmo recinto. Foi uma atitude de louvar, numa época em que o velho era possidónio e de mau tom. Foram reaproveitados, embora aplicados de  forma aleatória.
A policromia e  riqueza dos movimentos atestam a sumptuosidade que caracterizou uma época, particularmente importante da nossa azulejaria, que pretendia mostrar, para além  da funcionalidade decorativa deste tipo de revestimento,  a sua  integração perfeita nas estruturas arquitectónica.





Num dos recantos, curiosa ornamentação que, embora não tendo conjugação decorativa a nível dos elementos representados nos dois painéis, mostra  preocupação em conseguir conjuntos harmoniosos.

 
 
Curiosa miscelânea de diversos exemplares de azulejos, incluindo um que, por representar uma mão, pode bem ser proveniente de um painel figurativo. Fica a dúvida.
Nas imagens seguintes, mais alguns exemplos de azulejaria de padrão, a qual, pela repetição contínua em grandes extensões, permite obter efeitos espectaculares. Perfeitamente integrados nas estruturas onde eram aplicados, obedeciam a três premissas importantes: baixo custo, higiene e durabilidade. 







Para terminar, um pequeno painel de azulejos pombalinos, que apoia as ideias anteriormente esplanadas. A repetição de um número variável de elementos permite composições de maior ou menor extensão, de acordo com os primitivos locais de destino. Modernamente, o gosto pelo antigo deixa que se formem estas "pinturas" que enaltecem, quer o anonimato dos seus criadores, quer a originalidade das suas criações.

 

 
 
"Azulejos de fachada em Lisboa", Lisboa revista municipal, nº3, 1º trimestre de 1983.





segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Natal 2015

 
 
 


O Homem e a Natureza!
Materiais simples que se transformam pelo engenho e arte de mãos humanas. Um pequeno e singelo presépio executado em folhas de plátano convive, em harmonia, com a riqueza de um pequeno anjo barroco.
Um Feliz Natal.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Fidalgo e fidalguinhos

 
 
 


Evoco esta peça em memória de meu Pai,  arquitecto de profissão, que me transmitiu o gosto pela faiança portuguesa. Toda a sua vida esteve ligada aos Monumentos Nacionais. Como arquitecto urbanista da Câmara Municipal de Elvas, muitas foram as vezes que o acompanhei nas suas deslocações. Longe estava eu de pensar que este - e outros vasos análogos - se chamavam "fidalguinhos".
Quis o destino que o fidalgo, passadas algumas décadas, voltasse para a terra natal de meus Pais. Não para as planuras alentejanas e sim para as penedias agrestes de Trás-os-Montes. Voltou não para o Alentejo mas para Lisboa, a meio caminho do seu berço original - a Olaria Alfacinha -, em Estremoz. 




Caetano Augusto da Conceição fundou a Olaria Alfacinha, ainda no século XIX. Nascido em Lisboa, foi educado na Casa Pia de Évora . Aí aprendeu desenho ornamental e decorativo, disciplinas que integravam o currículo do curso de carpinteiro-marceneiro, que terminou com êxito.
Mais tarde, já casado e instalado em Estremoz,  dedicar-se à produção de peças de olaria, a que conferiu cunho pessoal e inovador, criando objectos com decoração original. Nas palavras de Joaquim José Vermelho, estremocense profundamente interessado na cultura local, que procurou promover e conservar, o "Alfacinha era um homem de iniciativa, decidido, empreendedor, com formação cultural e artística diferente da dos outros colegas de ofício" que deu "à louça vermelha de Estremoz um apreciável impulso, promovendo até a sua exportação para vários países da Europa, de África e para o Brasil"1. Morreu em 1902, quando se encontrava a participar na feira de S. João, em Évora.
A tradição de trabalhar o barro vermelho de Estremoz mantém-se na família Alfacinha. Seu neto, Mariano da Conceição, foi um dos seus continuadores, já na década de cinquenta  do século XX. Esta família, profundamente ligada à produção oleira dos bonecos de Estremoz, marcou e fez a diferença, tendo um papel relevante e, quiçá histórico, na "continuidade da tradição do barro, olaria e barrística por cerca de um século"2.
Mariano da Conceição integrou o corpo docente da Escola das Artes e Ofícios, criada pelo escultor José Sá de Lemos. Inspirando-se nos modelos recolhidos por alguns colecionadores como o pintor Júlio Maria Reis Pereira, fez renascer a tradição das Cantarinhas e Pucarinhos, reproduzindo  excelentes exemplares e executando outros a que deu a sua interpretação pessoal como "Bilhas e  Moringues inspirados em troncos de azinheira, com asas e decoração aproveitando dos ramos, folhas e frutos da referida e característica espécie arbórea alentejana"3., dos quais o Museu Rural de Estremoz tem uma série dos anos 50. Introduz as “Cantarinhas enfeitadas”, que são peças de maiores dimensões  com uma decoração ligeiramente diferente, da qual se destacam as flores abertas e não em botão como é apanágio nos “Pucarinhos enfeitados”, também chamados de “Fidalguinhos 
 





Mestre Mariano da Conceição, oleiro e bonequeiro 4





 
 

Cantarinhas e púcaros de barro vermelho são duas das espécies produzidas desde sempre no centro oleiro de Estremoz.  Ricamente pintadas e decoradas, das suas asas e tampas saem ramos de flores, talvez numa versão popular, quer das flores pintadas nas naturezas mortas dos séculos XVII e XVIII, quer das jarras que ornamentavam oratórios e  altares barrocos.


 
 Eis um conjunto do "fidalgo e dos fidalguinhos" representantes da olaria de Estremoz. Só o maior, por ser mais recente, está marcado. Assemelham-se nas formas, cores e ornamentações. Maiores ou de dimensões mais reduzidas, todos tinham como função, para além de alegrarem as casas, pela vivacidade das suas cores, manter a água fresca, especialmente saborosa, qualidade resultante da  particularidade dos barros com que eram feitas.
Executadas pelos oleiro, eram compradas em bruto e, posteriormente, decoradas pelas mulheres. Utilizavam cores garridas - vermelhos, azuis, verdes e zarcão - e aplicavam flores e outros adereços: flores, laços plissados e folhos. Ficaram conhecidas por Cantarinhas Enfeitadas e Púcaros enfeitados (ou fidalguinhos).

 
 
 
 
Dois fidalguinhos idênticos, graciosos nas suas dimensões e porte. Apresentam um laço de pontas caídas, no centro do bojo e dois outros rematando a pega da asa.

 
 
 
 
 
 
Fidalguinho, talvez mais recuado no tempo (?). Mostra uma particularidade que o diferencia dos outros. Encimando as asas, duas pequenas figuras masculinas. Pelo traje lembram os militares.  A rodeá-los, uma grinalda de flores, que caracteriza uma das figuras da produção da cerâmica de Estremoz, a "Primavera". Também os folhos plissados são em maior quantidade, rodeando superior e inferiormente, o bojo.



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Imagem retirada "dotempodaoutrasenhora.blogspot.com"


Museu de Estremoz, 2ª metade século XX
imagem retirada da internet

Agradeço, mais uma vez, a total disponibilidade do proprietário dos Fidalguinhos  para os fotografar e publicar as imagens.
 

1/2/3/4 - Joaquim José Vermelho " Sobre as Cerâmicas de Estremoz Arquivos da Memória", Edições Colibri, Câmara Municipal de Estremoz, págs: 155 ,156 e 158.
Azinhal Abelho "Memórias sobre os Barros de Estremoz". Edições Panorama,1964.






quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um Senhor

 



 
                                     Um Senhor, retratado segundo os cânones seiscentistas.
 
 O mesmo Senhor no século XXI. 
 
Antiquário conceituado entre os antiquários do nosso país, desde muito cedo se interessou pelas peças antigas. Iniciou-se como colecionador de moedas e selos. Hoje é uma autoridade em arte sacra e faiança portuguesa. Discreto, irradia simpatia, sempre pronto a aprender e, principalmente, a partilhar o seu saber.
Estudante em Coimbra, " percorria os ferro velhos à procura de coisas antigas"1 gastando o dinheiro que os seus familiares lhe davam para as suas extravagâncias.
Já em Lisboa, percorria feiras e lojas de velharias, na ânsia de tudo observar, não fosse alguma peça valiosa escapar-lhe. Na Romeira, pequeno centro de antiquários, na Rua Castilho, juntava-se à tertúlia dos companheiros das mesmas lides e interesses, falando, admirando, desejando... Daí, por ser um local de pequenas lojas e dado que gostava de peças de maior envergadura, principalmente de arte sacra, passa para a Rua D. Pedro V, para o espaço conhecido por Galeria da Arcada, cujo nome manteve. O seu acesso fazia-se por um arco com imponentes portões de ferro, encimado pelo  Brasão dos Castelo Branco. Chegando ao fundo, abria-se aos nossos olhos, uma vista magnífica sobre a colina do outro lado da Avenida.
Actualmente, a Galeria da Arcada, localiza-se do outro lado da mesma rua, no nº 49.
 
 
Imagem retirada da internet
 


Assume-se totalmente apaixonado pela faiança portuguesa e desde cedo começou "a comprar sobretudo do séc. XVIII e XIX que aparecia em grande quantidade e a preços acessíveis.  E a faiança atrai por várias razões: as formas, as cores, os desenhos. É um mundo!"2                       
Não é somente a sua paixão pelas antiguidades. São, outrossim, as histórias que lhes estão subjacentes. De onde vieram, a quem pertenceram, as devoções que inspiraram. É, também nas suas palavras, " um negócio de intimidade"3.  
 
 

 
 
 
 

 
 
 1/2/3 -Suplemento do Jornal "Primeiro de Janeiro", 28 Outubro  de 2007, págs:16 e 17.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Amizade ... Faiança falante







Apresento este primeiro prato falante com a palavra "Amizade" para expressar a grande estima e consideração que me merece o seu proprietário, sempre disposto a debater hipóteses e dúvidas, esclarecendo-as com os seus amplos conhecimentos, no seu jeito minhoto, afável e  simples.
António Pacheco no livro "Louça Tradicional de Coimbra 1869-1965", recentemente publicado, aborda o tema da cerâmica falante. Produzida nas olarias coimbrãs, era utilizada nas tabernas e casas pobres das aldeias das redondezas. Nela transparecia a alma simples das gentes que a usava e apreciava. Na sua génese poderão estar as faianças portuguesas seiscentistas, algumas com datas e dizeres característicos do período da Restauração da Independência, bem como o conhecimento das ceramiques parlantes, de origem francesa, executadas em larga escala entre 1789 e 1799, que tinham como principal função divulgar os ideais da Revolução Francesa.



 

Parte da colecção que mostro encanta o olhar e alegra a alma, pela sua cor, motivos decorativos  e dizeres tão populares. Reunida pacientemente, mostra o gosto que leva muitos coleccionadores a procurarem os dizeres mais singelos, expressivos e invulgares.
  • Num xe xabe
  • Esta vida são dois sias
  • Toma lá pinhões
  • Talvez te escreva
  • À beira do oçeano... e
  • tantos outros




A faiança coimbrã, produzida em pequenas olarias, perdura no tempo, deliciando gerações de pessoas e integrando inúmeras colecções privadas. Usada nas casas e nas tasquinhas de Coimbra, onde a população estudantil se reunia para as suas tertúlias, estes pratos marcaram uma época muito própria e particular da vivência da cidade de Coimbra.

Ilustração Portuguesa, nº101, 27 de Janeiro de 1908
Num excelente artigo da Ilustração Portuguesa, de 27 de Janeiro de 1908, onde são caracterizadas as tascas da cidade de Coimbra, frequentadas pelos estudantes, encontram-se várias imagens de pratos falantes. Seleccionaram-se estes dois, significativos pelos seus dizeres:"Que bella pinga" e " Margens do Mondego".

Muitos coleccionadores - quem sabe ao longo de uma vida - dedicaram-se a reunir, amorosamente, os seus pratos. Foi o caso de António Capucho. O leilão da sua vasta colecção realizou-se em Dezembro de 2005, no Palácio do Correio Velho.  Demonstra bem o criterioso cuidado do seu "ajuntamento".


Nas palavras de António Pacheco " mais raras, foram as travessas"1, pois a sua forma e decoração requintadas exigiam muito tempo e trabalho. Na travessa, com dois ramos de flores em posição oposta, podemos ler as palavras "Amor" e "Amo-te", inseridas em cartelas, rodeadas por flores.




Muitos outros motivos estiveram presentes nas mensagens destes pratos. Alguns para celebrar centenários, efemérides, ou simplesmente para ofertar em ocasiões especiais, como os casamentos.


Termino com muita amizade. Até um próximo post.






1 - António Pacheco "Louça Tradicional de Coimbra 1869-1965". Direcção- Geral do Património Cultural. Coimbra, 2015, pg:30.