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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Nossa Senhora indoportuguesa

Uma Nossa Senhora  indoportuguesa





Nossa Senhora indo-portuguesa, datável dos primórdios do século XVII, produzida, com forte probabilidade, por mãos de artistas indianos, em alguma oficina goesa.
Segundo Bernardo Ferrão, a imaginária do Oriente português é "aquela que foi esculpida no Extremo Oriente por artesãos indígenas, inicialmente sob a égide das missões portuguesas, copiando protótipos ocidentais, inspirando-se neles ou recriando-os em variantes próprias, mas utilizando materiais e técnicas locais e actuando sob o influxo da etnia e dos cânones e religiões ancestrais dos países respectivos"1.
A designação indo-portuguesa, segundo o mesmo autor, pode ter origem britânica e terá sido usada pela primeira vez por John Charles Robinson no prólogo do catálogo da exposição "Special Loan Exhibition of Spanish and Portuguese Ornamental Art",quando a comissariou, em 1881.
Desde então, muitos outros autores se debruçaram sobre este conceito: Sousa Viterbo, Joaquim de Vasconcelos, Luís Keil, Reinaldo dos Santos, Madalena Cagigal e Silva, aceitando, de um modo geral, a existência de numa influência oriental nas peças esculpidas, principalmente nas mais recuadas.
A sua produção inicial pode ter acontecido em terras goesas, copiadas/inspiradas em modelos idos de Portugal e feitas, quer por artesãos autóctones, quer por artistas nacionais, aí residentes. Face à crescente procura pela novidade e pelo exotismo que exibiam, o leque de interessados na posse de peças desta natureza  alarga-se e estas começam a ser executadas por encomenda. Modernamente, surgiu a hipótese de tais peças serem realizadas propositadamente para o mercado português.
A produção de arte sacra com características orientais, embora inspirada em modelos ocidentais, é numerosa e ganha forma em materiais diversos, dos quais se destacam as madeiras exóticas e o marfim. 
"As imagens das várias invocações de Nossa Senhora constituem, pela sua abundância, sua diversidade e seu valor iconográfico, o grupo mais importante da imaginária luso-oriental"2.

A imagem que se apresenta insere-se neste grupo. Exibe as características desta espécie de arte sacra: modelação "pseudocilíndrica" 3, extrema sobriedade no desenho e tratamento das formas.





Escultura de vulto de Nossa Senhora, de pé, segurando o Menino no braço esquerdo. Por sua vez, o Menino tem, na mão esquerda, um livro e a direita apoia-se no peito de sua Mãe. Os rostos, de olhos amendoados, nariz afilado e lábios finos, mostram expressões serenas,algo fechadas, demonstrativas do seu traço indianizante.
A indumentárias é composta por duas peças básicas: a túnica e o manto. A primeira, de decote cingido, cai até aos pés, em pregas que vão alargando até baixo. O manto, enrolado de modo invulgar, cobre a cabeça, deixando entrever os cabelos. Lançado sobre o ombro direito, é apanhado na cintura, formando uma prega funda do lado oposto.
Assenta numa peanha heptagonal, não se diferenciando nas costas e formando, assim, um único bloco.


Pode, ainda, observar-se alguma da sua policromia: vermelho, azul e dourado.

Escultura semelhante - com a mesma postura rígida, vertical e o pouco movimento que caracteriza a imaginária mariana das oficinas de Goa, de seiscentos - esteve patente na Exposição organizada por ocasião do ciclo de conferências " Índia:Terra de Impérios", promovido pela Associação Amigos do Oriente, em Novembro de 2002.








1-2- 3-Bernardo Ferrão de Tavares e Távora " Imaginária Luso-Oriental", Colecção presenças da imagem, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 1983, págs. XIII, XXXV
Maria João Ferreira htpp:/fcsh.unl.pt/cham/eve/content.php?printconceito=744