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sábado, 11 de fevereiro de 2017

Mes Dessins. Mes Endroits Préférés.








Portfolio em pergaminho contendo reproduções de 119 desenhos e aguarelas executados pela rainha D. Amélia, entre a última década do século XIX e a primeira do século XX.
Maria Amélia Luísa Helena de Orléans, princesa real de França, nasceu  em Twickenham, Inglaterra, no dia 28 de Setembro de 1865. Era filha de Luís Filipe, Chefe da Casa Real de França e da Infanta de Espanha, Isabel de Orléans  Montpensier. Quando foi levantada a interdição de viver em território francês, imposta aos representantes da família real, estes puderam regressar a França e habitaram o castelo d'Eu, na Normandia. Daí partiu para Portugal, onde entrou em Vilar Formoso, na madrugada de 19 de Maio de 1886. Noiva do Príncipe Real D. Carlos, vem a tornar-se rainha de Portugal em 1889, por morte do rei D. Luís.
Rainha-Mãe e Rainha-Viúva entre 1908 e 1910, parte para o exílio, vindo a fixar residência no Castelo de Chesnay a partir de 1920, local onde viveu até à sua morte, em 25 de Outubro de 1951.O seu corpo regressou a Portugal com honras de Estado, encontrando-se sepultada no Panteão Real do Mosteiro de  S. Vicente de Fora, junto do marido e dos filhos.
Senhora de forte personalidade e de esmerada educação, teve grande preocupação com os mais desventurados, procurando acudir-lhes com palavras e acções de conforto. Por sua iniciativa se criaram obras de assistência, como o Instituto de Socorros a Náufragos, o Dispensário das Crianças, em Alcântara e a Assistência Nacional aos Tuberculosos. Mesmo afastada de Portugal, a sua preocupação era constante. O Conde de Sabugosa, seu fiel e leal amigo, propôs-lhe a edição dos seus desenhos em dois álbuns, com o objectivo de angariar fundos para acudir a tal flagelo.
   

 




Foi, pois, por insistência do Conde de Sabugosa, que a rainha acedeu à sua publicação. A receita apurada destinou-se ao posteriormente denominado Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos.  




Editado em 1926,em Paris por "LE GOUPY, EDITEUR, teve uma tiragem de 250 exemplares. Impressão realizada para a Condessa da Ervideira, com o número 151.




Segundo as palavras de Samanta Coleman-Aller "consta de 119 reproduções de desenhos que ilustram uma selecção do mesmo número de textos, escolhidos e manuscritos pela Rainha, de obras de Camões, Homero, Becquer, Dante Allighieri, Petrarca, Zorrilla, Gil Vicente, Baudelaire, Victor Hugo e Alexandre Herculano, entre outros. As "ilustrações" são em ocasiões obras que ocupam por completo a página e, noutras, apenas anotações na margem ou, até, em jeito de letras capitulares. A capa que reúne esta selecção é em pergaminho cor de marfim com dois atilhos em pele que fecham abotoados com pequenas bolinhas de marfim. A frente é decorada com a coroa real ao centro e nos quatro cantos o monograma "MA".

D. Amélia tinha uma especial predilecção por Sintra e Vila Viçosa. Alguns destes desenhos e aguarelas dizem-lhes respeito.



Este desenho do castelo de Vila Viçosa vem referido no índice com a expressão "Muraille extérieure et porte d'entrée du vieux châteaux de villa Viçosa (Dessin), executado em 1901.  O texto que o acompanha pertence à "Divina Comédia", de Dante



Resultado de imagem para castelo de vila viçosa
Imagem retirada da internet




O Paço da Vila, em Sintra, desenhado em 1897, a partir da fonte de Sabugo. Dá-lhe corpo um poema de Garrett:

Oh! Nobres paços da risonha Cintra,
Não sobre a roca erguidos, mas poisados
Na planície tranquilla - que memorias
Não estais recordando saudosas
(...)

Outra ilustração, de um pequeno apontamento do tecto da conhecida "Sala das Pegas" recorda o episódio das pegas de Sintra, passado nos tempos de D.João I e de D. Filipa de Lencastre. Acompanha este desenho um poema recolhido por Garrett, no seu Romanceiro.





O Príncipe Lichnowsky descreve a sala de jantar do Paço de Sintra,  como sendo  a sala das pegas que têm no bico uma fita com a inscrição "Por Bem". O rei D. João I terá ordenado a pintura destas imagens, de modo a que a resposta que deu à rainha D. Filipa, quando esta assistiu ao beijo roubado a uma das suas damas. Sem malícia, unicamente, "Por Bem".
Também interessaram a Rainha outros locais e peças de museu, que desenhou e deixou para a posteridade. Como exemplo, um desenho inspirado na "Pièce d'armure de François 1er par Benvenuto Cellini, existente no Musée d'Ajuda", pintado em 1895, a que juntou palavras de Camões.


Samanta Coleman - Aller, Casa Museu Medeiros e Almeida.
palacio-de-sintra.blogspot.com
Ivete Ferreira - "As Rainhas D. Maria Pia e D. Amélia e o Traje Feminino em Lisboa: 1860-1910". Matrizes da Investigação em Artes Decorativas, pág. 147.


segunda-feira, 2 de maio de 2016

Passeio Avó e Neta ou prospecção de fragmentos de faiança

 
Num sábado de Abril, manhã cedo, mas já com o movimento de uma cidade muito apreciada pelos turistas, descemos a Rua Augusta, numa cumplicidade de avó e neta, dispostas a viver um programa dedicado às jovens.  Como pano de fundo o arco da Rua Augusta e a estátua equestre de D. José. A Catarina em pose . O objectivo era passear sem rumo, em passos (in)definidos, que nos levassem a nenhum lugar em especial. Mas, quase por um não acaso fomos ter à ...

 


onde um letreiro nos chamou a atenção: "Rainha Dona Amélia". O que fazia o nome da última rainha de Portugal num lugar, tão afastado do seu  tempo. Intrigadas pela curiosidade, entrámos e ...  



 

uma bela imagem nos marcou de imediato: a figura da rainha D. Amélia sobressaía numa das paredes do fundo. Se era uma confeitaria, alguma relação teria que haver com bolos. Gulosamente curiosas, com uma ideia a tomar forma, entrámos e ...



 
 
lá estavam, uniformemente dispostas, as Donas Amélias! O nosso apurado paladar saboreou, em antecipação, as iguarias expostas.
 
 

 
 
Depois de instaladas, conhecemos a história destas deliciosas queijadas.  São vendidas na Pastelaria "O Forno", que se situa em Angra do Heroísmo, Ilha Terceira.  Conta a tradição que "certo dia, D. Amélia, a Rainha, veio à ilha. As gentes da Terceira ofertaram-lhe os bolos melhores da rondura do seu horizonte. E em honra da rainha se chamam agora, Donas Amélias"1.
No ano de 1901, o casal régio deslocou-se em visita oficial aos arquipélagos da Madeira e Açores. Nos dias 2,3 e 4 de Julho do referido ano, visitaram a ilha Terceira. Terá sido num dos vários eventos do apertado programa a cumprir, que as diligentes Senhoras terceirenses terão apresentado as queijadas que, por terem sido elogiadas pela Rainha, dela receberam o nome. Em boa hora as provámos, pois são deliciosas.
 
 
Programa seguido pela família real na ilha Terceira. Para as diversas cerimónias vêm indicados os tipos de traje a usar. Curiosos são os pormenores detalhados, com a letra da rainha D.Amélia, para as diferentes toiletes a vestir de acordo com as diversas ocasiões. São mencionadas, também, as casas de modas ou as modistas que podiam ser "Fornecedoras da Casa Real", título muito cobiçado pelos proprietários, que gostavam de os exibir nas tabuletas identificativas das suas lojas, bem como nos cabeçalhos das facturas.
 
 
Dali partidas, rumámos ao Terreiro do Paço. Atrevida, tirou uma selfie. Serve de recordação, argumentava ela, na sabedoria e irreverência dos seus onze anos. Por que será que as avós se deixam convencer?
 
 
 
 
 
A mesma elegância! A mesma delicadeza! A mesma postura! A diferença está no sorriso.
 

 


A maré baixa permitiu-nos procurar, por entre as conchas e seixos, pequenos fragmentos de faiança. Uma amostra dos que encontrámos...


 
 
Entre todos o mais precioso (?) pela textura, pelo esmalte, pelo colorido bicromático: azul cobalto e manganés. Um pequeno fragmento de uma  possível peça malegueira (?), de arestas bem arredondadas, pelo roçar nas areias resultante do movimento das marés.





..

Como mera hipótese, mostra-se um pequeno exemplar de faiança malegueira, cujos tons se aproximam dos exibidos pelo pequeno fragmento.



 
 
 
1 - Folheto publicitário "Bolos D. Amélia" da Pastelaria "O Forno".