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quinta-feira, 6 de março de 2014

Azulejos Devesas numa fachada lisboeta


Azulejos das Devesas



Na Rua Miguel Lupi, em Lisboa, perdura uma fachada lisboeta com sabor a Norte. Felizmente para nós,os azulejos que revestem este prédio, de produção da Fábrica das Devesas, encontram-se em muito bom estado de conservação.
Este costume, de revestir com azulejos as fachadas dos prédios, entronca (?) nas apelidadas "casas de brasileiros", pois foi no "Brasil que esta prática se desenvolveu e consolidou"1, motivada pela necessidade de uma maior resistência à erosão provocada pelas agruras do clima tropical, abundante de chuvas e de calor. Esses palacetes encontram-se nas zonas mais a norte (Minho e Beiras), num indicativo gosto de opulência, plenos de detalhes exóticos, que enriquecem, ainda hoje, paisagens rurais e urbanas.
Partiram na pobreza e regressaram na riqueza. O seu novo estatuto inseria-se num sentimento burguês de afirmação pelo trabalho, reflectindo a preocupação de exibir o sucesso alcançado em terras estranhas. Materializavam-no  nas suas casas, cobertas de belas fachadas de azulejos, construídas nas terras de onde eram oriundos e, por vezes, na cidade do Porto.
Esta nova tendência, de azulejar as fachadas, ultrapassando o tradicional uso de revestir com esse material apenas o interior das casas - entradas, escadarias, jardins e outras áreas privadas -, enraizada com especial incidência no Norte vai alargar-se a outras regiões e também a Lisboa. Aqui, as fachadas de azulejos coincidem com a expansão da cidade para os novos bairros, entre os quais se inclui o da Lapa, onde se situa o prédio cuja frontaria levou a escrever este texto.
Com o aumento das encomendas, quer  para o Brasil, quer em Portugal, as fábricas adaptam-se a novas técnicas de fabrico, abandonando a produção manual e passando a uma semi-industrial. Tal aconteceu com a  Fábrica das Devesas.




A fim de publicitar os produtos, editavam-se catálogos, como foi o caso deste, da Fábrica das Devesas, de 1910.  De um desses catálogos- constam os azulejos que ornamentam a fachada de um prédio da Rua Miguel Lupi, em Lisboa. Sendo uma das maiores unidades fabris de finais do século XIX, início do XX, os seus  azulejos podem, ainda hoje, ser apreciados em algumas frontarias de prédios de Norte a Sul do país.







Neste edifício, de dois pisos, observa-se a conjugação perfeita entre os diversos materiais utilizados na sua construção, que caracterizaram a arquitectura de finais do século XIX e início do XX: pedra, ferro e barro. As suas linhas elegantes  distribuem-se por dois pisos, separados por uma linha definida por cantarias, onde pontuam quatro elegantes varandas de ferro forjado. Ao centro, a porta (ainda das antigas, felizmente) está encimada por um arco de volta perfeita, em pedra.
Toda a fachada está revestida de azulejos formando um padrão geométrico seriado, enquadrados por friso em forma de fita grega. Com a advento da Arte Nova, passaram a usar-se frisos ornamentais, de uma policromia quente, que rematavam de forma criativa as composições de azulejos, apresentando "flores de grandes dimensões ou densamente agrupadas, com cores rutilantes, associadas a outros elementos vegetais, numa das afirmações mais originais e marcantes da azulejaria do início do século XX"2. É o que podemos observar nos pequenos painéis que se intercalam entre as janelas, onde malmequeres brancos sobressaem do intrincado movimento dos seus filamentos.


1- "Azulejos de Fachada em LISBOA-II". Lisboa, revista municipal, Ano XLIV, 2ª Série, Nº4, 2º Trimestre de 1983.
2 - José Meco, "O Azulejo em Portugal", Publicações Alfa, 1989, pág.155.









domingo, 5 de janeiro de 2014

Azulejos de figura avulsa



Azulejos de figura avulsa

Este pequeno conjunto de azulejos de figura avulsa, de produção nacional (Lisboa), balizada entre finais do século XVII e o início do século XVIII, demonstra bem a adaptação dos artistas portugueses às novas tendências da obra azulejar da Holanda, caracterizada por uma pintura delicada e minuciosa, evidenciada pelas suas composições bem definidas.
Importados a partir de meados do século XVII, os azulejos de Delft servem de modelo para os nossos pintores que rapidamente iniciam uma "carreira" própria, introduzindo temas e desenhos mais ajustados ao nosso modo de interpretar a vida, conferindo-lhes um estilo marcadamente português. 
Surge uma quantidade imensa de temas: flores, animais (pássaros, patos, peixes, veados, gazelas, coelhos, cães, gatos), barcos, casas, torres, cestos com flores ou frutos e também figuras humanas.


Deste agrupamento de azulejos, em que predominam as aves e  figurativos humanos, destacam-se, pela força que deles emana e pelo desenho de pincelada e o azul mais forte,  os dois primeiros pássaros que preenchem a totalidade da superfície a decorar. Penso que serão de época mais recuada, talvez mesmo de finais do século XVII, início do XVIII.




José Meco ensina que "a principal característica destes azulejos (...) reside essencialmente no motivo ornamental solto que decora o centro, o qual tanto pode ser o único ornamento decorativo do azulejo como pode ser completado por outros ornatos secundários nos cantos, ligados entre si ou isolados". Diz-nos, ainda, que "a figura avulsa destaca-se pelo pitoresco dos motivos variados (...) geralmente de representação espontânea e ingénua, por vezes com carácter caricatural, em parte devido a terem sido pintados por crianças, que nestes trabalhos de menor responsabilidade adquiriam prática, tornando o produto mais barato"1.
Tendo estes azulejos de figura avulsa perdido um pouco da sua importância a partir do terramoto de 1755, mercê das orientações do Marquès de Pombal para a reconstrução da cidade, voltarão a adquirir relevo e a "renascer" durante o século XIX, devido ao ecletismo decorativo desta época. Passam a ser fabricados pelos processos da estampilha manual e da estampagem mecânica que propiciam uma mais fácil e rápida produção. Aplicados nas entradas, nos corredores, nas cozinhas vão embelezar casas e palacetes da nova burguesia.

Painel de flores: entrada de casa particular, em Lisboa


Painel de vão de janela: casa particular, em Lisboa
Neste conjunto, observa-se uma miscelânea de motivos, formados por elementos florais, zoomórficos, barcos e cestos de flores, enquadrados numa cercadura de enrolamentos. É de notar a fiada de azulejos marmoreados, que estabelece a ligação entre o chão e o painel.


Por último, pelo interesse e criatividade que demonstram e também pelo facto de poderem ainda, ser observados in loco, na Rua do Jardim à Estrela,  mostra-se a fachada, extremamente curiosa, de um prédio, inteiramente revestido a azulejos, com a particularidade de representarem cabeças de orientais, referenciada por José Meco, como tendo sido encomendados em "1881 pelo proprietário, um pintor de carruagens e de cerâmica"2.



Esta mesma tipologia, pela sua singularidade, foi objecto de selecção e  encontra-se representada no acervo do Museu Nacional do Azulejo.

Exemplares patentes no Museu Nacional do Azulejo



A originalidade da decoração induziu uma natural apelatividade e, portanto, a sua réplica. Tive notícia da existência de um outro conjunto, de que apenas subsistem algumas peças - similares no motivo, mas de proveniência física e titularidade diversas -, que terão sido produzidos na Fábrica de Campolide, a pedido do seu proprietário, para com eles revestir a fachada da sua habitação, situada na mesma freguesia. Segundo o seu coleccionador, que dispõe unicamente de dois azulejos, estes terão sido removidos aquando da demolição do prédio. Distinguem-se dos anteriores por não terem a grinalda de folhas de parra a separá-los.



Agradeço aos seus proprietários a permissão para fotografar e publicar as imagens.



1/2 -José Meco " O Azulejo em Portugal", Publicações Alfa, 1989, páginas 147 e 151
J.M.dos Santos Simões "A azulejaria em Portugal no Século XVII, tomo I, Fundação Calouste Gulbenkian, 1997
Teresa Saporiti "Azulejos de Lisboa do Século XX", Edições Afrontamento, CML
A.J. Barros Veloso e Isabel Almasqué "Azulejos de Fachada em Lisboa V", Lisboa Revista Municipal, Ano XLV, 2ª Série, Nº 8/9/10 -2º,3º e 4º Trimestres de 1984