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quarta-feira, 7 de junho de 2017

Uma graça de Nossa Senhora de Campos


Este ex-voto, de dimensões bastante grandes, representa uma cena que, tudo leva a crer, ser no interior de um convento, dada a presença das religiosas e da miraculada ser Madre Maria Perpétua.
Representam sinais de fé e diálogo com Deus. Estes pequenos quadros pintados nos mais diversos suportes - madeira, tela, folha de lata, cartão, papel - transmitem ingenuamente a cor local,  retratando cenas de  interiores onde, genericamente, se podem observar camas, mais ou menos requintadas, dado que os pedidos eram, maioritariamente, derivados de situações de doença. Traduzem as graças atendidas por intercessão daqueles a quem eram dirigidas. Pintados por artistas populares, são provas vivas da nossa riqueza etnográfica e reconstituem, de forma ingénua, e algo naif, o ambiente onde o milagre se produziu.
A  proveniência deste ex-voto poderá ser atribuída, com alguma reserva, ao Convento de Nossa Senhora de Campos de Sandelgas, dado que  na legenda vem referida Nossa Senhora de Campos, nesse mesmo convento venerada..
Situa-se em Sandelgas, no concelho de Montemor-o-Velho, distrito de Coimbra. Teve a sua origem numa pequena ermida erigida no mesmo local, em 1415, consagrada a Nossa Senhora de Campos. A viúva de D. João de Castro, D. Isabel de Castro, juntamente com mais cinco senhoras, fundou um convento junto da mesma.
Devido às recorrentes cheias do Mondego, que tornavam as instalações conventuais inabitáveis, em 1691, as freiras foram transferidas para o novo convento, consigo transportando unicamente a Cruz de Cristo e uma imagem de Nossa Senhora de Campos.
Com a extinção das ordens religiosas em 1834, as freiras de Sandelgas ingressaram no convento de Santa Clara de Coimbra. Os edifícios foram vendidos em hasta pública, no ano de 1865 e comprados pela família Moura-Gusmão, que ainda mantém a sua propriedade.
Nossa Senhora de Campos
O espaço cénico revela, à esquerda, a imagem de Nossa Senhora de Campos, numa posição elevada, suportada por uma nuvem, simbolizando a representação teatral do sagrado.
A estrutura pictórica dos quadrinhos apresenta dois espaços distintos, mas que se completam: o sagrado e o profano. As duas áreas são bem definidas. O sagrado, no campo superior do quadro ou centralmente, criando um jogo de simetrias, formado pela representação da figura invocada, com os atributos que a individualizam. Geralmente, a imagem invocada, surge envolta numa nuvem, causando um efeito de teatralidade para a apresentação do sagrado.

No entanto, as cenas mais comummente fixadas, são cenas de interiores, geralmente em lugar de destaque, uma cama onde está representado aquele/a por quem se pede.
Muitas vezes, mais personagens surgem no espaço cénico: familiares e domésticos, o padre, o médico, todos eles numa acção conjugada e colectiva de interceder junto da imagem divina no sentido de pedir a realização de uma graça, tantas vezes, quase já in extremis.


“M. Q. FES N. S. DECAMPOS A Mb. PERPETUA Mª SOLDANDOLHE HVMA ARTERIA DE HV. PEITO EM QVE PADECIA HV GRªNDE ACHAQVE EAPLICANDOLHE OMANTO DA Sª. PAROU OSANGVE ECONTINUARAM ASMILHORAS ANNO D 1726”.


Também parte integrante da pintura é a legenda, que conjuga os dois espaços: o sagrado e o profano.
Nela estão inscritos : identificação do beneficiário, localidade de origem, motivo do pedido, entidade a quem se pede a graça e a data.
Transmissoras de uma mensagem, cumprem a missão de informar, agradecendo  a graça recebida e divulgando, numa função catequética e de ensinamento, através da exposição nas paredes das igrejas, capelas e santuários, pretendendo que todos dela beneficiassem, exortando-os a proceder do mesmo modo
A legenda, escrita numa linguagem mais erudita, identifica a entidade cuja protecção se celebra -Nossa Senhora de Campos - , a beneficiária da graça concedida - Madre Perpétua Maria -, o motivo do agradecimento – uma artéria que padecia um grande achaque – o modo como o milagre se concretizou – protecção sob o manto da Senhora – e, no fim,  a data - 1726.
Resta-me agradecer ao seu proprietário o ter permitido a sua divulgação. Bem haja.








terça-feira, 3 de junho de 2014

Ex votos,promessas, milagres




Testemunhos de graças recebidas, os ex-votos, quadrinhos ou milagres, são pequenos quadros que expressam de forma inequívoca a devoção e arte populares. Executados sobre madeira, tela ou cobre, eram "histórias contadas, em vivo colorido, da vida dos homens, episódios de desgraça e dor que terminavam num final feliz"1, oferecidos às capelas ou igrejas do santo invocado e por intercessão do qual se concretizara o pedido. Portadores de pequenas legendas, muitas vezes imprecisas ou com erros de ortografia, numa linguagem não erudita, não deixam, no entanto, de ser uma manifestação de fé, ingénua, mas convicta, e um agradecimento sentido pela mercê concedida. Este tipo de ex-votos datam, de um modo geral, dos séculos XVIII e XIX.
Modernamente, encontram-se, com igual propósito, muitas fotografias, intercaladas com representações mais antigas, simbolizando os agradecimentos pelas promessas feitas e entretanto concedidas. Muitas remontam à época da Guerra do Ultramar, décadas de sessenta e setenta do século passado, mostrando, principalmente, soldados na sua farda de militares.
Sob diversas invocações, os ex- votos relatam situações e vivências difíceis,só ultrapassadas e vencidas por verdadeiro milagre.




Neste, invoca-se a protecção de Nossa Senhora do Bom Sucesso para uma parturiente que "estando cinco dias prigozamente de parto sem poder vir com a criança a lus" a Ela recorreu e foram salvos, mãe e filho.
Estas pinturas, muitas vezes ingénuas, pelo carácter naif da sua execução, dão preciosas informações, sobre o seu contexto histórico e social. 
De um modo geral, em todos eles se pode observar uma clara definição de dois espaços de representação: o sagrado e o terreno. No presente ex-voto, à direita, envolta numa nuvem, encontra-se Nossa Senhora com o Menino nos braços.
No espaço restante, dispõem-se as demais figuras intervenientes: o pai, ajoelhado e de mãos postas, frente à imagem. O "Sorgião" indicando a figura de recém-nascido, a mãe, desfalecida, nos braços de outra senhora. Pelos trajes, requintados, das figuras, de finais do século XVIII, que se adequam à data indicada - 1769 - e pelo mobiliário - uma cama de bilros, "ornada de muitos pequenos elementos de torneado verticais, intercalados de travessões e remates entalhados"2 - podemos concluir  tratar-se de uma família abastada. 



Este ex-voto encanta pelo delicado e singelo tema: um milagre de S. Francisco que curou um menino que estava doente com "maleitas". A mesma organização cénica: à direita, a figura de S. Francisco, envolvido por uma nuvem, significando a força espiritual. À esquerda, a figuração do votante: o menino, de mãos postas,  ajoelhado, agradece a mercê da sua saúde pois  "foi o Santo servido de tirar-lhas".


Muitas vezes os temas estavam ligados à vida quotidiana das populações. Indicavam as suas profissões e as condições em que tinha acontecido o desastre. É o caso deste ex-voto.


Aqui invoca-se N. Srª. dos Remédios. O espaço cénico alterou-se. A imagem da Senhora encontra-se num altar, à esquerda. A família, aos pés de cama, reza pelas melhoras do seu doente. O acidente, causado por uma bomba de dinamite que rebentou quando estava a "abranger" fogo a um fogueteiro, ocorreu em "Simfens", no dia 4 de Agosto de 1888. O médico aponta para a cabeça do doente, enquanto o padre administra a Extrema Unção. Pelo mobiliário retratado podemos intuir que existia algum desafogo financeiro.




Um  exorcismo. Sob a invocação de N. Srª. das Dores, envolta nas nuvens que estabelecem a fronteira entre o profano e o divino, é concedida a saúde a Maria do Rosário, que estava "vexada do enemigo". Esta, de joelhos, agradece. O mafarrico, encurralado pela acção conjunta de N. Srª. e do padre, foge...





Para o grande final, uma parede plena de graça e exotismo. Uma belíssima colecção de ex-votos. Agradeço a gentileza e a disponibilidade manifestadas, que permitiram a sua partilha.

1- Alberto Correia "Do Gesto à Memória Ex-Votos", IPM, 1998, pág.7.
2- Robert Smith "Pinturas de ex-votos existentes em Matosinhos e outros santuários portugueses", Matosinhos, 1966, pág.6.