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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Monte Estoril: estância de veraneio








Num fim de tarde, em que a neblina começou a assentar arraiais sobre o mar, passear na marginal do Monte do Estoril tornou-se um  imperativo. A paisagem apresentou-se de um modo difuso, quase lembrando uma manhã fria de Inverno.  A placa indicativa, grafitada, evoca tempos mais recuados e os passeios de domingo com toda a família. 
Mas recordemos os primeiros passos do Monte Estoril como estância balnear da moda. A partir do altura em que a família real  escolheu Cascais como local de vilegiatura e os reis D. Luís e D. Carlos se instalaram no Palácio da Cidadela para gozarem os meses de Setembro e Outubro,  a corte e muitas famílias aristocratas os acompanharam. Era um local in. Convinha ver e ser visto. Edificaram-se Chalets exóticos, inspirados nos desenhos românticos e revivalistas franceses, suissos e ingleses. Também a rainha D. Maria Pia aqui adquiriu o seu palacete.

"Foi precisamente nas ruas sinuosas do Monte Estoril, mais sobretudo no seu lugar mais alto -o Monte Palmela -, que se assistiu a um grande surto construtivo, que teve os seus primórdios no ano de 1889 com  a criação da Companhia do Monte Estoril e a sua ambição de tornar aquele local numa estância balnear de luxo, equiparada às que então se viam no sul da França"1 que se construíram, pelo risco do arquitecto Rafael Duarte de Melo,  na primeira década de novecentos, numerosas casas de veraneio, desta vez para a burguesia citadina lisboeta, que pretendia emular a aristocracia. Os seus projectos demonstram homogeneidade pelo recurso constante à arte do ferro forjado, dos azulejos e, de um modo geral, às características do gosto reinante na época em reporte, o neo-românico.
As faixas azulejares com que adornava as fachadas das casas que projectou, deram ao local "um novo gosto por uma decoração elaborada, em que se tirava partido da utilização de azulejos Arte Nova"2, numa simbiose perfeita com os restantes materiais usados na edificação e os pequenos jardins, bem organizados, seguindo o modelo francês.




Grande parte das casas projectadas pelo arquitecto Rafael Duarte de Melo foram edificadas a pedido de Manuel Ferreira dos Santos, um "brasileiro" de grosso cabedal, que quis investir na promissora zona do Monte Estoril. As obras de Rafael Duarte de Melo são de fácil identificação "pelo coroamento do corpo central, pela entrada alpendrada, pelas colunas com os seus graciosos capitéis, os gradeamentos de varandas, portões e muros com ondulantes trabalhos de ferro forjado, pelo uso da pedra trabalhada a emoldurar as janelas"3 e ainda hoje subsistem, como é o caso das vilas Malvina e Laura.










A Vila Malvina, encomendada por Manuel Ferreira dos Santos para sua residência de Verão, apesar de ter sido modernizada, exteriormente não apresenta grandes alterações relativamente ao projecto inicial. É de salientar o característico alpendre, assinalando a entrada principal, antecedido de uma escadaria. São também da sua traça grandes janelões ornamentados com frisos de azulejos ou trabalhos em pedra, bem como o uso de estruturas em ferro forjado, como é o caso da pérgola.





Também, como era frequente na época, recorreu às faixas azulejares, policromáticas, em estilo Arte Nova, distribuídas pela construção, num claro contraste com o branco da alvenaria. Aplicados tanto na fachada principal, como nas laterais, são "exemplares artísticos de excelente qualidade"4, evidenciando  temáticas de inspiração floral e vegetalista.







 O projecto da Vila Laura, localizada na Avenida Sanfré, onde ocupa um lugar predominante, pela sua cor e elegância. O edifício, de autoria de Rafael Duarte de Melo, foi encomendado por Eduardo Esteves de Freitas. A revista "A Architectura Portuguesa" no ano de 1911, assinala a sua localização como um dos locais mais aprazíveis da estância balnear do Estoril.




 Mais uma vez, todo o conjunto mostra as características comuns ao traço do seu autor: "superfície exterior inferiormente revestida com aparelho de tipo ciclópico, sendo o restante a reboco pintado, onde se exibem frisos decorativos azulejares de temática vegetalista e figurativa; a típica entrada principal alpendrada, que resguarda uma escadaria de acesso à porta; o uso de pequenos colunelos de capitéis com volutas e os janelões com guarda em ferro forjado"5.




 As bandas azulejares, de desenhos tipicamente Arte Nova, sobressaem no conjunto arquitectónico pela sua qualidade pictórica e técnica. São de autoria de Joaquim Luís Cardoso, pintor de azulejos da Fábrica do Desterro, sendo considerado, na sua época, um dos "doze pintores mais destacados, que se ocuparam do azulejo nos inícios do século XX"6.




1/2/3/4/5/6 - Rita Fonseca "A Arquitectura de Rafael Duarte de Melo  no Monte Estoril", Revista Museu, IV Série, Nº 13, 2004, pág.121, 132, 143, 153, 158.











quinta-feira, 6 de março de 2014

Azulejos Devesas numa fachada lisboeta


Azulejos das Devesas



Na Rua Miguel Lupi, em Lisboa, perdura uma fachada lisboeta com sabor a Norte. Felizmente para nós,os azulejos que revestem este prédio, de produção da Fábrica das Devesas, encontram-se em muito bom estado de conservação.
Este costume, de revestir com azulejos as fachadas dos prédios, entronca (?) nas apelidadas "casas de brasileiros", pois foi no "Brasil que esta prática se desenvolveu e consolidou"1, motivada pela necessidade de uma maior resistência à erosão provocada pelas agruras do clima tropical, abundante de chuvas e de calor. Esses palacetes encontram-se nas zonas mais a norte (Minho e Beiras), num indicativo gosto de opulência, plenos de detalhes exóticos, que enriquecem, ainda hoje, paisagens rurais e urbanas.
Partiram na pobreza e regressaram na riqueza. O seu novo estatuto inseria-se num sentimento burguês de afirmação pelo trabalho, reflectindo a preocupação de exibir o sucesso alcançado em terras estranhas. Materializavam-no  nas suas casas, cobertas de belas fachadas de azulejos, construídas nas terras de onde eram oriundos e, por vezes, na cidade do Porto.
Esta nova tendência, de azulejar as fachadas, ultrapassando o tradicional uso de revestir com esse material apenas o interior das casas - entradas, escadarias, jardins e outras áreas privadas -, enraizada com especial incidência no Norte vai alargar-se a outras regiões e também a Lisboa. Aqui, as fachadas de azulejos coincidem com a expansão da cidade para os novos bairros, entre os quais se inclui o da Lapa, onde se situa o prédio cuja frontaria levou a escrever este texto.
Com o aumento das encomendas, quer  para o Brasil, quer em Portugal, as fábricas adaptam-se a novas técnicas de fabrico, abandonando a produção manual e passando a uma semi-industrial. Tal aconteceu com a  Fábrica das Devesas.




A fim de publicitar os produtos, editavam-se catálogos, como foi o caso deste, da Fábrica das Devesas, de 1910.  De um desses catálogos- constam os azulejos que ornamentam a fachada de um prédio da Rua Miguel Lupi, em Lisboa. Sendo uma das maiores unidades fabris de finais do século XIX, início do XX, os seus  azulejos podem, ainda hoje, ser apreciados em algumas frontarias de prédios de Norte a Sul do país.







Neste edifício, de dois pisos, observa-se a conjugação perfeita entre os diversos materiais utilizados na sua construção, que caracterizaram a arquitectura de finais do século XIX e início do XX: pedra, ferro e barro. As suas linhas elegantes  distribuem-se por dois pisos, separados por uma linha definida por cantarias, onde pontuam quatro elegantes varandas de ferro forjado. Ao centro, a porta (ainda das antigas, felizmente) está encimada por um arco de volta perfeita, em pedra.
Toda a fachada está revestida de azulejos formando um padrão geométrico seriado, enquadrados por friso em forma de fita grega. Com a advento da Arte Nova, passaram a usar-se frisos ornamentais, de uma policromia quente, que rematavam de forma criativa as composições de azulejos, apresentando "flores de grandes dimensões ou densamente agrupadas, com cores rutilantes, associadas a outros elementos vegetais, numa das afirmações mais originais e marcantes da azulejaria do início do século XX"2. É o que podemos observar nos pequenos painéis que se intercalam entre as janelas, onde malmequeres brancos sobressaem do intrincado movimento dos seus filamentos.


1- "Azulejos de Fachada em LISBOA-II". Lisboa, revista municipal, Ano XLIV, 2ª Série, Nº4, 2º Trimestre de 1983.
2 - José Meco, "O Azulejo em Portugal", Publicações Alfa, 1989, pág.155.