Mostrar mensagens com a etiqueta Operariado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Operariado. Mostrar todas as mensagens

sábado, 28 de maio de 2016

Vilas operárias II



Novamente as vilas operárias. Este gosto por conhecer Lisboa tornou-se em mais um dos meus interesses. Quem sabe, tanta dispersão, a que resultados levará? Mas, um pouco de loucura, faz bem à alma e enriquece a vida.  
Há poucos dias, numa volta por Campolide, freguesia onde vivi até casar, deparei-me com algumas vilas operárias. Uma, que já tinha podido "ver em tempos", numa visita de estudo organizada pela CMLisboa, com o objectivo de contextualizar urbanisticamente o Aqueduto das Águas Livres. Nos seus tempos mais áureos a Vila Romão da Silva, assinalada por uma inscrição algo escondida no pilar do portão, anunciar-se-ia por uma placa cerâmica ou de outro modo mais digno. Hoje, a recordação fica-se por letras pintadas manualmente. São tão dignas como a mais elaborada das pinturas. 




Construída nas traseiras daquele que foi o Palácio Laguares, edifício do século XVIII, ocupado durante muitos anos pela escola primária nº13, actualmente aí funciona a Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul.
Com o incremento da industrialização tornou-se premente a necessidade de construir casas, económicas e salubres, para o operariado, parte integrante da nova realidade social que se forma nos finais do século XIX e se sedimenta nos primórdios do século XX. Necessitados de casas com melhores condições de habitabilidade, e dada a escassez de terrenos bem localizados, que fossem próximos dos locais de trabalho, e permitissem uma construção económica, assistimos ao aproveitamento de espaços nas traseiras dos prédios, muitos deles destinados à pequena burguesia.  Na Rua Professor Sousa da Câmara temos dois exemplos. A Vila Romão da Silva, com um amplo pátio, circundado por habitações de rés do chão e primeiro andar, onde um habitante solitário goza uma réstia de Sol e












a Vila Raúl com entrada por um portão gradeado, entre dois edifícios que dão directamente para a rua. Característicos das primeiras décadas do século XX, um deles ainda habitado, outro já com o destino traçado - o abate. Casas que ladeiam uma rua de acesso, porta e janela, num convívio quase forçado, entre os seus ocupantes









.

A condessa do Paço do Lumiar, em 1889, vendeu terrenos que detinha na zona de Campolide, para a construção do Bairro Novo de Campolide. As primeiras ruas delineadas e posteriormente executadas, designadas inicialmente pelos números 1 a 4, deram, posteriormente, origem às ruas Conde das Antas, General Taborda, Victor Bastos e D. Carlos de Mascarenhas. Para além de edifícios mais elaborados e com projecto de autor vamos, mais uma vez, encontrar as já "famosas" vilas operárias.
Na Calçada dos Mestres, rua que deve o seu nome aos mestres de ofícios que, no século XVIII, vieram trabalhar para o aqueduto das Águas Livres, também deparamos com a Vila Emília, com acesso por um portão de ferro e um arco, por debaixo do prédio, entretanto recuperado.








Encontrei o portão fechado. Mas o engenho e uma máquina "mignone" permitiram uma fotografia. Mais uma vez se nos depara uma rua estreita, com leve inclinação para o centro, talvez com o intuito de permitir que as águas escorressem, ladeada por casas baixas, aparentemente bem conservadas. Habitação menos remediada entre outras mais remediadas. Os operários ocupavam-nas, embora hoje os seus habitantes sejam outros, pois os filhos dos primitivos ocupantes fugiram para casas mais modernas, nos dormitórios adjacentes a Lisboa.









Na Rua Soares dos Reis, perpendicular  à Rua General Taborda, a Villa Motta, com acesso por um arco sob o prédio, portão gradeado, aberto, convidando a entrar. Não me fiz rogada. Sorrateiramente fui andando e deparei-me com uma senhora, gozando o sol de uma tarde amena. Orgulhosamente, informou-me que tinha nascido no nº 2, a casa por trás de si. Rua com calçada à portuguesa, de casa bem tratadas, algumas exibindo, com donaire, sinais exteriores de riqueza.
Continuando para a rua General Taborda a nossa vista encontra-se com a Villa Borba, com acesso através de um arco que passa por baixo do prédio. O mesmo esquema de edificação - rua bordejada por correnteza de casas, com três pisos.









Estas vilas, expressamente destinadas a famílias operárias, tinham regras bem definidas para a sua construção. O Regulamento Camarário de 1930 definia-as como "edificações destinadas a uma ou mais moradias construídas em recintos que tenham comunicação, quer directa, quer indirecta, com a via pública, por meio de serventia"1.


Ainda deambulando pela Rua Professor Sousa da Câmara,  deparei-me com a fachada azulejada de um palacete, encimado por balaustrada e peças de faiança: jarrões e pinhas.










Mas as surpresas ainda não tinham findado. Não muito ao  meu jeito, por regra sou tímida, entrei pelo portão do dito palacete. Devia ter sido a entrada de honra, mas agora está reduzido a  pequenas oficinas, uma delas de restauro de móveis. Qual não é o meu espanto quando avisto azulejos de figura avulsa, recolocados ao acaso, nos muros e paredes. No meio deles, sem qualquer relação, um motivo que nunca tinha visto - jarras de flores. Que vontade de os trazer comigo. Que belíssimo painel formariam, depois de devidamente restaurados. C'est la vie! Fica o prazer de os ter encontrado e de os dar a conhecer.









Nuno Teotónio Pereira "Pátios e vilas de Lisboa, 1870 - 1930:a promoção privada do alojamento operário". Análise Social, vol.XXIX, 1994, pág.512.













sexta-feira, 15 de maio de 2015

As vilas operárias




Imagem de Lisboa tirada do  miradouro da Igreja da Graça. De uma das suas  colinas a vista foge e alcança um panorama único, quiçá irrepetível.
Num destes últimos sábados fui conhecer a Graça operária. Bairro tradicional e de características muito próprias, se o  percorremos com o coração aberto, revela-se, deixando perceber a riqueza que guarda dentro de si.
O surto industrial de meados do século XIX originou uma súbita e urgente necessidade de mão-de-obra. Para a colmatar recorreu-se às gentes do interior. Ao crescente afluxo de pessoas que acorriam a uma ilusória melhoria de vida não correspondia a cidade com um parque edificado que oferecesse condições mínimas de habitabilidade. A cidade crescera, tendo-se desenvolvido para novos bairros  e zonas como Estefânia, Campolide, Campo de Ourique, Almirante Reis e Avenidas Novas. Embora a construção  de casas nessa novas zonas fosse mais barata, ainda assim os salários auferidos pelos operários não permitiam o seu arrendamento.
Numa tentativa de solucionar o problema e também com intuitos sanitários - impedir, nomeadamente, a propagação da tuberculose - que poderia afectar a população de uma forma cega, vão ser procuradas soluções. Adaptam-se antigos palácios ou conventos, transformando-os em habitações para as pessoas de mais fracos recursos, ou vão construir-se casas, de baixo custo, algumas devidas à iniciativa privada, de modo a permitir o seu arrendamento pelos operários e, ao mesmo tempo, assegurar  rentabilidade aos seus construtores.




Esta vila é conhecida pela designação de pátio do Barbosa por ter pertencido a Francisco Barbosa. Propriedade que foi  dos Senhores da Trofa, o palácio mantém a sua fachada seiscentista. O acesso ao pátio faz-se pelo portal, que ainda mostra sinais da sua imponência. No interior, as casas distribuem-se em  redor do que foi, possivelmente, o pátio de honra. Ainda podemos ver o que resta da antiga cisterna.


Pátio do Barbosa
Imagem retirada da internet


Uma forma diferenciada de vilas, também aproveitando um antigo palácio, se bem que reabilitado, inteiramente revestido de azulejos verdes, fica no Largo da Graça, nº32. Com entrada directa para a rua, o acesso para o interior faz-se por um largo portal em ferro forjado que ostenta orgulhosamente a data de 1890 e o nome pelo qual é conhecida - Villa Sousa.





Esta vila tinha dois objectivos: arrendamento à pequena burguesia industrial e comercial, bem como a funcionários públicos ou membros do exército de baixa patente e, evidentemente, aos operários. A parte que dava directamente para a rua era ocupada pela elite do operariado ou do funcionalismo público e, no interior, nas casas que rodeavam o largo, vivia a "classe laboriosa" que, alegre e ruidosamente, reproduzia o modus vivendi das suas aldeias longínquas. Um corredor largo e com alguma magnificência de construção, como se pode constatar pelos tectos de estuque e a escadaria de acesso às habitações de melhor qualidade.






Outro tipo de vilas, como a Vila Berta, em que a construção é mais cuidada, já com  preocupações de beleza e conforto. Apresenta-se com duas entradas distintas, dispondo-se as residências ao longo de toda uma rua. A sua edificação ficou a dever-se  à iniciativa do seu fundador e construtor, Joaquim Francisco Tojal, brasileiro, filho de emigrantes portugueses, que regressa a Portugal, em finais do século XIX.




Foi-lhe atribuído o nome de família, como se pode verificar pelo belo painel de azulejos Arte Nova e pela tabuleta afixada na parede do prédio. Acabada em 1908, foi ocupada pela família, parentes e amigos formando um pequeno grupo social, coeso e intimista, que não era habitual existir numa grande cidade.



Nos topos da rua ficavam a casa do proprietário, tipo chalet, com telhados amansardados e varanda assente num conjunto de cachorros. No topo oposto, um edifício da quatro andares, dando acesso à Rua do Sol à Graça, através de um arco. Está ornamentada, também,  com azulejos Arte Nova.




A vila desenvolve-se ao longo da rua, com duas bandas de casas, em correnteza. Num lado têm dois andares. No outro três. A originalidade destas habitações está nas suas varandas de ferro, formando pequenos terraços. Toda a rua respira tranquilidade.





Este texto já vai longo, mas não é possível deixar de abordar mais dois exemplos de vilas existentes na freguesia da Graça.São eles  a Vila Rodrigues e o Bairro Estrela d'Ouro.
A primeira, típica vila operária, situa-se nas traseiras de um grupo de prédios, de melhor qualidade arquitectónica. O acesso faz-se por um portão lateral que exibe o nome Vila Rodrigues.






Depois de dobrar o cotovelo formado pela rua, onde um pequeno cão, rafeiro barulhento e belicoso, nos deu as boas vindas chegámos à vila propriamente dita. O grupo edificado tem dois conjuntos paralelos de casas. O acesso faz-se exteriormente por galerias e varandas em ferro, demonstrativas das modernas tecnologias de construção da época, 1902. A falta de terrenos provocou  a sobreocupação dos poucos existentes. Com esta sobrelotação de edifícios pretendia obter-se uma elevada  rentabilização. Uma área mínima, para uma máxima ocupação.




O Bairro Estrela d'Ouro situa-se na freguesia da Graça. A sua construção deve-se à iniciativa de um industrial galego, Agapito Serra Fernandes.


Família de Agapito Serra Fernandes
Imagem retirada da internet
Foi um planeamento pensado e executado pelo arquitecto Norte Junior  tendo em conta as necessidades da própria família do fundador, bem como os alojamentos para os trabalhadores.             Conta-se que a estrela, de cinco pontas, presente na ornamentação e nos pormenores   decorativos patentes em todo o conjunto era um elemento significativo para o industrial galego.    
                               
                           


                                         


A moradia principal, com belos painéis de azulejos Arte Nova, era casa de habitação da família. As casas estavam dispostas em forma de U, alinhadas ao longo das ruas. O acesso exterior, faz-se por escadarias e varandas em ferro.




Este é um pequeno grande pormenor que deve ter sido acrescentado posteriormente. No jardim da casa principal, onde hoje está instalado um Lar de Idosos da Misericórdia, foi construído um banco todo revestido com azulejos pombalinos. Qual terá sido o seu primitivo local de origem?






Nuno Teotónio Pereira -"Pátios e vilas de Lisboa 1870-1830", Análise Social, vol.XXIX, 1994.
Sónia Cristina Ildefonso Pinto -"Vilas operárias em Lisboa, Emergência de novos modos de habitar. O caso da Vila Berta". Dissertação de Mestrado em Arquitectura, IST, Universidade Técnica de Lisboa, Novembro de 2008.