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quinta-feira, 17 de março de 2016

Pias de água benta






Em tempos mais recuados, nas missas dominicais, era usual o gesto de tocar com os dedos na água benta que as pequenas pias, como as acima representadas, continham. Estas, maiores ou menores, de diferentes materiais, encontravam-se à entrada das naves paroquiais. Tal gesto, tinha como finalidade  concretizar o sinal da cruz, destinado a purificar o corpo e a mente, recordando-nos a santidade do local onde entrávamos. Pretendiam, também, recordar as práticas da primitiva igreja cristã  que, na tradição de outras religiões, que a cristã conservou, tinham, à entrada dos seus templos, grandes recipientes com água, para os sacerdotes e os fiéis se purificarem, antes de iniciarem ou participarem nos ritos religiosos.

As duas pias de água benta representadas, senhoras de muita graciosidade e beleza, quer nas formas, quer no relevado e na cor, lembram aos homens o fim para que foram executadas - conter água benzida pelo sacerdote, para que todos pudessem, simbolicamente, através do gesto de reviver o sinal da cruz, entrar de alma pura para assistir ao ofício divino.
Nos seus escassos 22 cm de altura, mostram a grandeza das mãos rudes que as criaram. Ambas aludem ao martírio de Cristo - a Crucificação.  Ambas mostram caldeiras gomadas, em forma de cúpula invertida, e espaldares relevados e recortados. Vivem do contraste do azul profundo, com o branco etéreo do esmalte com que foram cobertas.


In Artur de Sandão "Faiança Portuguesa séculos
XVIII/XIX", vol.1, pág. 55

Atribuir a sua  produção a um determinado centro é difícil e não se pode fazer de ânimo leve. No entanto, por comparação com exemplares publicados em obras de referência, como é o caso de Artur de Sandão,  talvez não seja um grande atrevimento, podermos apontar indícios ao centro coimbrão, famoso pela produção de faiança. O autor situa o seu fabrico em Coimbra. Formato, tamanho, policromia serão, quiçá, elementos que se podem ter em conta para localizar a sua produção nas olarias conimbricenses, com provável datação em finais do século XVIII (???).
A produção de faiança nas olarias de Lisboa, de finais do século XVII e primórdios do XVIII, conhecida pela designação de Monte Sinai, atribuída por José Queiroz e que entrou no léxico de quem se interessa pelo estudo da faiança portuguesa,  influenciou grandemente as peças  produzidas em Coimbra.


In "Faiança Portuguesa séc. XVI a XVIII", pág.133
Miguel Cabral de Moncada 


 Três pias de água benta representando Nossa Senhora com o Menino, Santo António com o Menino e a Cruz alusiva ao martírio de Cristo, encimando o espaldar um anjo barroco. É patente a influência da talha portuguesa nas colunas que ladeiam as composições. Igualmente enriquecidas pelo contraste do branco leitoso com o azul profundo, realçado pelo esbatido cromático dos azuis.
Num pequeno artigo escrito por Matos Sequeira na Revista da Feira da Ladra, no ano de 1935 acerca do espólio cerâmico encontrado num vazadouro do antigo mosteiro do Santo Crucifixo das Capuchinhas da Bretanha, carinhosamente conhecido por Convento das Francesinhas, numa clara alusão à origem das suas fundadoras, faz-se referência ao aparecimento de fragmentos de pias de água benta.
Este convento foi fundado por D. Maria Francisca Isabel de Saboia, princesa da casa real francesa, que casou com D. Afonso VI. Com ela vieram quatro freiras que iriam fundar a casa conventual. Demolido o  edifício em 1911, os terrenos por ele ocupados serviram de base para a construção de uma réplica de um bairro antigo de Lisboa, integrado nas festas da cidade, no ano de 1935. Quando se procedia ao arranjo do terreno, foi descoberto um subterrâneo cheio de "cacos", demonstrativos da vida quotidiana das freiras que ali tinham vivido. Entre as muitas peças encontradas havia fragmentos  de pias de água benta, tanto das olarias alfacinhas, como da faiança de Brioso.











Uma das invocações religiosas mais veneradas e queridas em Portugal é a de N. Srª. da Conceição, como podemos concluir pelas que  imagens que seguem. Duas pias de água benta completas, com caldeira e espaldar, conservadas intactas, apesar da sua fragilidade. Atribuídas à produção de Brioso, possui, uma delas a inscrição N.S. 
 Ambas apresentam uma policromia em tons de azul cobalto e roxo vinoso. Os espaldares mostram um enquadramento relevado, estando as imagens inscritas em altares, com colunas vazadas e espiraladas. A primeira está encimada por um querubim e a segunda possui um frontão com a a inscrição IHS.






"Feira da Ladra", Revista Mensal Ilustrada, Tomo sétimo, 1935.
Miguel Cabral de Mondaca, "Faiança Portuguesa séc. XVI a XVIII", 2009.
José Queirós " Cerâmica Portuguesa e Outros Estudos", Editorial Presença, 1987.
Alexandre Pais, António Pacheco, João Coroado " Cerâmica de Coimbra", 2007. 









quarta-feira, 8 de abril de 2015

As Bellas na Faiança Ratinha





E, num ápice, chegou o segundo aniversário deste blog. Para  celebrar a efeméride!!! revelam-se algumas peças de Faiança Ratinha que se destacam do panorama habitual de  peças desta espécie.de faiança. Palanganas de rara beleza - pelo motivo ornamental, paleta cromática e técnica de pintura - (elevam e) demonstram a categoria dos seus executantes que, com grande probabilidade, colheram inspiração em fontes mais arcaicas, possivelmente álbuns de gravuras que circulavam pelo meio artístico e a que puderam ter acesso. 
Numa clara demonstração ao horror vacui - herança e influência prováveis da cerâmica de Iznik -,a superfície  a decorar cobre-se de uma sinfonia de ritmo e cor. 




Na Faiança Ratinha, devido à fraca qualidade da louça, os artistas utilizavam a técnica do desenho livre, pintando directamente "a traços largos, com pincéis macios"1.
Nestas duas peças, a "técnica do desenho livre alcança elevada expressão"2. Representam-se dois bustos femininos, de perfil. O corpo, em forma de coração, é delineado por traços e aguadas que lhes conferem profundidade. O realce salienta-se nos rostos. As "características faciais, testa alta, pescoço esguio, nariz curvilíneo, olhos grandes e rasgados, sobrancelhas espessas"3  levantam a hipótese de ter havido uma grande proximidade entre artistas, uma vez que há traços muitos equivalentes no desenhar da linha do rosto. Diferem nos ornamentos de cabeça. A senhora desenhada na primeira das peças que se apresentam exibe um chapéu a lembrar a caça, pela sua aba revirada a que não deverá faltar uma pena, se bem que invisível, dada a sua posição de perfil. A outra senhora, numa clara inspiração renascentista, ostenta uma coifa (?), enfeitada com plumas, jóias e um conjunto ornamental de difícil caracterização e especificação.
Inscrevem-se num enquadramento vegetalista, obtido pelo recurso à técnica do esponjado.

A produção da faiança coimbrã vai conhecer o seu apogeu durante o século XVIII tendo sido executadas peças com as mais variadas formas e motivos. Em finais do século, destaca-se, dentre  os oleiros produtores de cerâmica, a família Brioso. As peças que se apresentam, de uma colecção particular, poderão ser atribuídas à  produção de Brioso.





Diferindo nas cores, em que foram usados o azul e o manganés, aproximam-se na composição decorativa. O mesmo rosto de perfil, testa alta e olhos amendoados, na qual de destaca a coifa, ajustada ao tamanho da cabeça. Também nestas peças se recorreu ao uso do desenho livre e da técnica do esponjado para finalizar o esquema decorativo, obedecendo à regra do preenchimento quase total da superfície a ornamentar.
Esta temática das representações de bustos de senhora, conhecida como as Bellas, terá origem italiana. Estará, porventura, associada "ao retrato das mulheres mais bonitas das cidades onde estes objectos eram produzidos e o seu intuito estava relacionado com o namoro, sendo ofertas de homens apaixonados para aquelas que eram devedoras da sua afeição"4. 

PCV, Leilão nº 45, 1999

PCV, Lote 57, Outubro 2010

As Bellas são peças raras. Quando surgem, em leilão, como é o caso das anteriores, atingem preços muito altos. As imagens destas Bellas denotam diferenças no seu tratamento, principalmente nas faces e nas coifas. Talvez um pequeno aprendiz de pintor, encantado com a delicadeza do tema, se tenha aventurado a esboçar o desenho, mas escondendo a sua autoria, receando uma reprimenda. Imaginamos que o seu mestre, divertido com a sua ousadia, deixou que a peça seguisse o seu caminho. Para bem de todos, chegou até nós.


1 - Charles Lepierre "Estudo Chimico e Technologico sobre a Ceramica Portugueza Moderna". Lisboa, Imprensa Nacional, 1899, Pág.122.
2/3 - Ivete Ferreira "Os Ratinhos Cerâmica Portuguesa de Cariz Popular". Tese de mestrado, Escola das Artes, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2007, Vol. I, Pág.119.
4 - Alexandre Pais, António Pacheco, João Coroado "Cerâmica de Coimbra". Lisboa, Edições Inapa, 2007, pág.75.






sábado, 26 de outubro de 2013

Um prato Brioso

Um original prato Brioso





Este prato tem uma história peculiar. Vi-o, pela primeira vez, no Louvre des Antiquaires,  num período da vida muito nefasto, em que, por razões de saúde, se tornava necessário ir todos os anos a Paris. 
O proprietário de uma das lojas ali situadas, ao ouvir-me falar português, lançando mão das mais elementares regras comerciais, apressou-se a declarar-nos que tinha um prato de "Coimbrá". E mostrou-nos este belo exemplar. Verdes nos nossos conhecimentos e assustados com o preço, cerca de trezentos contos, hesitámos. Foi o nosso erro. Pedimos, no entanto, que nos deixasse tirar uma fotografia. Quando, já em Lisboa, conversando com amigos sabedores e consultando livros da especialidade, ficámos cientes da veracidade das palavras do antiquário francês. Era mesmo de Coimbra, possivelmente da produção de Manuel da Costa Brioso.
Uma das características decorativas da sua produção é o horror vacui - a ocupação de toda a superfície da peça. Esta mesma tendência vai verificar-se, posteriormente, na decoração da faiança ratinha que temporalmente lhe sucedeu. Na produção Brioso não existe normalmente uma demarcação decorativa distinta entre a aba e o covo: regra geral, não existe cercadura envolvente, com ornamentação diferenciada, o que propicia maior criatividade ao artista. Nas palavras de Artur de Sandão, é uma faiança "de robustez descuidada e fácies arcaizante" onde os "pormenores denotam o ingénuo sentido de tão distinta expressão local"1, dando forma a uma tipologia de aspecto mais recuado.
Os pormenores deste prato fogem de todo ao padrão estabelecido, quer pela representação em si, quer pela extrema ingenuidade do traço, demonstrativa de mão insegura e talvez ainda muito juvenil. Poderá ter sido a sua "prova de artista", que ficou aquém da sua fértil imaginação.

A embarcação, qual imagem de um menino de escola - uma meia lua com duas velas triangulares - navega ao sabor da ondulação. Os sorridentes  passageiros, ignorantes do destino que os espera, observam e desfrutam da viagem.
Também presentes outras personagens, cujas obrigações são difíceis de conjecturar: timoneiro, manobradores de velas (?)...





Em fundo, monstros marinhos povoam as águas, numa clara alusão às histórias fantásticas que dominavam a imaginação dos marinheiros no início dos descobrimentos.

A produção de Manuel da Costa Brioso centra-se, fundamentalmente, no século XVIII, embora alguns autores admitam que provinha já dos finais do século anterior. Para além desta produção usual, menos elaborada, importa assinalar uma outra vertente, de qualidade muito mais refinada, como a travessa que integra o acervo do Museu Machado de Castro "coberta de decoração relevada a branco, sobre esmalte azulado, e no fundo uma caçada a cores. O reverso, marmoreado a castanho, mostra ao centro, a inscrição: Brioso, 1779" 2.

In "Cerâmica de Coimbra"
de Alexandre Pais, António Pacheco, João Coroado, pg.94


MNMC nº inv.4566


O depósito de parede do Museu Nacional de Arte Antiga, pela sua decoração rigorosa e paleta de cores, lembra o trabalho de azulejaria, tão importante na produção coimbrã.
De execução mais elaborada, no entender de Alexandre Pais, António Pacheco e João Coroado, estas peças podem ter sido uma "produção com intuito experimental"3, numa tentativa de fugir aos padrões mais comuns praticados nas oficinas de Coimbra. Pela sua raridade, podemos intuir que esta iniciativa não teve sucesso.


MNAA
 
MNAA

No entanto, muitas outras variedades de objectos foram produzidos por este fabricante e seus seguidores: tinteiros, relicários, pucarinhos...







1 Artur de Sandão "Faiança Portuguesa séculos XVIII-XIX", 1970.
2 Charles Lepierre " Estudo Chimico e Technologico sobre a Ceramica Portugueza Moderna", 1899.
3 Alexandre Pais, António Pacheco, João Coroado "Cerâmica de Coimbra", 2007
Miguel Cabral de Moncada "Faiança Portuguesa Séc. XVI a Séc. XVIII",2008