sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Uma peça decorada com o motivo "Cantão Popular"

Uma peça decorada com o motivo "Cantão Popular"



A peça que hoje apresento, pela leitura da curiosa inscrição da cartela "F. da B., 13 de Agosto de 1865" , induz, de imediato, a uma possível atribuição à Fábrica da Bandeira.
O facto de estar datada com precisão "13 de Agosto, do ano de 1865" sugere, também, poder ter sido feita por encomenda, para algum fim específico. 
Contudo,o registo "F.DA.B." e o facto de estar inscrita numa cartela de uma das faces do bojo, não nos permite uma conclusão tout court. Suscita algumas incertezas, principalmente porque as poucas informações acerca desta fábrica são contraditórias. Evocando uma citação de José Queiroz,  diz-nos este que "o Sr. Ramiro Mourão (actual proprietário da Fábrica da Torrinha) que a Fábrica da Bandeira teve o seu início em Sto. Ovídio, aí por 184... Afiança este mesmo senhor que a Fábrica da Bandeira nunca marcou os seus produtos"(1). No entanto,  considera este autor que poderia ser da produção da Fábrica da Bandeira um gomil, marcado com as mesmas iniciais "F.B.", que encontrou no Museu Municipal de Azuaga, em Gaia, e terá figurado na Exposição do Porto, de 1882.
Curiosamente, no roteiro da exposição de Cerâmica Portuense realizada no Porto, no ano de 1973, e na parte que respeita à Fábrica da Bandeira, afirma-se que "marcou poucas peças com as iniciais F.B."(2)
Foi o caso do prato que figurou nessa exposição com o nº 233.


in "Cerâmica Portuense", de Pedro Vitorino, pág.70

A Fábrica da Bandeira já existiria desde 1828, segundo Charles Lepierre (3), situada no largo da Bandeira, em Gaia, tendo sido transferida do sítio de "Traz os Valles", Mafamude. Numa curiosa indicação de Pedro Vitorino (4), o seu primeiro dono terá sido terá sido um "indivíduo conhecido pela alcunha de Perna de Chumbo". A partir de 1845, os almanaques de Gaia e do Porto dão como seu dirigente e proprietário Gaspar Gonçalves de Castro e, após 1877, sua viúva D. Margarida Cândida de Sá Castro e seu filho Cândido Augusto de Sá Castro (5).   A fábrica terá continuado a sua laboração até 1912, encerrando pouco tempo depois.

O edifício era de pequenas dimensões e constava de dois pavimentos e um depósito bastante espaçoso. Produziam essencialmente faiança comum, destinada preferencialmente a uso doméstico.
Nas exposições do Porto (1882) e de Gaia (1894), em que foram exibidos os seus produtos, obteve, em ambas, menções honrosas.





Esta peça - que pertence a um coleccionador de primeira linha, a quem agradeço a disponibilidade para a permitir a sua divulgação - é invulgar pela forma, duas esferas achatadas e sobrepostas, e também pelo motivo, de inspiração orientalista. A sua decoração aponta para o conhecido Cantão Popular, que Luís Montalvão e Maria Andrade (6/7) tão bem têm caracterizado nos seus blogs. Quer na parte inferior, quer na superior, só se observam os telhados e as cúpulas das construções, ladeados por árvores.
Tem uma pasta fina, agradável ao toque, cores vivas e um vidrado brilhante, o que não se coaduna com a as peças mais populares e rudes dos últimos períodos de laboração da fábrica e a que esta recorreu, para fazer face à concorrência das suas congéneres.



Arthur de Sandão (8) publica, na página 144 do seu livro "Faiança Portuguesa Séculos XVIII - XIX", uma pequena cabaça, também monocromática, num azul denso e vivo, com a inscrição - AMOR FIRME -, a encimar uma coroa. 



Bandeira ou outra filiação não lhe tiram a sua originalidade e encanto. 



1- José Queiroz -"Cerâmica Portuguesa e Outros Estudos", 2002.
2- Cerâmica Portuense (Séculos XVIII e XIX), 1973
3- Charles Lepierre - "Estudo Chimico e Technologico sobre a Ceramica Portugueza Moderna", 1899.
4- Pedro Vitorino - "Cerâmica Portuense",1930.
5- Manuel Leão - "A Cerâmica em Vila Nova de Gaia", 1999.
6- Luís Montalvão - "Velharias do Luís"
7-Maria Andrade -"Arte Livros e Velharias"
8-Arthur de Sandão -"Faiança Portuguesa séculos XVIII - XIX",1976.
Isabel Maria Fernandes - "Meninos Gordos Faiança Portuguesa", 2005.









sábado, 2 de novembro de 2013

Um bouquet... de Ratinhos



Um bouquet ... de Ratinhos




As flores dos ... Ratinhos! Alegram a vista e aquecem a alma! Tão simples! Tão rústicos! Tão autênticos!
Saídos das pequenas e familiares olarias de Coimbra, das mãos hábeis de anónimos artistas, alcançaram um lugar à parte no panorama das faianças portuguesas. Nas sábias palavras de Moradas Ferreira " um título pelo menos lhe é devido: o de ser a mais autenticamente popular de todas elas. Produto de um artesanato regional virgem de lições ou de influências estranhas, é a expressão pura, original e espontânea das virtualidades plásticas do nosso povo"(1).
Destinada a uma população de mais fracas posses, mas que se não alheava, por isso "exigindo" uma decoração colorida, cujo significado compreendesse. Daí a continuidade dos processos de fabrico e dos traços ornamentais, a que os produtores, tributários das exigências do mercado, não podiam fugir.

Um núcleo unido pelo tema da flor (2) - já que neste post não abordo a decoração figurativa -, categorizável como elemento autónomo e autenticado pela pluma de pavão, traço identificativo único desta louça, que entronca na tradição oriental e permite estabelecer a sua distinção relativamente à restante faiança do nosso País, produzida na mesma época - o século XIX. É essa a sua marca.



Pratos coloridos que têm em comum três flores esponjadas, envolvidas pelos filamentos, sugerindo e simbolizando as folhas. Em comum: a decoração abrange toda a superfície da peça, covo e aba.. Assemelham-se, mas ligeiras diferenças os distinguem: o centro da flor, mais ou menos cheio, os filamentos, em maior ou menor quantidade e a paleta cromática.





Este exemplar mostra cinco flores maiores, da qual se destaca a central, totalmente esponjada, mas contornada por uma leve linha ondulada. As outras, numa disposição simétrica, ocupam  o espaço restante.





Nesta palangana, a ornamentação vive da riqueza do ramo central. O enquadramento da aba coaduna-se com o cromatismo do motivo principal. A composição é formada por quatro flores, lembrando a forma da túlipa, dispondo-se quase simetricamente.


Os produtores da faiança ratinha participaram com as suas peças em diversas Exposições Industriais, como foi o caso da que se realizou em Coimbra, no ano de 1869. Nela foram premiados Joaquim Alfredo Pessoa e José Júlio de Oliveira. Joaquim Alfredo Pessoa lamentou-se publicamente (O Conimbricense, de 20 de Julho de 1869) que lhe tinham saído estragadas várias fornadas, pelo que tinha sido obrigado a utilizar o barro usado na louça mais ordinária. Apesar destas vicissitudes, ressalvou que, até então, não lhe tinha sido dado apreciar pintura de tanto "mimo e gosto".




1-A. Moradas Ferreira "Pratos Ratinhos". Separata de Estudos de Castelo Branco, Revista de História e Cultura, 1962.
2-Ivete Ferreira "OS RATINHOS Cerâmica Portuguesa de Cariz Popular",pág.201.






sábado, 26 de outubro de 2013

Um prato Brioso

Um original prato Brioso





Este prato tem uma história peculiar. Vi-o, pela primeira vez, no Louvre des Antiquaires,  num período da vida muito nefasto, em que, por razões de saúde, se tornava necessário ir todos os anos a Paris. 
O proprietário de uma das lojas ali situadas, ao ouvir-me falar português, lançando mão das mais elementares regras comerciais, apressou-se a declarar-nos que tinha um prato de "Coimbrá". E mostrou-nos este belo exemplar. Verdes nos nossos conhecimentos e assustados com o preço, cerca de trezentos contos, hesitámos. Foi o nosso erro. Pedimos, no entanto, que nos deixasse tirar uma fotografia. Quando, já em Lisboa, conversando com amigos sabedores e consultando livros da especialidade, ficámos cientes da veracidade das palavras do antiquário francês. Era mesmo de Coimbra, possivelmente da produção de Manuel da Costa Brioso.
Uma das características decorativas da sua produção é o horror vacui - a ocupação de toda a superfície da peça. Esta mesma tendência vai verificar-se, posteriormente, na decoração da faiança ratinha que temporalmente lhe sucedeu. Na produção Brioso não existe normalmente uma demarcação decorativa distinta entre a aba e o covo: regra geral, não existe cercadura envolvente, com ornamentação diferenciada, o que propicia maior criatividade ao artista. Nas palavras de Artur de Sandão, é uma faiança "de robustez descuidada e fácies arcaizante" onde os "pormenores denotam o ingénuo sentido de tão distinta expressão local"1, dando forma a uma tipologia de aspecto mais recuado.
Os pormenores deste prato fogem de todo ao padrão estabelecido, quer pela representação em si, quer pela extrema ingenuidade do traço, demonstrativa de mão insegura e talvez ainda muito juvenil. Poderá ter sido a sua "prova de artista", que ficou aquém da sua fértil imaginação.

A embarcação, qual imagem de um menino de escola - uma meia lua com duas velas triangulares - navega ao sabor da ondulação. Os sorridentes  passageiros, ignorantes do destino que os espera, observam e desfrutam da viagem.
Também presentes outras personagens, cujas obrigações são difíceis de conjecturar: timoneiro, manobradores de velas (?)...





Em fundo, monstros marinhos povoam as águas, numa clara alusão às histórias fantásticas que dominavam a imaginação dos marinheiros no início dos descobrimentos.

A produção de Manuel da Costa Brioso centra-se, fundamentalmente, no século XVIII, embora alguns autores admitam que provinha já dos finais do século anterior. Para além desta produção usual, menos elaborada, importa assinalar uma outra vertente, de qualidade muito mais refinada, como a travessa que integra o acervo do Museu Machado de Castro "coberta de decoração relevada a branco, sobre esmalte azulado, e no fundo uma caçada a cores. O reverso, marmoreado a castanho, mostra ao centro, a inscrição: Brioso, 1779" 2.

In "Cerâmica de Coimbra"
de Alexandre Pais, António Pacheco, João Coroado, pg.94


MNMC nº inv.4566


O depósito de parede do Museu Nacional de Arte Antiga, pela sua decoração rigorosa e paleta de cores, lembra o trabalho de azulejaria, tão importante na produção coimbrã.
De execução mais elaborada, no entender de Alexandre Pais, António Pacheco e João Coroado, estas peças podem ter sido uma "produção com intuito experimental"3, numa tentativa de fugir aos padrões mais comuns praticados nas oficinas de Coimbra. Pela sua raridade, podemos intuir que esta iniciativa não teve sucesso.


MNAA
 
MNAA

No entanto, muitas outras variedades de objectos foram produzidos por este fabricante e seus seguidores: tinteiros, relicários, pucarinhos...







1 Artur de Sandão "Faiança Portuguesa séculos XVIII-XIX", 1970.
2 Charles Lepierre " Estudo Chimico e Technologico sobre a Ceramica Portugueza Moderna", 1899.
3 Alexandre Pais, António Pacheco, João Coroado "Cerâmica de Coimbra", 2007
Miguel Cabral de Moncada "Faiança Portuguesa Séc. XVI a Séc. XVIII",2008


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Estátuas das Devesas

Estatuária da Fábrica das  Devesas

Desde sempre gostei de olhar as fachadas de prédios que ainda se vão encontrando pelas cidades e terras do nosso País, de ver as estátuas que ainda resistem como figuras cimeiras de muitos deles.






Há tempos, folheando um catálogo da Leiloeira Cabral de Moncada, deparei-me com algumas peças da fábrica das Devesas - bustos e elementos ornamentais de fachada.
Esta, bem como outras suas contemporâneas,  foram verdadeiras "escolas de artes" e de artistas cerâmicos, nelas se tendo formado escultores e modeladores.
As obras e peças que ali se produziram marcaram uma época, contribuindo para caracterizar um período específico na ornamentação das  fachadas da arquitectura portuguesa, de finais do século XIX.
As suas estátuas eram, geralmente, vidradas de branco. No entanto, também podiam surgir marmoreadas, bronzeadas ou simplesmente em fosco. Dentre as fábricas que se dedicaram ao fabrico de estátuas de ornamentação nenhuma produziu tanto, quer em quantidade e qualidade, quer em diversidade de materiais e de temas: divindades protectoras, comércio, indústria, artes, alegorias, estações do ano, continentes, figuras históricas e tantas outras representações.

Primavera

Inverno
Catálogo Fábrica Cerâmica e de Fundição das Devezas, 1910, pg.14

As estátuas acima representadas constituem a página 14 do Catálogo da Fábrica das Devesas, de 1910. Deste grupo existem ainda, actualmente - daí o destaque que se lhes concede - as representações físicas da Primavera e do Inverno, que correspondem aos números 30 e 33, da referida página.
A estatuária para exteriores das Devesas, pelo  maior naturalismo da sua figuração e pelas expressões menos arreigadas a cânones e modelos previamente estabelecidos, ganha competitividade, pela qualidade e perfeição,  relativamente às restantes fábricas, nomeadamente a de Santo António do Vale da Piedade.
O espírito empreendedor do seu proprietário, António Almeida da Costa, leva-o a sediar as suas empresas junto de boas vias de comunicação, que facilmente lhe permitam um eficaz escoamento dos seus produtos, bem como a sua exportação, principalmente para o Brasil. Tendo em vista alcançar uma maior visibilidade para o seu trabalho, procede à impressão de catálogos, exemplificativos de toda a sua produção. A presença em exposições industriais, nacionais e estrangeiras, permite uma divulgação e conhecimento das suas peças, como foi o caso da Exposição Universal de Paris, em 1900, na qual recebeu uma medalha de prata.

Busto de Camões, catálogo CML, Junho 2005

Busto de D. Pedro V, catálogo CML, Junho 2005

Catálogo Fábrica Cerâmica e de Fundição das Devezas, 1910, pg. 27






Na cidade brasileira de Pelotas, situada no estado do Rio Grande do Sul, foi feito um estudo sobre a ornamentação das fachadas dos edifícios, no período balizado entre 1870 e 1931. Por ele se verificou a presença de estátuas  da Fábrica das Devesas, o que vem corroborar o que anteriormente se disse - o apreço em que era tida a produção desta fábrica que exportava muitas peças para o Brasil.

António Correia Lourenço, brasileiro de "torna-viagem", enriqueceu no Brasil. Regressado a Portugal, vai aplicar o seu dinheiro na construção da Casa do Chão Verde, em Rio Tinto, perto do Porto, onde viveu os últimos anos da sua vida.

Imagem retirada da internet
Dentro do espírito do romantismo da época - finais do século XIX -, vai encomendar à Fábrica das Devesas diversas estátuas, algumas únicas, porque exclusivas, muitas delas da autoria de José Joaquim Teixeira Lopes e seu filho, parte delas assinadas. Da encomenda feita em Julho de 1871, sobressai, entre outras, a estátua que simbolizava Portugal, representada por um guerreiro e que, juntamente com a alusiva ao Brasil, encimava os pilares laterais do portão de entrada da quinta.


Estátua representativa de Portugal, atribuível a Teixeira Lopes, Pai
 ( Catálogo da Fábrica Cerâmica e de Fundição das Devesas, 1910, p.12, nº 5)


Portugal


Agradeço ao proprietário das imagens apresentadas a sua cedência e permissão para as divulgar.

Catálogo da Fábrica de Cerâmica e de Fundição das Devezas, 1910
A encomenda. O artista. A obra. IV Seminário Internacional Luso-Brasileiro. Bragança. 2009




segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Burricos de Atenor

Burricos de Atenor

Em pleno planalto mirandês fica a  aldeia de Atenor, freguesia do concelho de Miranda do Douro.
Situada na passagem da Terra Quente para a Terra Fria, não deixa de ser um exemplo da expressão que tão bem caracteriza esta região: nove meses de Inverno e três de Inferno!
Constituída em Maio de 2001, a AEPGA - Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino - tem como objectivo a preservação de uma raça autóctone - o Burro de Miranda. 


No seu programa de actividades estão contemplados os passeios de burro, uma das vertentes da actividade da associação mais apetecida pelas crianças.
Nestas férias de Verão fomos a Atenor. Era um fim de tarde, seco e quente, em que a energia dos meus netos - o Filipe e a Catarina - era inesgotável. 
Essa energia não era muito evidente nos seus companheiros de passeio: o Atenor e o Telha. Foi necessário cativá-los com uma promessa de lanche.




Albardados os animais, as alforges prontas para qualquer carregamento, os pés bem firmes nos estribos, está tudo a postos para iniciar a caminhada, na companhia dos seus tratadores. 



Por caminhos antigos, trilhados pelos aldeões, chegam a locais onde o  acesso só é possível deste modo.
Zona de ocupação muito antiga como o provam  a presença do homem, quer nos vestígios arqueológicos, quer nas construções mais antigas, como os pombais.


É momento de proporcionar uma refeição "aos nossos amigos" : um lanche breve mas  merecido, após o esforço penoso da caminhada, com uma carga tão pesada, mas com uma disposição alegre e ruidosa.
.

Com grande pena dos cavaleiros, o passeio terminou. Despediram-se dos seus amigos, Atenor e Telha, prometendo uma outra visita nas próximas férias de Verão.

Esta associação deve muito ao empreendedorismo dos seus dirigentes, que mantêm contactos e compromissos com outras entidades, como é o caso da Quinta Pedagógica dos Olivais onde vive o "Buxo", burro mirandês, que ali se encontra para alegrar as crianças que o visitam. Organizam, também, passeios e caminhadas por todo o concelho de Miranda do Douro, mesmo para grupos de estrangeiros - é considerável, dentre outras nacionalidades, o fluxo de turistas holandeses - que os contactam e ali se deslocam.

A título de curiosidade, transcrevo do blog "hoije", a descrição, em mirandês, da visita de estudo que algumas escolas do concelho aí efectuaram, no passado dia 5 de Junho.

"Ls alunos de l radadeiro anho de las scuolas anfantiles de l cunceilho bejitórun la AEPGA an Atanor.
Fui na Associaçon que se juntórun para preparáren la caminada até al lhocal adonde se ancóntran ls burros de raça mirandesa. Fui un passeio guapo puls caminos lhadeados de plantas i flores i cun ua paisaige lhindíssema.
Para atrabessar l regato que passa acerca de l solar de ls burros, fui perciso atrabessar ua antiga puonte de piedra i que fui ua berdadeira abintura pa la maiorie de ls ninos.
Ne l solar tubírun a recibe-los ls moços que trabálhan alhá, boluntariamente ó cumo stagiairos, para les amostráren l solar i dáren ua berdadeira aula subre l burro mirandés. Parabienes a quien tan bien soube recebir ls nuossos ninos".



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Um prato de rendas


Um prato do século XVII, decoração "rendas"

Proponho-me abordar neste texto um tema decorativo de manufactura portuguesa - a faiança de rendas.
As Artes Decorativas, nas suas diversas vertentes, desde sempre se influenciaram mutuamente, quer nas formas, quer nas composições decorativas. Vem isto a propósito da decoração de rendas, que se pode ver e apreciar em algumas peças da nossa faiança do século XVII.
As rendas, oriundas da China ou da Índia (?), entraram no mundo europeu, no século XV, pela mão de Veneza. A Sereníssima, tornou-se num centro afamado de produção textil de rendas. A sua influência vai espalhar-se para outros países, nomeadamente a Itália e Flandres.Os seus artesãos eram contratados para trabalharem nas novas manufacturas que se iam criando nessas regiões.
Arte de uma paciência infinita, ensinada nos conventos, vai ornamentar altares e as elegantes toilettes da nobreza e do clero.
Imagem retirada da Net
Os modelos, primorosamente traçados, chegam ao conhecimento dos artistas através dos álbuns de desenhos que circulam pela Europa. As diversas artes decorativas, naturalmente, colhem aí um tema de inspiração. A sua adaptação enriquece a estética decorativa  das peças onde são aplicadas.
De um modo geral, as peças de " Decoração de Rendas" podem ser datadas da segunda metade do século XVII, . Uma possível fonte de inspiração podem ter sido as golas e punhos rendados dos trajes masculinos e femininos, usados, quer no século XVI, quer no seguinte.


A produção das faianças com decoração de influência oriental teve, numa fase inicial - a primeira metade do séc. XVII - o mercado europeu como destino, nomeadamente, a Alemanha. Inúmeros exemplares existentes nos museus, assim o comprovam. A pintura, muito cuidada, e o esmalte leve e fino denotam que os artesãos conheciam bem as peças originais chinesas, que tomavam como modelo. Mais tarde, com a concorrência da faiança de Delft, a nossa produção torna-se menos cuidada, destinando-se, quase exclusivamente, ao mercado interno.

Com a individualização dos elementos decorativos - as espirais, as contas, os aranhões, as rendas, o desenho miúdo, a faixa barroca -  houve a tendência para os caracterizar por famílias decorativas. Foi o caso da "decoração da família  das rendas, constituída por sequências de meios arcos concêntricos dispostos linearmente e atravessados por feixes de raios terminados em pintas"1.




Prato inteiramente decorado a azul, vivendo da riqueza dos esbatidos. No covo, uma cruz central envolta numa primeira faixa de rendas. Aba com duas cintas semelhantes. 


Exemplar pertencente à Casa-Museu Guerra Junqueiro
Este prato mostra uma decoração de rendas, limitada por uma linha ondulada, que emoldura um conjunto de flores. Cercadura também com o mesmo padrão, em tons de azul cobalto e roxo vinoso. Estas peças, pela qualidade da sua execução e pelo modo como estão conservadas, indiciam uma origem mais aristocrática. O seu uso devia ser mais esporádico e restrito a momentos solenes. 


Diversamente, produziram-se também artefactos utilitários, de pequenas dimensões e com formas mais comuns. Para o conhecimento deste tipo de peças têm contribuído as escavações arqueológicas realizadas um pouco por todo o mundo e que atestam a presença portuguesa nessas zonas (Alemanha, Cabo Verde, Brasil, Caraíbas, Estados Unidos, Canadá).

MNSR



Canudo de farmácia ou boião de botica, destinado a conter produtos farmacêuticos, neste caso Goma Armoníaco. Apresenta uma forma tubular, com uma gola elevada e encurvada, com uma ornamentação de faixas paralelas de rendas. Entre elas a inscrição, numa cartela, G. ARMONI.




Dois pucarinhos com decoração de rendas. Em ambos, o bojo, em calota rebaixada, assenta num frete reentrante e elevado. O colo é alto e cilíndrico. Duas pequenas asas salientes, de perfil auricular.

Por último, dois conjuntos, de grande raridade, formados por quatro azulejos, onde é presente, também, o motivo das rendas.




Agradeço aos seus proprietários a permissão que nos concedeu para a divulgação das suas peças neste post. Bem hajam.


1-Catálogo "Exposição de Faianças Portuguesas de Farmácia", 1972, p.16
Rafael Salinas Calado "Faiança Portuguesa da Casa-Museu Guerra Junqueiro século XVII/XVIII, 2003
Rafael Salinas Calado " Faiança portuguesa 1600-1660", edição MNE, Secretaria de Estado da Cultura e Amsterdams Historisch Museum de Amerterdam,1987
Miguel Cabral de Moncada "Faiança Portuguesa Séc.XVI a Séc.XVIII", 2008
Rita Carole Dedeyan " L'Europe en Dentelles", 1989

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Havemos de ir a Viana

Havemos de ir a Viana


Se o meu sangue não me engana
Como engana a fantasia
Havemos de ir a Viana
Ó meu amor de algum dia

Fado cantado por Amália, com letra de Pedro Homem de Mello e música de Alain Oulmann.

Viana do Castelo abre-se ao oceano, na foz do rio Lima.
Essa situação era favorável à exportação das faianças produzidas na fábrica de Viana, fundada em 1774, na freguesia de Darque, na margem esquerda do Lima. A sua fundação ficou a dever-se à iniciativa de dois negociantes da cidade, João de Araújo Lima e Carlos de Araújo Lemos, em sociedade com João Gaspar do Rego e António Alves Pereira de Lemos.
Para o início dos trabalhos foram, quase seguramente, contratados artesãos, vindos do estrangeiro ou de Lisboa, visto que, à época da instalação da fábrica, não havia em Viana artistas com experiência confirmada, que pudessem orientar essa produção.
Para apoiar esta ideia, baseiam-se alguns estudiosos na circunstância de muitas peças apresentarem a faixa de Rouen e pelo tipo de flores, formando ramos, levemente estilizados, como elemento decorativo. Tal daria veracidade às hipóteses aventadas sobre a origem dos ditos artesãos - estrangeiro ou Lisboa -, neste caso especificamente da Fábrica do Rato.
Atinge o máximo do seu esplendor no seu segundo período de laboração (1790/1820), sob a direcção de António José Gomes Ferreira. A riqueza cromática, a pasta fina e leve, bem como o esmalte lácteo e brilhante, a sua cuidada decoração, tornam a faiança de Viana alvo de apetecida procura pelas elites do Norte. Para além de outras zonas, é, também, objecto de intensa exportação para o Brasil, onde os colonos endinheirados lhe dão o merecido valor.
Com as Invasões Francesas e a entrada no mercado nacional das faianças inglesas, que com ela concorriam, as diversas fases do seu processo produtivo degradam-se: a pasta torna-se mais grosseira e a decoração menos elaborada. Entra, consequentemente, em acentuada decadência e vem a fechar em 1855.

Conjunto de faiança de Viana, antiga e actual
Gosto, de um modo geral, de quase toda a nossa faiança.
Gosto de formar pequenos núcleos por fábricas e este é sobre Viana. É-me especialmente grato, quer  pelo cromatismo em azul, quer pelas formas.





Estes três pratos fizeram parte de um serviço de jantar. Para além da marca V., também a "faixa que aparece na orla de alguns pratos, composta de uma linha ondulada, com pontos grossos colocados alternadamente nas ondulações, intercaladas por uma serrilha do lado de dentro e uma ou mais circunferências concêntricas do lado de fora" 1, é uma das características de algumas peças desta produção.




O V. ou o V sublinhado foram marcas usadas nos segundo e terceiro períodos de laboração.


Conquanto não esteja marcado, o que o colocaria possivelmente, com grande probabilidade de atribuição, no primeiro período de actividade da fábrica (1774/1790), este prato poderá ser imputado à manufactura de Viana, quer pela decoração primorosa e requintada, quer pelo azul " finamente executado e sombreado" ou   pelo esmalte, que se apresenta "branco e  levemente anilado" 2.




Embora não pertença ao conjunto inicialmente mostrado, também este prato fez parte de um serviço de Viana, com policromia em azuis, ocres e manganés.




Há alguns anos, num passeio por terras do Minho, visitei a Fábrica de Louça da Meadela, criada em 1947, com o objectivo de dar continuidade à produção da louça de Viana. Com o nome de "Empresa de Cerâmica Regional Vianense, Lda", ficou conhecida por Fábrica da Meadela. Na sua produção avultam o cromatismo, a delicadeza das pinturas, a execução esmerada, demonstradas nas fotos seguintes.

O motivo que ornamenta as peças, a nau, mostra um velame misto, formado por um conjunto de velas latinas e redondas. A cercadura da aba é muito semelhante à do prato anterior.





Fábrica da Meadela (Imagem retirada da Net)
As peças representadas fizeram parte da "Exposição Regional de Viana", que decorreu em Viana, durante o mês de Agosto de 2011.

1- Luís Augusto de Oliveira " Exposição Retrospectiva de Cerâmica Nacional em Viana do Castelo"
2- Isabel Maria Fernandes " Meninos Gordos Faiança Portuguesa"