sábado, 7 de dezembro de 2013

Fervença: um tesouro escondido

Um tesouro escondido de faiança ...




Num impeto de "fada do lar", arrumando um armário, deparei com este belo peixe, já servido no prato, que considero atribuível a Fervença. Lembro-me de o ter adquirido no Alentejo, por uma razão muito simples e sentimental - desde sempre, em casa dos meus Pais, expostos numa das paredes da sala de jantar, existiram dois pratos que penso, hoje, com alguma segurança, serem de produção da Fábrica de Bandeira: um imponente galo e um prato de garfo e faca, cruzados, intercalando postas de peixe.  Numa das suas viagens de serviço e porque os achou apelativos, meu Pai comprou-os em Borba. Acompanhava-o um colega de serviço, coleccionador experiente que, por graça, o aconselhou a iniciar a sua própria colecção - que se resumiu unicamente a esses ditos pratos. Um dia destes apresento-os ao vosso conhecimento.

Manuel Nunes da Cunha fundou a fábrica no ano de 1824, no lugar de Fervença, em Gaia, junto à cerca do Convento da Serra do Pilar. Seu filho, e continuador na direcção da empresa, Joaquim Nunes da Cunha, viu-se obrigado, mercê da abertura dos novos acessos à Ponte Pênsil  a desactivar esta unidade fabril e a proceder à sua transferência para as instalações da antiga Fábrica do Cavaco, que comprara ao seu proprietário, Barão de Sarmento. Em 1897, sucedeu-lhe seu filho, Luís Nunes da Cunha. Ignora-se a data de cessação de actividade.
A sua produção, de boa qualidade, caracteriza-se por apresentar uma pasta fina e leve com uma ornamentação onde sobressai uma forte policromia. Predominam as cores alegres e vivas, com destaque para os azuis, alaranjados e um verde muito próprio, com um tom mais claro e esbatido, diferente dos verdes de outras fábricas, principalmente Bandeira.

O peixe ( mea culpa, pois  não sei classificá-lo) está ladeado por um talher, a que associo os humildes garfos de ferro frequentes nas casas mais simples do país e com os quais se espetavam os alimentos contidos no prato único, usado para a refeição comum. Entre a decoração do covo e a da cercadura deparam-se-nos conjuntos de quatro pontos, em losango, que rodeiam todo o esquema decorativo. Este mesmo elemento figura, também, num prato  atribuído à produção de Fervença, propriedade do Museu de Etnografia e História do Porto e em depósito no Museu de Soares dos Reis, número de  inventário 649 MEP, representando os Meninos Gordos.





MNSR 649 MEP

A aba alegra a vista, nas suas cores vibrantes: azul, laranja e verde. Execução segura, em pinceladas largas e fortes, desenhadas à mão livre.



Dois pequenos apontamentos vegetalistas  intercalam-se entre a aba e os talheres.



Para finalizar e parafraseando Fernando Pessa com a sua expressão tão particular "E esta, hem?", um pequeno prato que, pelas cores e decoração, poderá também ser imputado à produção de Fervença.
Qual é a vossa opinião?









4 comentários:

  1. Cara If

    Bandeira e Fervença são sempre uma eterna confusão. No entanto, a decoração da aba é semelhante aos motivos, que Isabel Fernandes considerou como Fervença no livro os Meninos Gordos e esta senhora fez um trabalho estupendo de sistematização das decorações destes pratos, o que nos levas a confiar na sua opinião.

    Enfim, seja lá o que for, o prato é lindo.

    O J. Saraiva comentador habitual do blog da Maria Isabel, uma vez deu uma explicação muito engraçada acerca da simbologia cristã destes pratos com os peixes, que não resisto aqui a transcrever "Quanto ao prato de peixe às postas, esse motivo já é pintado desde o Séc. XIX, onde está simbolizado o que se deseja ter em nossa casa, o peixe, o desejo de alimento a todas a refeições, as pintas azuis simbolizam o dinheiro (também o dinheiro que veio na boca do peixe quando foi pescado por indicação de Jesus para haver dinheiro para a festa), dinheiro também associado ao trabalho, para que nunca falte nessa casa (trabalho associado às redes de pesca que existem pintadas em alguns desses motivos), alimento, trabalho e o dinheiro a base da sustentabilidade das famílias, todos desejam e para o firmar, nada como possuir esses símbolos na nossa casa"

    Um abraço e parabéns pelo post

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    1. Luís

      Obrigada pelo seu comentário tão oportuno e elucidativo.
      Alimento, trabalho, dinheiro e também alegria por poder fruir do cromatismo e simplicidade da decoração de um prato tão simples. O que mais podemos desejar?
      Um abraço
      if

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  2. Cara If parabéns mais um belo post. Os pratos são lindos. Depois de ter apreciado a coleção do Museu Soares dos Reis fiquei " algo desgostosa" quanto à faiança de Fervença (?). ..achei muito mais eloquente a mostra da fábrica Bandeira e Santo António do Vale da Piedade.
    No sábado em Estremoz apreciei um grande prato que lamentavelmente não registei a foto de esmalte brilhante, belo, com este motivo mas o peixe cortado às postas que o vendedor dizia ser Bandeira, no tardoz tinha a marca MA a cobalto.
    Acredito que os seus exemplares possam ser Fervença do início de produção, atendendo ao peixe se apresentar inteiro, e à tonalidade de esmalte mais baça, mas também não descuido Darque ou mesmo Cavaco (?) sobretudo o último prato pelos filetes junto do rebordo. Uma coisa é certa, ambos são produção do norte e únicos.
    Bjo
    Isa

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    1. Cara Isa
      Muito obrigada pelas suas palavras gentis. Os pratos são bonitos e, de vez em quando, como foi o meu caso, estavam tão bem guardados que lhe tinha perdido o rasto. Têm cores muito bonitas e que apontam para a produção de Fervença, nomeadamente o verde mais desmaiado e o laranja. No entanto, dada a proximidade das fábricas e o intercâmbio dos artesãos, é natural que desenhos e cores possam ter sido usadas, também, na produção de outras oficinas.
      Um abraço
      if

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