domingo, 25 de maio de 2014

Faiança de Miragaia (?)

Faiança de Miragaia (?)




Noblesse oblige! 
Os excelentes textos publicados sobre esta faiança pela Maria Andrade e pelo Luís Montalvão tiveram o efeito de despertar em mim o  interesse por esta fábrica e pela sua produção.  Quer em leilões, quer em feiras de velharias e antiguidades, o meu olhar, agora mais direccionado, fez-me cobiçar algumas peças. Foi o caso desta terrina e deste galheteiro que, pela pasta mais fina, pelo azul cobalto, pelo esmalte brilhante, poderão ser  atribuídos (?) a Miragaia.
João da Rocha, natural de Sabadim, Arcos de Valdevez, regressado do Brasil, onde enriquecera, fundou e construiu a sua fábrica em terrenos anexos à Igreja de Miragaia. A sua laboração iniciou-se em 1775. Para tal, "contratou três oficiais que vieram do Rio de Janeiro, dois da fábrica do Rato e quatro da de Massarelos, todos eles portugueses e por consentimento dos proprietários das respectivas fábricas"1. Após a sua morte, em 1779, o seu sobrinho e herdeiro, João da Rocha Soares, vai tomar a direcção da fábrica, depois de regressar do Brasil. Em 1827 (2) ou 1830 (3), e para fazer face à crescente concorrência da porcelana inglesa, introduziu-se a produção de louça em "formas, imitando-se os respectivos tipos estrangeiros, sobretudo os ingleses"4. Segundo Vasco Valente, corresponde ao segundo período de laboração da fábrica, compreendido entre 1827 e 1840. Passa, nesta fase, a produzir "faiança tipo inglês, esmalte estanífero branco, pintura monocroma azul, sobre decalque obtido pelo processo de gravura em cobre"5.

Fábrica de Louça de Miragaia, pág. 216

É a este período que correspondem as marcas MP ou Miragaia/Porto, por vezes envolvidas em ramos de louro.


Esta terrina moldada, de forma oval, com o bojo arredondado e colo baixo, apresenta alguns elementos que indiciam uma possível (?) produção de Miragaia. A decoração pintada e estampilhada, completada com alguns elementos de execução manual, revela a influência oriental nas construções, uma delas coberta com cúpula, rodeada por vegetação exuberante. A paisagem está inserida numa cartela, que se destaca pela cor forte do azul que a envolve. As diferentes nuances dos azuis, permitem uma noção de perspectiva e profundidade. Limita-a, na parte inferior, uma palma .







A tampa mostra a mesma composição decorativa. Remata com uma pega em forma de flor, inserida num conjunto de pétalas relevadas. Os azuis degradés enriquecem a composição decorativa.



Um pormenor delicioso nas asas: dois pássaros, afrontados, talvez simbolizando um casal de noivos, porquanto era usual, em algumas regiões,  oferecer peças de faiança como prenda de noivado.




Neste pequeno galheteiro, com galhetas desiguais, embora de ornamentação idêntica, sobressaem as flores que caracterizam e apontam, com grande probabilidade, para o segundo período da produção de Miragaia, balizado, como se disse, entre 1822-1850. Apesar da dissonância das galhetas, o cômputo geral agrada pela elegância, pela dimensão e pelas cores.
Constituído por base com duas partes circulares, onde encaixam as galhetas, de base arredondada, estreitecendo e terminando num elegante bico. A base apresenta, ainda, uma pequena caldeira, com tampa canelada. A pega, de forma auricular, sustenta toda esta estrutura. A decoração de flores brancas, num fundo azul, é semelhante à de muitas peças assacadas a esta fábrica.


Adquirido num leilão, onde parecia perdido e a pedir que lhe dessem uma oportunidade de brilhar e de fazer valer os seus direitos de peça "genuína miragaiense" (?), quando chegou e enfrentou os galheteiros congéneres  não se coibiu de gritar bem alto, com o seu belo sotaque tripeiro, a sua genealogia: sou de Miragaia (?)! Sou de Miragaia (?)! Nasci do trabalho conjunto das mãos capazes do oleiro e das mãos prodigiosas do pintor, que me deram esta forma delicada e estas cores, que lembram o azul do mar, em dias de calmaria.




1/3/4 - Luís Augusto de Oliveira, " Exposição Restropectiva da Cerâmica Nacional em Viana do Castelo", Porto, 1920, pág: 127 e 128.
2/5 - Vasco Valente "Cerâmica Artística Portuense dos séculos XVIII e XIX, pág. 72.
Fábrica de Louça de Miragaia, MNSR, Porto, 2008.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A Avenida da Liberdade

      
Fui "fazer ... a Avenida"

Esta expressão teve origem num português acabado de chegar de Paris. Apareceu no Chiado, "trazendo no fato um pouco do aroma das acacias do Bois de Boulogne, nas maneiras um ar de blasé de clubman parisiense, na linguagem uns gallicismos terriveis que faziam desesperar o indigena, e um tanto aborrecido com esta boa terra que não sabia explorar o seu belo Tejo e o seu magnifico sol, bocejando em procura de qualquer cousa que lhe suavisasse as maguas pela terra que deixara, exclamava para o grupo de amigos que o rodeavam:
Rapazes, vamos fazer ... a Avenida. E descendo o Chiado, arrastando consigo uns mais corajosos que se arriscavam a sair da porta do Baltresqui ou do Magalhães, ele ia todas as tardes ... fazer a Avenida."1


Imagem retirada da internet

Era este um dos acontecimentos maiores da sociedade de Lisboa no raiar do século XX. Todos, damas e cavalheiros, se passeavam na Avenida, como era de bom tom nessa  época. Circulando calmamente por entre as frondosas árvores, comentavam os últimos gritos da moda vinda de Paris ou os discursos proferidos na Câmara dos Deputados.
O velho Passeio Público já não satisfazia as necessidades dos lisboetas, no que dizia respeito  às diversões. O projecto da Avenida veio substitui-lo. A sua concretização é entregue a Ressano Garcia que, tendo estudado em Paris, se vai inspirar nas concepções urbano-paisagísticas de  Georges-Eugène Haussmann. Foi este que levou  a cabo a renovação da capital francesa: parques, praças  e avenidas arborizadas rasgam-se e integram-se na malha urbana. A sua acessibilidade acompanha o rápido sucesso que os novos "quartiers" alcançaram.
As antigas concepções do passeio mundano, murado e reservado para as elites, são esquecidas.

"Um tarde de domingo na Avenida"
Ilustração Portuguesa, nº34, 27 de Junho de 1904


Também eu fui... fazer a Avenida. A Feira de Velharias da Avenida. Desta vez em pleno século XXI, mas com imagens e objectos  pertencentes ao passado.




Embora a feira se distribuísse unicamente pelo lado direito de quem desce - compare-se, à esquerda, com o lado oposto - era grande e tinha muitos expositores. De tudo, um pouco se podia apreciar. 


Um belo e bom conjunto de molduras, das quais sobressai uma,  Arte Nova, com os seus elegantes enrolamentos exibindo, ainda, a fotografia de um senhor.

Um rapaz ainda novo, coleccionador de brinquedos antigos, mostrava garbosos soldadinhos de chumbo, dispostos em posição de combate. Mais abaixo uma outra banca com brinquedos do meu tempo.






Num outro vendedor, algumas faianças portuguesas, das quais ressaltava esta, pela sua elegância e cor.
Um outro mundo, antigo, que vive de memórias, acarinhadas por alguns, felizmente.



O matraquear das máquinas faz coro com as notas da concertina e o ritmo do sapateado.



Para terminar, um presente para um feliz (desde a véspera já não angustiado) e orgulhoso adepto do Belenenses - o meu marido.




Moura Cabral, "Lisboa: Crónica Elegante", 1886



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Faiança com decoração de perdizes

Faiança alada. Gaia ou Coimbra (?)


A nossa produção cerâmica é muitíssimo rica, pela diversidade que nos oferece. Uma, de fabrico mais fino, destinada às camadas mais abastadas e conhecedoras, as quais, cientes do papel que desempenhavam na sociedade oitocentista, eram particularmente selectivas nas suas encomendas. Outra, de produção artesanal, de pasta mais fraca, mas que atrai pelo colorido e ingenuidade da decoração, destinada principalmente às camadas mais populares. É o caso das peças que se apresentam e que têm em comum a representação de pequenas aves, quer na cercadura, envolvendo um motivo decorativo principal, quer como ornamentação única na peça.


Estas peças, de uso quotidiano, usualmente conhecidas como "decoração de perdizes" e com um grau de anonimato implícito, não são de fácil  atribuição a uma determinada fábrica. Gaia ou Coimbra? Fica a incerteza.
Sabido é que, após as Invasões Francesas, principalmente a partir da década de trinta do século XIX, houve uma evolução no processo de fabrico, entrando-se numa fase de quase plena industrialização. As novas unidades, criadas em Lisboa, Coimbra e Gaia, demonstram essa nova tendência. Abandonam as práticas mais ancestrais, adaptando-se às novidades de produção, nomeadamente às modernas técnicas de estampagem.
Representativas de um gosto muito específico e singular, são hoje apreciadas  e procuradas, figurando em colecções particulares e museológicas.




Esta pequena terrina encanta pelas dimensões - 22 cm de comprimento por 17 cm de altura - e pelo tema decorativo: as armas de Portugal. Os filetes azuis, quer da tampa, quer da base, conferem-lhe graça e leveza. A pega da tampa, em forma de flor, e as asas do corpo da terrina mostram um rosa marmoreado, cor que conjuga na perfeição com os tons "reais" do tema decorativo principal. Bastante bem conservada para o seu tempo de vida, encontrei um exemplar análogo no acervo do grande coleccionador que foi António Capucho.

António Capucho. Retrato do homem através da colecção, pág: 139



Pequeno prato de serviço, também com as armas reais, conquanto as flores apresentem uma cor mais forte, em tom de bordeaux. Estes pratos de serviço são mais usuais, pelo que existem em maior quantidade, apenas variando a cor das flores.






A representação das aves, quer como motivo central, quer servindo de suporte decorativo a outras decorações, desde sempre me fascinou. Como ornamentação principal, muito poucos exemplares a exibem. Encontrei, tão só, dois pratos grandes e quatro mais pequenos, de um serviço. Nos primeiros, porque a superfície é maior, vários pássaros esvoaçam pelo espaço disponível. Nos segundos, de menores dimensões, as aves, isoladas, voam, agrupadas num pequeno bando.






Colocados em conjunto com outras faianças, formam um conjunto harmonioso.





Associadas, aqui, a um motivo diferente, "as perdizes", acompanham um emplumado galo, altaneiro no seu porte.




Para finalizar, guardei duas outras imagens, gentilmente cedidas pela Maria Andrade, com a mesma decoração, mas em tipologias diferentes. A chávena faz parte do acervo do Museu de Alberto Sampaio e a jarra de altar pertence à sua colecção particular. O meu bem haja.





Imagem de um jarro pertencente ao acervo do Museu dos Biscainhos com a decoração das perdizes, envolvendo as Armas Reais. 

Luísa Arruda, Paulo Henriques, Alexandre Pais, João Pedro Monteiro,"António Capucho. Retrato do homem através da colecção", Civilização Editora, 2004.