quinta-feira, 21 de julho de 2016

Bandeira e Fervença! Who knows...




Bandeira? Fervença? Qual das fábricas! Atribuir a produção das faianças às respectivas fábricas  torna-se uma tarefa ingrata. Certezas são poucas. Incertezas muitas mais.
Um pequeno conjunto com um elemento comum - o galo - mas em temáticas diferenciadas. Uns referenciam a força e a predominância masculinas, numa clara alusão à supremacia do homem sobre a mulher. Ideias vigentes na sociedade europeia desde tempos remotos, que reverenciavam a  superioridade masculina face à fragilidade feminina. Seres superiores, quer física, quer intelectualmente, à mulher estava reservada  a dedicação à família, a orientação/organização da casa e a representar condignamente o papel social que lhe era atribuído.







Este é, com forte probabilidade, um prato Bandeira. Esta fábrica produziu essencialmente modelos vulgares, de uso doméstico embora de riquíssima ornamentação. A sua decoração caracteriza-se por uma cercadura cheia, com folhas de carvalho bem recortadas  e flores, numa composição cheia de cor e alegria. Usavam a estampilha, complementada por elementos de pincel, que completavam a cena interior do covo. Neste caso, aludindo a um provérbio popular "onde há galo não canta a galinha", numa clara referência à superioridade masculina, face à delicadeza feminina. Os provérbios, carregados de sabedoria popular, dizem, em parcas palavras, verdades evidentes (!!!).







Um prato de grandes dimensões, diferindo do anterior por apresentar uma guardadora de aves, função que normalmente competia às jovens, por ser um trabalho mais leve e de menor exigência. A mesma estampilha do anterior, embora simulando uma cena campestre. Uma árvore dá sombra, enquanto o casal de galináceos se comporta em conformidade com as exigências sociais: superioridade e submissão. Menos rico em colorido, apresenta uma cercadura leve, de pequenos malmequeres azuis. Atribuição (?) ... aceitam-se alvitres. Gaia?







Este prato, com possibilidade de ser atribuível a Fervença, apresenta uma cercadura com conjuntos de pétalas separadas por uma traço contínuo, ondulante, no verde esbatido desta produção. No covo, em destaque central, uma pequeno galo, impante e orgulhoso, pela função que lhe foi cometida: guardião da chave que une os dois corações. Ladeiam-no  conjuntos de pétalas e folhas e rabiscos finos, traçados a ponta de pincel. Diz-nos Luiz A. de Oliveira que Fervença "fabricou louça de faiança muito bem laborada, proporcionando todos os materiais de primeira qualidade para a manufactura"1.







 Aplica-se uma quadra popular, expressando em palavras, o sentir do autor da composição.

Aqui tens meu coração
E a chabe pro abrir
Num tenho mais que te dar
Nem tu mais que me pedir




1- Luiz A. de Oliveira "Exposição Retrospectiva de Cerâmica Nacional em Viana do Castelo", Porto, 1920, Pág.135.









sábado, 28 de maio de 2016

Vilas operárias II

 
 
Novamente as vilas operárias. Este gosto por conhecer Lisboa tornou-se em mais um dos meus interesses. Quem sabe, tanta dispersão, a que resultados levará? Mas, um pouco de loucura, faz bem à alma e enriquece a vida.  
Há poucos dias, numa volta por Campolide, freguesia onde vivi até casar, deparei-me com algumas vilas operárias. Uma, que já tinha podido "ver em tempos", numa visita de estudo organizada pela CMLisboa, com o objectivo de contextualizar urbanisticamente o Aqueduto das Águas Livres. Nos seus tempos mais áureos a Vila Romão da Silva, assinalada por uma inscrição algo escondida no pilar do portão, anunciar-se-ia por uma placa cerâmica ou de outro modo mais digno. Hoje, a recordação fica-se por letras pintadas manualmente. São tão dignas como a mais elaborada das pinturas. 


 
 
Construída nas traseiras daquele que foi o Palácio Laguares, edifício do século XVIII, ocupado durante muitos anos pela escola primária nº13, actualmente aí funciona a Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul.
Com o incremento da industrialização tornou-se premente a necessidade de construir casas, económicas e salubres, para o operariado, parte integrante da nova realidade social que se forma nos finais do século XIX e se sedimenta nos primórdios do século XX. Necessitados de casas com melhores condições de habitabilidade, e dada a escassez de terrenos bem localizados, que fossem próximos dos locais de trabalho, e permitissem uma construção económica, assistimos ao aproveitamento de espaços nas traseiras dos prédios, muitos deles destinados à pequena burguesia.  Na Rua Professor Sousa da Câmara temos dois exemplos. A Vila Romão da Silva, com um amplo pátio, circundado por habitações de rés do chão e primeiro andar, onde um habitante solitário goza uma réstia de Sol e
 
 
 
 
 




 
 

a Vila Raúl com entrada por um portão gradeado, entre dois edifícios que dão directamente para a rua. Característicos das primeiras décadas do século XX, um deles ainda habitado, outro já com o destino traçado - o abate. Casas que ladeiam uma rua de acesso, porta e janela, num convívio quase forçado, entre os seus ocupantes




 

 
 
 
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A condessa do Paço do Lumiar, em 1889, vendeu terrenos que detinha na zona de Campolide, para a construção do Bairro Novo de Campolide. As primeiras ruas delineadas e posteriormente executadas, designadas inicialmente pelos números 1 a 4, deram, posteriormente, origem às ruas Conde das Antas, General Taborda, Victor Bastos e D. Carlos de Mascarenhas. Para além de edifícios mais elaborados e com projecto de autor vamos, mais uma vez, encontrar as já "famosas" vilas operárias.
Na Calçada dos Mestres, rua que deve o seu nome aos mestres de ofícios que, no século XVIII, vieram trabalhar para o aqueduto das Águas Livres, também deparamos com a Vila Emília, com acesso por um portão de ferro e um arco, por debaixo do prédio, entretanto recuperado.
 
 






Encontrei o portão fechado. Mas o engenho e uma máquina "mignone" permitiram uma fotografia. Mais uma vez se nos depara uma rua estreita, com leve inclinação para o centro, talvez com o intuito de permitir que as águas escorressem, ladeada por casas baixas, aparentemente bem conservadas. Habitação menos remediada entre outras mais remediadas. Os operários ocupavam-nas, embora hoje os seus habitantes sejam outros, pois os filhos dos primitivos ocupantes fugiram para casas mais modernas, nos dormitórios adjacentes a Lisboa.
 
 

 
 

 
 
 
Na Rua Soares dos Reis, perpendicular  à Rua General Taborda, a Villa Motta, com acesso por um arco sob o prédio, portão gradeado, aberto, convidando a entrar. Não me fiz rogada. Sorrateiramente fui andando e deparei-me com uma senhora, gozando o sol de uma tarde amena. Orgulhosamente, informou-me que tinha nascido no nº 2, a casa por trás de si. Rua com calçada à portuguesa, de casa bem tratadas, algumas exibindo, com donaire, sinais exteriores de riqueza.
Continuando para a rua General Taborda a nossa vista encontra-se com a Villa Borba, com acesso através de um arco que passa por baixo do prédio. O mesmo esquema de edificação - rua bordejada por correnteza de casas, com três pisos.
 
 







Estas vilas, expressamente destinadas a famílias operárias, tinham regras bem definidas para a sua construção. O Regulamento Camarário de 1930 definia-as como "edificações destinadas a uma ou mais moradias construídas em recintos que tenham comunicação, quer directa, quer indirecta, com a via pública, por meio de serventia"1.


Ainda deambulando pela Rua Professor Sousa da Câmara,  deparei-me com a fachada azulejada de um palacete, encimado por balaustrada e peças de faiança: jarrões e pinhas.
 
 




 


 
 

Mas as surpresas ainda não tinham findado. Não muito ao  meu jeito, por regra sou tímida, entrei pelo portão do dito palacete. Devia ter sido a entrada de honra, mas agora está reduzido a  pequenas oficinas, uma delas de restauro de móveis. Qual não é o meu espanto quando avisto azulejos de figura avulsa, recolocados ao acaso, nos muros e paredes. No meio deles, sem qualquer relação, um motivo que nunca tinha visto - jarras de flores. Que vontade de os trazer comigo. Que belíssimo painel formariam, depois de devidamente restaurados. C'est la vie! Fica o prazer de os ter encontrado e de os dar a conhecer.
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 

Nuno Teotónio Pereira "Pátios e vilas de Lisboa, 1870 - 1930:a promoção privada do alojamento operário". Análise Social, vol.XXIX, 1994, pág.512.













segunda-feira, 2 de maio de 2016

Passeio Avó e Neta ou prospecção de fragmentos de faiança

 
Num sábado de Abril, manhã cedo, mas já com o movimento de uma cidade muito apreciada pelos turistas, descemos a Rua Augusta, numa cumplicidade de avó e neta, dispostas a viver um programa dedicado às jovens.  Como pano de fundo o arco da Rua Augusta e a estátua equestre de D. José. A Catarina em pose . O objectivo era passear sem rumo, em passos (in)definidos, que nos levassem a nenhum lugar em especial. Mas, quase por um não acaso fomos ter à ...

 


onde um letreiro nos chamou a atenção: "Rainha Dona Amélia". O que fazia o nome da última rainha de Portugal num lugar, tão afastado do seu  tempo. Intrigadas pela curiosidade, entrámos e ...  



 

uma bela imagem nos marcou de imediato: a figura da rainha D. Amélia sobressaía numa das paredes do fundo. Se era uma confeitaria, alguma relação teria que haver com bolos. Gulosamente curiosas, com uma ideia a tomar forma, entrámos e ...



 
 
lá estavam, uniformemente dispostas, as Donas Amélias! O nosso apurado paladar saboreou, em antecipação, as iguarias expostas.
 
 

 
 
Depois de instaladas, conhecemos a história destas deliciosas queijadas.  São vendidas na Pastelaria "O Forno", que se situa em Angra do Heroísmo, Ilha Terceira.  Conta a tradição que "certo dia, D. Amélia, a Rainha, veio à ilha. As gentes da Terceira ofertaram-lhe os bolos melhores da rondura do seu horizonte. E em honra da rainha se chamam agora, Donas Amélias"1.
No ano de 1901, o casal régio deslocou-se em visita oficial aos arquipélagos da Madeira e Açores. Nos dias 2,3 e 4 de Julho do referido ano, visitaram a ilha Terceira. Terá sido num dos vários eventos do apertado programa a cumprir, que as diligentes Senhoras terceirenses terão apresentado as queijadas que, por terem sido elogiadas pela Rainha, dela receberam o nome. Em boa hora as provámos, pois são deliciosas.
 
 
Programa seguido pela família real na ilha Terceira. Para as diversas cerimónias vêm indicados os tipos de traje a usar. Curiosos são os pormenores detalhados, com a letra da rainha D.Amélia, para as diferentes toiletes a vestir de acordo com as diversas ocasiões. São mencionadas, também, as casas de modas ou as modistas que podiam ser "Fornecedoras da Casa Real", título muito cobiçado pelos proprietários, que gostavam de os exibir nas tabuletas identificativas das suas lojas, bem como nos cabeçalhos das facturas.
 
 
Dali partidas, rumámos ao Terreiro do Paço. Atrevida, tirou uma selfie. Serve de recordação, argumentava ela, na sabedoria e irreverência dos seus onze anos. Por que será que as avós se deixam convencer?
 
 
 
 
 
A mesma elegância! A mesma delicadeza! A mesma postura! A diferença está no sorriso.
 

 


A maré baixa permitiu-nos procurar, por entre as conchas e seixos, pequenos fragmentos de faiança. Uma amostra dos que encontrámos...


 
 
Entre todos o mais precioso (?) pela textura, pelo esmalte, pelo colorido bicromático: azul cobalto e manganés. Um pequeno fragmento de uma  possível peça malegueira (?), de arestas bem arredondadas, pelo roçar nas areias resultante do movimento das marés.





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Como mera hipótese, mostra-se um pequeno exemplar de faiança malegueira, cujos tons se aproximam dos exibidos pelo pequeno fragmento.



 
 
 
1 - Folheto publicitário "Bolos D. Amélia" da Pastelaria "O Forno". 
 
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 19 de abril de 2016

A menina dança?



Mais um aniversário. É lógico que se comemore a data com um evento que perdure para a memória dos tempos. Já três anos se passaram desde que iniciei esta aventura cibernética. Nem sempre a inspiração vem, nem sempre a disposição está presente, mas o prazer de partilhar ideias e temas é gratificante. Assim,  continuaremos ...
Vamos celebrar com um baile. Não um baile de debutantes, mas um bailarico popular, em que a Menina - aquela que os nossos olhos admiram no prato de Faiança Ratinha - possa mostrar a frescura da sua tez trigueira e a  agilidade dos seus passos de dança.
Já no seu traje de festa, aprecia  o ramo de flores que o seu conversado lhe ofertou. Mais logo, nas voltas rápidas do vira, de novo lhe agradecerá as suas atenções. 
Num tom monocromático de manganés, é uma figura algo ingénua, mas um tanto audaciosa, pois o espartilho que a molda, faz destacar a sua cintura de vespa e o seu busto elegante. Traja uma saia rodada,  assente numa crinolina (?) que espalha o tecido em seu redor. Podemos imaginar um tafetá axadrezado, ornamentado com pequenos círculos e cruzes nas intercepções das linhas. O corpete de mangas compridas, bem justo e cintado, mostra um decote rendado.
O rosto, de perfil, apresenta um ar jovem e algo atrevido. Na cabeça, um chapéu de copa alta, confere-lhe um ar prazenteiro.
É uma figura marcante, que ocupa toda a superfície, destacando-se no envolvimento das ramagens.
Esta peça apresenta uma pasta grosseira, usada na produção das "faianças mais ordinárias, a que se dá o nome de ratinhas"1.A louça assim classificada, ordinária e de pasta mais grosseira, destinava-se a uma camada social mais desfavorecida economicamente, mas que não deixava de apreciar - e reconhecemos-lhe esse direito - uma decoração alegre e agradável aos olhos.
 
 


 
A senhora que se reproduz vem publicada na "Arte Portuguesa", sob direcção de  João Barreira, pág.198 e poderá ter servido de inspiração para a imagem da peça de faiança ratinha com que se inicia este post. O mesmo estilo de traje, de chapéu, de decote rendado. Diferencia-se por segurar nas mãos ramos de flores. Está datada dos finais do século XVIII (?). O artesão que a delineou, revela  um traço mais definido e seguro que se não observa no seu seguidor. Podemos colocar a hipótese de ter havido acesso a gravuras de álbuns que circulassem nas oficinas, pois  o traje e acessórios que as senhoras envergam não se coadunam temporalmente com os modelos de finais do século XIX. Essa discrepância é mais notória em relação aos chapéus. Atente-se na imagem seguinte:


François Boucher "Histoire du costume en Occident de l'Antiquité a nos jours"
Paris, Flammarion, 1965, págs: 256 e 280
   
 
 
Se procedermos a uma análise dos pormenores, nomeadamente dos chapéus, estes remetem-nos para uma época anterior (meados do século XVII). Usavam-se chapéus de copa alta, para ambos os sexos, embora os femininos, por garridice, fossem mais ornamentados. É possível, pois, que o pintor/ artesão, não tendo uma imagem contemporânea da época da produção da peça, tenha recorrido a uma anterior. O efeito decorativo primou pela originalidade e não desmereceu o pretendido. Pelo contrário, conferiu-lhe um toque exótico e assaz original.
 
 
Imaginemos, agora, um baile mais formal, num qualquer palácio da cidade do Mondego. A iluminação brilha e  reflecte-se nos espelhos laterais, conferindo ao salão uma miríade de cores, tão belos e ricos são os trajes das damas que valsam. Aqui as regras de etiqueta são mais rigorosas. Exigem trajes elegantes, adequados à solenidade do evento.
Algumas questões se impõem. Será que, aos humildes artistas ratinhos, foi dado observar os elegantes que assistiram ao baile? Se assim não foi, como conseguiram reproduzir tão fielmente os trajes? As respostas ficaram perdidas no tempo, mas a realidade, tão fidedignamente desenhada, essa chegou até nós, permitindo-nos ajuizar da mestria dos artesãos, que com tanta certeza as elaboraram. É a riqueza, embelezada pela pobreza. Pobres nos materiais, ricos na policromia e na composição criativa. 
 




 
 

A senhora, galante no seu traje, de saia presa por faixa dupla, com passamanaria franjada,deixando entrever o tornozelo, fino e elegante. O corpete, decotado, com galão em tons de azul. Da mesma cor, a sobressaia, apanhada na parte de trás, permitindo-lhe liberdade para os movimentos mais ágeis da dança. Na cabeça um chapéu, com duas fitas que caem pelas costas. De novo se destaca a irreverência ratinha - o ramo florido que rodeia a figura central - chamando a atenção para o colorido e a graça da cercadura envolvente.

 
 
 
O gentleman, qual Carlos da Maia, acompanha a senhora até ao salão de baile onde, diligentemente a vê apontar no seu carnet, os nomes dos cavalheiros que com ela vão dançar. As regras são precisas. A etiqueta assim o exige. 
O tempo passa. As luzes diminuem de intensidade. As velas  apagam-se. O baile terminou.
 
 
1- Charles Lepierre "Estudo Chimico e Techonologico sobre a Ceramica Portugueza Moderna". Lisboa, Imprensa Nacional, 1899, pág.119.
François Boucher "Histoire du Costume en Occident de l'Antiquité a nos jours". Paris, Flammarion, 1965.
 

 
 


quinta-feira, 17 de março de 2016

Pias de água benta

 
 
 
 
 
Em tempos mais recuados, nas missas dominicais, era usual o gesto de tocar com os dedos na água benta que as pequenas pias, como as acima representadas, continham. Estas, maiores ou menores, de diferentes materiais, encontravam-se à entrada das naves paroquiais. Tal gesto, tinha como finalidade  concretizar o sinal da cruz, destinado a purificar o corpo e a mente, recordando-nos a santidade do local onde entrávamos. Pretendiam, também, recordar as práticas da primitiva igreja cristã  que, na tradição de outras religiões, que a cristã conservou, tinham, à entrada dos seus templos, grandes recipientes com água, para os sacerdotes e os fiéis se purificarem, antes de iniciarem ou participarem nos ritos religiosos.
 
As duas pias de água benta representadas, senhoras de muita graciosidade e beleza, quer nas formas, quer no relevado e na cor, lembram aos homens o fim para que foram executadas - conter água benzida pelo sacerdote, para que todos pudessem, simbolicamente, através do gesto de reviver o sinal da cruz, entrar de alma pura para assistir ao ofício divino.
Nos seus escassos 22 cm de altura, mostram a grandeza das mãos rudes que as criaram. Ambas aludem ao martírio de Cristo - a Crucificação.  Ambas mostram caldeiras gomadas, em forma de cúpula invertida, e espaldares relevados e recortados. Vivem do contraste do azul profundo, com o branco etéreo do esmalte com que foram cobertas.
 

In Artur de Sandão "Faiança Portuguesa séculos
XVIII/XIX", vol.1, pág. 55
 

Atribuir a sua  produção a um determinado centro é difícil e não se pode fazer de ânimo leve. No entanto, por comparação com exemplares publicados em obras de referência, como é o caso de Artur de Sandão,  talvez não seja um grande atrevimento, podermos apontar indícios ao centro coimbrão, famoso pela produção de faiança. O autor situa o seu fabrico em Coimbra. Formato, tamanho, policromia serão, quiçá, elementos que se podem ter em conta para localizar a sua produção nas olarias conimbricenses, com provável datação em finais do século XVIII (???).
A produção de faiança nas olarias de Lisboa, de finais do século XVII e primórdios do XVIII, conhecida pela designação de Monte Sinai, atribuída por José Queiroz e que entrou no léxico de quem se interessa pelo estudo da faiança portuguesa,  influenciou grandemente as peças  produzidas em Coimbra.
 
 
In "Faiança Portuguesa séc. XVI a XVIII", pág.133
Miguel Cabral de Moncada 
 
 
 Três pias de água benta representando Nossa Senhora com o Menino, Santo António com o Menino e a Cruz alusiva ao martírio de Cristo, encimando o espaldar um anjo barroco. É patente a influência da talha portuguesa nas colunas que ladeiam as composições. Igualmente enriquecidas pelo contraste do branco leitoso com o azul profundo, realçado pelo esbatido cromático dos azuis.
Num pequeno artigo escrito por Matos Sequeira na Revista da Feira da Ladra, no ano de 1935 acerca do espólio cerâmico encontrado num vazadouro do antigo mosteiro do Santo Crucifixo das Capuchinhas da Bretanha, carinhosamente conhecido por Convento das Francesinhas, numa clara alusão à origem das suas fundadoras, faz-se referência ao aparecimento de fragmentos de pias de água benta.
Este convento foi fundado por D. Maria Francisca Isabel de Saboia, princesa da casa real francesa, que casou com D. Afonso VI. Com ela vieram quatro freiras que iriam fundar a casa conventual. Demolido o  edifício em 1911, os terrenos por ele ocupados serviram de base para a construção de uma réplica de um bairro antigo de Lisboa, integrado nas festas da cidade, no ano de 1935. Quando se procedia ao arranjo do terreno, foi descoberto um subterrâneo cheio de "cacos", demonstrativos da vida quotidiana das freiras que ali tinham vivido. Entre as muitas peças encontradas havia fragmentos  de pias de água benta, tanto das olarias alfacinhas, como da faiança de Brioso.
 
 
 


 
 
 
 


Uma das invocações religiosas mais veneradas e queridas em Portugal é a de N. Srª. da Conceição, como podemos concluir pelas que  imagens que seguem. Duas pias de água benta completas, com caldeira e espaldar, conservadas intactas, apesar da sua fragilidade. Atribuídas à produção de Brioso, possui, uma delas a inscrição N.S. 
 Ambas apresentam uma policromia em tons de azul cobalto e roxo vinoso. Os espaldares mostram um enquadramento relevado, estando as imagens inscritas em altares, com colunas vazadas e espiraladas. A primeira está encimada por um querubim e a segunda possui um frontão com a a inscrição IHS.


 
 
 
 
"Feira da Ladra", Revista Mensal Ilustrada, Tomo sétimo, 1935.
Miguel Cabral de Mondaca, "Faiança Portuguesa séc. XVI a XVIII", 2009.
José Queirós " Cerâmica Portuguesa e Outros Estudos", Editorial Presença, 1987.
Alexandre Pais, António Pacheco, João Coroado " Cerâmica de Coimbra", 2007. 

 





 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Azulejos setecentistas na Igreja de Santo António do Estoril

 


 
Painel formado por azulejos de figura avulsa - flores - enquadrados numa cercadura com
elementos em flor-de-lis, rematando com azulejos marmoreados.

Igreja de Santo António do Estoril
Imagem retirada da internet
 
 
 
 
 
Numa tarde de Outono, daquelas a ameaçar chuva, passeando pela marginal do Estoril, entrei no adro que antecede a Igreja de Santo António do Estoril. Observando com um pouco mais de atenção os bancos e os muretes verifiquei, com espanto, que estavam revestidos com azulejos antigos, datados do século XVIII.
Recorrendo a uma expressão usada por Luís Montalvão, recorri aos serviços da "santa internet" onde
obtive elementos que permitem descrever a história e vicissitudes desta igreja.
A primitiva edificação foi construída em terrenos doados por Luís da Maia à Ordem de São Francisco. O traçado, simples, estava em consonância com a oração contemplativa dos frades que habitavam o pequeno convento. Na primeira metade do século XVIII, o seu interior foi enriquecido com azulejos.
O terramoto de 1755 abalou fortemente a sua estrutura culminando na derrocada da quase totalidade das suas paredes. Por acção de Frei Basílio de S. Boaventura a reconstrução iniciou-se quase de imediato, sabendo-se que, já no ano de 1758, a zona da capela-mor estava concluída. Aproveitando o facto de ser totalmente reconstruída, o projecto foi alterado, conferindo-lhe uma maior monumentalidade, chegando até nós com o aspecto que tem hoje.
No ano de 1927 sofreu um incêndio. O projecto foi entregue ao arquitecto Tertuliano Marques que, para além de manter o traçado original, salvou alguns dos azulejos setecentistas que podemps observar nos muretes e bancos que circundam o terreiro adjacente à entrada da igreja.
 
 
 
 




Este grupo que guarnece um dos  muretes mostra azulejos de figura avulsa, intercalando com peças de cercadura, sem uma preocupação mínima de os enquadrar enquanto grupo, como foi feito noutras partes do mesmo recinto. Foi uma atitude de louvar, numa época em que o velho era possidónio e de mau tom. Foram reaproveitados, embora aplicados de  forma aleatória.
A policromia e  riqueza dos movimentos atestam a sumptuosidade que caracterizou uma época, particularmente importante da nossa azulejaria, que pretendia mostrar, para além  da funcionalidade decorativa deste tipo de revestimento,  a sua  integração perfeita nas estruturas arquitectónica.





Num dos recantos, curiosa ornamentação que, embora não tendo conjugação decorativa a nível dos elementos representados nos dois painéis, mostra  preocupação em conseguir conjuntos harmoniosos.

 
 
Curiosa miscelânea de diversos exemplares de azulejos, incluindo um que, por representar uma mão, pode bem ser proveniente de um painel figurativo. Fica a dúvida.
Nas imagens seguintes, mais alguns exemplos de azulejaria de padrão, a qual, pela repetição contínua em grandes extensões, permite obter efeitos espectaculares. Perfeitamente integrados nas estruturas onde eram aplicados, obedeciam a três premissas importantes: baixo custo, higiene e durabilidade. 







Para terminar, um pequeno painel de azulejos pombalinos, que apoia as ideias anteriormente esplanadas. A repetição de um número variável de elementos permite composições de maior ou menor extensão, de acordo com os primitivos locais de destino. Modernamente, o gosto pelo antigo deixa que se formem estas "pinturas" que enaltecem, quer o anonimato dos seus criadores, quer a originalidade das suas criações.

 

 
 
"Azulejos de fachada em Lisboa", Lisboa revista municipal, nº3, 1º trimestre de 1983.