quinta-feira, 11 de julho de 2019

Um prato ratinho numa escavação arqueológica






Nas escavações arqueológicas as cerâmicas  são dos espólios mais frequentes que surgem, constituindo  elementos importantes e essenciais para um estudo económico e sociológico da época a que reportam, pois proporcionam bastas informações "acerca das sociedades que em cada época produziram e utilizaram estes objectos do quotidiano"1. Foi o que aconteceu  com um fragmento de um prato ratinho que, juntamente com outros, viu a luz do dia e da celebridade aquando de um acompanhamento arqueológico de obra na Rua do Carmo, no Porto. (nº8 da Planta)
A Casa do Infante seleccionou-o como Peça do Mês, com o título "Prato de faiança popular", em Março de 2014.

"Itinerário da Faiança do Porto e de Gaia", Pág.121


Peças do conjunto recolhido junto do antigo Convento do Carmo, à Praça de Lisboa

Neste conjunto, para além de peças de louça brioso, percursoras da "louça ratinha de Coimbra"2,surgem outros fragmentos de argila vermelha, revestida com esmalte verde, de possível atribuição a fabrico de Aveiro.

Esta iniciativa vem realçar a importância das escavações arqueológicas para o estudo da faiança portuguesa.
Por casualidade, a Colecção de Faiança da Fundação Cargaleiro possui um exactamente igual, se bem que um pouco maior e em excelente estado de conservação. Figurou na Exposição "Cerâmica na Colecção da Fundação Manuel Cargaleiro", com o nº 42 de catálogo.



Ambas as peças se perfilam dentro dos espiralados, com a espiral central circunscrita por dois círculos concêntricos. A leveza da decoração está na cercadura, que se prolonga no espaço central, desenvolvendo-se por um entrelaçado de grinaldas, formadas por um cordão de pequenos círculos em verde, entrecuzados por filamentos ondulados, em manganés.
Folheando o catálogo do Palácio do Correio Velho, realizado em Março de 1996 sobre a colecção de faianças do Eng. Abecassis, deparamo-nos com um prato com decoração semelhante, sendo que as grinaldas são formadas por pequenos círculos. (Fila superior, segundo a contar da direita).


Catálogo PCV "Colecção de Faianças  Eng. José Abecassis", Pág.118

Para terminar esta breve análise de faiança ratinha, acrescenta-se um outro prato, que pertenceu às colecções do Cmdte Vilhena e, também, do Eng. Abecassis. Apresenta a mesma cercadura, repetindo-a no centro, em vez da espiral.





1- Paulo Dórdio, Ricardo Teixeira, Anabela Sá - "O recente contributo da arqueologia" in Itinerário da Faiança do Porto e Gaia, MNSR, Pág.119.
2- Paulo Dórdio, Ricardo Teixeira, Anabela Sá - "O recente contributo da arqueologia" in Itinerário da Faiança do Porto e Gaia, MNSR, Pág.155.









segunda-feira, 29 de abril de 2019

Igreja de S. Domingos de Benfica



No dia 5 de Abril realizámos uma visita de estudo à Igreja de N.Srª. do Rosário, anteriormente conhecida por Igreja Paroquial de S. Domingos de Benfica. Apesar do dia invernoso, foi um momento interessante, que nos deu a conhecer um conjunto de edifícios, o antigo convento dominicano, no qual a igreja se integra.
A fachada principal revela a sua simplicidade maneirista. Observa-se uma empena rematada por uma cruz, um portal flanqueado por pilastras e  uma janela que ilumina o interior. Na parte superior do portal são visíveis as armas da Ordem, bem como a data 1632, referente à sua edificacão.





A igreja apresenta uma planta em forma de cruz latina. A nave central, cortada por um transepto pouco definido, remata na capela - mor profunda, que se apresenta seccionada, originando deste modo um retro-coro, estando adossada a sacristia. 
Possui belissímos painéis azulejares figurativos, azuis e brancos, de autoria de José de Oliveira Bernardes, ,de uma beleza eterna, representando cenas das vidas de São Francisco e São Domingos, embelezam a capela-mor. Esta, de pequenas dimensões, mostra uma cobertura em caixotões de estuque pintado. Contém o altar e o retábulo-mor, de dupla face, de talha dourada e planta recta e três eixos definidos por seis colunas coríntias, sobre plintos em forma de paralelipípedo. Centralmente, cobertura em arco de volta perfeita, onde se destaca o sacrário, em forma de pequeno templo. Toda a talha é de autoria do mestre Jerónimo Correia.






Uma perspectiva do coro-alto, em madeira e ferro, de perfil curvo, com guarda vazada e acessos por escadas laterais.





A sacristia apresenta uma planta rectangular simples e as paredes divididas em dois planos, o superior com apainelados de madeira, integrando painéis pintados.
Lateralmente, dois arcazes de madeira, encimados por espaldar de apainelados, intercalados por espelhos.






Nos topos dos braços surgem as capelas retabulares dedicadas a Cristo Crucificado e a Nossa Senhora do Rosário, rodeadas por painéis azulejares co a representação de anjos sustentando festões floridos.


No retro-coro é-nos dado apreciar as paredes decoradas com estuques e cobertura com caixotões ornamentados com cartelas, também em estuque.
Aí se encontram o cadeiral, o orgão de tubos e o túmulo do Dr. João das Regras, talhado em mármore branco de Montelavar.






sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Uma intervenção arqueológica no Largo das Olarias





Esteve patente ao público, no Museu Nacional de Arqueologia a exposição temporária "MEMÓRIAS DE UMA OFICINA ESQUECIDA" com curadoria de Anabela Castro e coordenação de Alexandre Pais e Lurdes Esteves. Resultou de uma iniciativa conjunta do Museu Nacional do Azulejo, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil  e do ARTIS - Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e deu-nos conta do contributo essencial e acrescido para o conhecimento da produção das faianças portuguesas dos espólios  recuperados aquando da intervenção arqueológica realizada no Largo das Olarias, no bairro da Mouraria, entre os anos de 2015 e 2017. Através dos materiais recolhidos pudemos fazer uma ideia do modo de funcionamento dos fornos e dos "acidentes" que, por vezes, ocorriam. Foi o caso desta exposição que nos mostrou, quase realisticamente, os infortúnios que podiam ocorrer. No entanto, essses objectos "apesar de destruídos (...) são capazes de nos cativar com uma beleza que somente se pode encontrar na imperfeição"1.



Imagem retirada da internet

Os fornos encontrados e escavados serviam, entre outros tipos de cerâmica, para a produção de faiança esmaltada de branco e com pintura, em azul, claramente de influência oriental. 
Foi feito e levantamento de quatro fornos, um circular e três ovais. Apresentavam duas câmaras: uma de combustão inferior (fornalha) e outra superior, onde se procedia à cozedura das peças. Entre as câmaras encontrava-se uma grelha assente em arcos, com orifícios, destinados à passagem do calor. Um corredor, em abóboda, permitia o acesso ao local onde se acendia o fogo. 
O seu período de laboração  situa-se cronologicamente entre os finais do século XVI e primeiras décadas do XVII. Dependendo dos materiais utilizados na sua construção, muitas vezes de fraca qualidade, o que implicava remodelações, o seu tempo médio de funcionamento foi de cinquenta anos. 

"Dos depósitos escavados recolheu-se um número considerável de fragmentos de trempes, cerâmica não vidrada e faiança em vários momentos de produção (enchacotada, vidrada e pintada mas não cozida segunda vez e peças acabadas mas apresentando defeitos)"2.


Imagem retirada da internet
Foram encontradas grandes quantidades de cerâmica esmaltada de branco, decorada a azul, com clara influência da porcelana chinesa, reproduzindo "animais envolvidos por vegetação no seu habitat natural"3: aves coelhos e cães adaptados à fauna autóctone.
Outras formas recuperadas e que permitiram aferir o que se usava no quotidiano das casas mais abastadas foram as tigelas e galhetas, numa decoração geometrizada e em cartelas, preenchendo a totalidade da superfície  das peças.




Observando a imagem supra podemos constatar outras formas recuperadas, mais simples, não vidradas e de claro uso doméstico, como por exemplo bilhas e púcaros.



Muitas das peças exibidas na exposição mostram anomalias devidas, principalmente, à falta de controlo da temperatura do forno. As altas temperaturas atingidas fizeram com que houvesse um processo de fundição das peças, formando-se conjuntos amalgamados, entre a faiança e o próprio recipiente contentor, neste caso as casetas, caixas refractárias, cuja função era "preservar as peças no processo de vitrificação durante a segunda cozedura"4- Cilindricas, apresentavam duas formas: bordo vertical e fundo plano ou de bordo vertical e fundo aberto, com orifícios verticais onde encaixavam os cravilhos que iriam servir de suporte para os pratos de aba.
Esta era a técnica oleira mais comum usada nas olarias lisboetas, por contraposição ao que acontecia nas oficinas de Coimbra ou Gaia, onde o recurso às trempes era o mais usual.






Por curiosidade mostram-se dois conjuntos de pratos, amalgamados, em chacota e já na segunda cozedura, recuperados nas escavaçóes de Santa Clara a Velha, Coimbra, aquando da campanha das obras de restauro e conservação do espaço adjacente ao mosteiro, provenientes dos caqueiros que foram sendo constituídos nas cercanias do mesmo. 


1- Textos informativos da exposição.
2/3/4- Anabela Castro, Nuno Amaral da Paula, Joana Bento Torres, Tiago Curado, André Teixeira -"Evidências de produção oleira nos séculos XVI e XVII no Largo das Olarias, Mouraria, Lisboa". Arqueologia em Portugal, 2017, Estado da Questão.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Natal 2018








Um Menino Jesus, Salvador do Mundo, abençoa-nos.
 Sorridente, com Ele celebramos o seu dia.
 A todos desejo um Santo Natal.





sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Algumas peças de Estremoz


Faiança de Estremoz. Pássaro integrado na paisagem. O mesmo motivo central, com envolvimentos diferenciados nos pratos. Um galheteiro no qual as galhetas apresentam, também, o motivo anteriormente referido.
A produção de faiança em Estremoz terá tido início cerca de 1770 e persistido até 1808, altura em que a laboração das oficinas findou, mercê da acção devastadora das invasões napoleónicas, que também se repercutiu noutros centros produtivos do país..
No dizer de João Castel-Branco Pereira "a faiança de Eztremoz surge com estatuto periférico"1, relativamente a outros centros de produção cerâmica como Viana, Porto, Aveiro, Coimbra, Caldas da Rainha e Lisboa. Continua o mesmo autor afirmando que, embora "circunscrita a um mercado local (...) esta louça, fundamentalmente utilitária, reflecte um curioso compromisso entre as vivèncias profundas da ruralidade da região, marcada pela aplicação decorativa de uma botânica local e a transposição de modelos eruditos coevos"2. Perfeitamente identificada pela leveza da sua pasta, pelo brilho do seu vidrado e pela delicadeza da sua decoração, esta faiança é profundamente valorizada não só na  região estremocense, como em grande parte do Alentejo. 

Apresenta uma grande variedade de motivos decorativos nas reservas centrais, mas são as cercaduras que melhor caracterizam as peças, pois representam espécies vegetais autóctones, como a beldroega, a murta, o loureiro, a madressilva, a oliveira e o pinheiro.



As peças que se mostram, incluídas no grupo dos animais, visto ser um pássaro - o gaio - o seu motivo aglutinador, são valorizadas por estarem integradas numa paisagem conjugando, deste modo, dois temas decorativos decorativos tipicos da faiança de Estremoz.


Resultado de imagem para gaio
Imagem retirada da internet





Em primeiro plano, na reserva central, definida por dois círculos concêntricos, é-nos dado observar um gaio, ave que se encontra de norte a sul do país, em ambientes tipicamente florestais. Equilibra--se num ramo de árvore tendo, como fundo, uma paisagem campestre. Aba com círculos concêntricos, decorada com estilizações de folhas de oliveira.






No livro de Sven Stapf "Faiança Portuguesa Faiança de Estremoz", caracteriza-se a pintura paisagística como demonstrando uma grande "simplicidade, atingindo por vezes a abstracção  pelos seus inconfundíveis traços de pincel que, não sendo finos, conseguem transmitir uma grande leveza"3.
A reserva central exibe a mesma ornamentação da peça anterior, se bem que menos rica e com menor número de pormenores. Mostra uma aba composta por elementos vegetalistas estilizados.





Galheteiro de Estremoz. As galhetas  revelam a mesma decoração abordada anteriormente. Os gaios exibem as penas, com leves apontamentos em azul forte, uma das suas marcas de imagem.





A base é formada por quatro recipientes cilíndricos, dois maiores com base cintada e dois menores com base escalonada, ligando-se, simetricamente em cruz. Ao centro, a pega em aro sobre apoio vertical em balaústre. A ornamentação dos contentores das galhetas aproxima-se da decoração paisagística, com alguns elementos de construção, se bem que não idealmente definidos.










1/2 - "Faiança de Estremoz". Catálogo da Exposição realizada no Museu Nacional do Azulejo, 1995.
3 - Sven Stapf "Faiança Portuguesa Faiança de Estremoz",1997.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

A Faiança Ratinha e as migrações internas em Portugal







Um conjunto de pratos que simbolizam elementos de um rancho de ratinhos que se dirigem para as planícies alentejanas. O manajeiro, o rapaz com a sua merenda, o camponês e a sua alfaia agrícola e o violeiro, que vai animar os fins de tarde.
Desde sempre houve um desequilíbrio entre o norte, fortemente povoado e o sul, com graves carências populacionais. Era "um Portugal onde a terra falta ao homem e outro onde o homem falta à terra"1. Interessante expressão que espelha de forma real a disparidade da distribuição populacional no nosso país, problema que, também hodiernamente, se faz sentir de modo acutilante. A população teve, desde sempre, tendência em se concentrar em certas zonas, rareando noutras.
Entre as causas que propiciaram estas variações populacionais encontram-se  a orografia e o clima. Zonas com relevo baixo, vales pouco profundos e com chuvas abundantes atraem pessoas, opondo-se àquelas onde  o relevo mais alto, bem como as áridas planuras, com clima mais seco e quente que obriga a uma maior escassez de gentes.
"Onde a água existe e as condições de terreno são favoráveis, a população fixa-se e a propriedade divide-se; onde ela falta, a exploração agrícola  (...) só é possível em regime de grande propriedade"2.
Estas grandes assimetrias completam-se e complementam-se. A abundância de produção agrícola pede abundância de esforço e braços. Assim se conjugam vontades.
A resposta para esta contínua falta de mão-de-obra está nas migrações internas. São movimentos populacionais de carácter temporal limitado, associados aos ciclos produtivos agrícolas. Os fluxos migratórios tomam, preferencialmente, a direcção Norte-Sul e da montanha para a planura.
Maioritariamente oriundos do distrito de Castelo Branco, os Ratinhos eram  trabalhadores incansáveis, mourejando  sob o Sol escaldante, na mira de um ganho  maior.




Girão, Aristides de Amorim
"Geografia de Portugal"





O migrante Ratinho. Socos de madeira nos pés, fato de cotim, escuro, varapau ao ombro levando a manta e a merenda. A seu lado a interpretação sob o olhar arguto do artesão conimbricense. Semelhanças entre as duas imagens: um caminha para o seu local de trabalho, o outro, já de regresso, cansado, mas feliz.  Saudades para quem parte. Felicidade para quem regressa.




Num momento de descanso e final de um dia de trabalho. Duas figuras ligadas ao trabalho agrícola. Arrimado à sua pá, o homem, arrogante na sua virilidade, penacho no chapéu, prepara a ida à fonte, na mira das conversadas.
Pratos característicos da produção de Coimbra, conhecidos por faiança ratinha, nomeada que se lhe colou por serem levados pelos migrantes ratinhos, quando se deslocavam para as fainas agrícolas do Alentejo. Policromia, cercadura, plantas que ladeiam as figuras centrais.






O manajeiro e o violeiro. Funções importantes. Trabalho e distração. Pela Primavera, dirigia-se ao Alentejo a fim de averiguar sobre o estado das searas, do seu crescimento e estado de maturação. Apalavradas as ceifas, tomava de empreitada várias casas, comprometendo-se na angariação da mão-de-obra necessária para o trabalho a realizar. Regressado à sua terra iniciava o alistamento e formava as camaradas.Com alguma segurança, com um certo ar de senhor, que lhe advinha do conhecimento e exercício do que também tinha executado, dava conta da notícia do que iriam ganhar, escondendo, para os novatos nessas lides, o menos bom.
Partiam em meados de Maio. A pé, de burro, às vezes de combóio e, por vezes, de camioneta.




No fim da jorna do dia, na frescura do entardecer, mandavam notícias através daqueles que sabiam escrever. Apesar de cansados, o corpo pedia um pouco de dança. Surgiam as violas. O balho começava.
O manajeiro, com um certo ar de senhor, mas a que não faltam trejeitos de saltimbanco, olha-nos do meio da sua dupla cercadura florida. Figura ingénua, de um ingénuo artista.
O violeiro, em passo de dança, marca o ritmo e a roda começa. Braços no ar, bater ritmado dos pés, as figuras volteiam, incansáveis. Mais uma faina cumprida. Para o ano há mais.



1/2- Aristides de Amorim Girão e Fernanda de Oliveira Lopes Velho "Estudos da Populaçáo Portuguesa. Evolução Demográfica e Ocupação do Solo Continental  (1890-1940), Coimbra,1944, Separata da Revista Biblos, vol.XX.















quinta-feira, 22 de março de 2018

A Faiança Ratinha na colecção Abecassis





O Eng. José Abecassis foi um apaixonado coleccionador de faianças, com especial destaque para os paliteiros. Criterioso, reuniu um acervo do que de melhor se produziu na faiança nacional, sendo um dos seus enfoques a denominada Faiança Ratinha. 
O Palácio de Correio Velho leiloou a sua colecção, em Março de 1996. 

PCV, Catálogo
Colecção de Faianças
Eng. José Abecassis

PCV, Catálogo, Pág.18
Como já tinha sido referido, entre a sua colecção de faiança sobressaem os Ratinhos. Reuniu uma variedade impressionante de pratos, com  motivos decorativos diversificados. Enunciá-los, seria excessivo. A imagem fala por si mesma. Dos exemplares representados nesta página, dois se podem mostrar. 





Bicromático, em tons de verde e manganés. Pesado e de pasta compacta. Na cercadura e centro revelam-se encordoados, que se entrelaçam entre si, num entrecruzar sinuoso de linhas, que nos deixam admirados pela riqueza do desenho, conseguida pela utilização de instrumentos simples e de fácil manuseamento: pincel e cana de secção circular. 




Neste exemplar, com uma decoração mais requintada, podemos intuir a influência (?) de alguns painéis azulejares. A taça, onde se entrevêem dois corações asseteados, quiçá alusivos a amores incompreendidos, está ladeada por dois pássaros. Um ramo florido ornamenta o vaso. Observa-se uma paleta cromática - verde, amarelo ocre e manganés -, tão característica da faiança de Coimbra. Com três cores consegue uma decoração rica e sugestiva. Temporalmente, podemos situá-los no último terço do século XIX.

PCV, Catálogo, Pág.19

Esta página do catálogo mostra-nos, essencialmente, figuras humanas. Umas representam imagens de nobres mas, na generalidade, caracterizam figuras populares. Era a  faiança produzida para os menos favorecidos economicamente, mas que também tinham direito à imaginação e criatividade dos artesãos que, com forte probabilidade, a eles destinavam as suas pinturas. Também desta página se mostram dois exemplares.




A senhora, no seu traje de ver a Deus, de saia de riscas, mais curta do que era usual, presa na cintuda com uma faixa  que lhe dá um ar distinto. Blusa com decote pronunciado, mas não em exagero, que cai sobre as ancas, formando uma sobressaia. Na cabeça, um chapéu "mignon", com fitas duplas que caiem sobre as costas.
Envolve-a uma dupla cercadura florida,  preenchendo a superfície restante do covo.





A seu lado, como se fosse o seu acompanhante, mas que sabemos que tal não poderá ter acontecido, pois a figura representada - um jovem trabalhador, provavelmente agrícola -, não está vestida com os trajes adequados, comparativamente àqueles envergados pela senhora.
Uma cercadura mais leve e simples, formada por esponjados e linhas onduladas, que estabelecem a união entre as flores. A policromia exibida inclui já o azul, se bem que em apontamentos muitos escassos. Temporalmente, aponta para finais do século XIX. O desgaste que se nota no vidrado permite-nos concluir, com alguma certeza, o uso que lhe foi dado pelos seus utilizadores até ao momento em que entrou numa colecção sendo, desde então, considerado como elemento destinado a expôr e a preservar.


PCV, Catálogo, Pág.24


Nesta página, mais uma vez, predominam as figuras. Na última linha, os músicos: tocadores de viola, de gaita de foles e guitarristas. Todos eles, homens e mulheres, pelos trajes que envergam, mais populares e simples, sugerem pertencer ao povo. Muitos mais instrumentos musicais surgem, também, nas representações figurativas da Faiança Ratinha. No entanto, estes são aqueles que aparecem em maior número, talvez pelo carácter recriativo que lhes está subjacente.




Este prato, nas palavras do leiloeiro "dos melhores da colecção", tem uma presença marcante. Mostra-nos uma senhora abastada - colar e brincos de pingente - que, delicadamente, segura uma flor na mão. Saia comprida, listrada, e um corpete, apertando frontalmente com uma fileira de botões. A senhora tem como base para apoiar os pés, uma estrutura, semelhando um murete. 
Envolve-a uma dupla cercadura florida,  preenchendo a superfície restante do covo.

PCV, Catálogo, Pág.25
Esta página brinda-nos com a riqueza e variedade das representações zoomórficas: aves e peixes, com predomínio para as primeiras.



Uma  palangana com uma decoração excepcional: um soberbo pelicano. A representação desta ave ocupa uma forte tradição no imaginário social. Símbolo escolhido pelo rei D. João II traduz os valores fundamentais da fidelidade e do sacrifício. Zela extremosamente pelos filhotes, alimentando-os com o próprio sangue. Enrola-se sobre si mesmo, numa atitude de protecção.
Apresenta uma decoração cheia, de cores fortes e marcantes. Aliás, tem a comprovação de ter pertencido à colecção do Eng. Abecassis.