domingo, 18 de dezembro de 2016

Natal de 2016

 
 
 
 
 
Uma composição que encanta pela serenidade.  Nesta incerteza que são os novos tempos, que a adoração do Menino nos traga Paz e Alegria.
Um Feliz Natal a todos.
 




quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Uma aventura e o o Museu do Cristo








 
Numa manhã de Outono, soalheira, mas já a chamar o frio, partimos da gare do Oriente a caminho do Porto.
Tínhamos como destino visitar o Museu do Cristo, instalado no edifício da Irmandade dos Clérigos. No Alfa (cujo estado das carruagens deixa muito a desejar) o tempo passou num ápice. Em conversa agradável e amena fomos dissertando sobre tudo e sobre nada, mas com uma cumplicidade que nasce do respeito e amizade profunda que se foi cimentando, ao longo de uma vida, que já vai um pouco longa.
O tema foram as colecções que este Senhor foi coligindo e desenvolvendo, com especial enfoque para peças que contivessem, em si representada, a figura de Cristo.
E ... de repente estávamos em Campanhã. Para um conhecedor e vivenciador do Porto, rumámos ao restaurante Aleixo. O almoço foi um dos afamados pratos desta casa - filetes de polvo com arroz de polvo. Tudo estava uma delícia.
 
 
Aproveitei e fui fotografando os prédios desta rua e de outras por onde, entretanto, fomos passando. Este aparte é para o Luís Montalvão. Fachadas de azulejo, cada qual mais bonita e interessante. Elementos de fachada em cerâmica - balaústres, pinhas, vasos e uma claraboia - que mereciam um estudo. Deixo uma imagem para deslumbrar e fazer nascer a vontade de ir até ao Porto e caminhar, de nariz no ar, para absorver bem a atmosfera romântica ( obviamente, refiro-me ao Romantismo), que, ao longo dos anos, foi vivida em terras portuenses.
 
 
 
 
Mas, o tema deste post é sobre o Museu do Cristo. Nasceu da vontade do seu doador. A colecção é composta por uma grande variedade de peças, cujo denominador comum é a imagem de Cristo.
Na fachada lateral do edifício fica a entrada do Museu. Recebe-nos um fragmento de Cristo, imagem recuada no tempo, de alta época, cujas linhas apontam para uma serenidade suprema.

 

 
 
É grande a variedade de imagens, pelo que se torna difícil a escolha. Para não tornar o texto muito  pesado, peço que se imaginem no museu e apreciem algumas das peças em exposição.
 
 
 
 
 
 
 


 
 

 O doador, Dr. António Miranda, quis, por sua vontade,  que todas estas belíssimas imagens pudessem ser fruídas por todos nós. É um convite para irem ao Porto, visitar uma cidade que, só a pouco e pouco, nos revela os seus segredos. Bem haja.
 
 
 
 


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Coimbra tem mais encanto

 
 
O azul é a minha cor favorita. As faianças um dos meus temas de eleição. Em conjunto, tornam-se um motivo para debater algumas ideias, aventar hipóteses, sugerir ...
Neste recanto em tons de azul reuni algumas peças que poderemos, com alguma certeza, atribuir à produção coimbrã. As palanganas  são-no, indubitavelmente. As terrinas, pelo formato, pela cor, pela decoração, também apontam para uma mesma  proveniência.
 
 
 
Duas peças em ricos tons de azul, com apontamentos de manganés. Nitidamente inspiradas na produção oriental e no conceito de horror vacui mostram-nos uma ornamentação de vegetação exuberante, na qual as flores se distribuem por toda a superfície, numa clara demonstração de vontade de o autor preencher todo o espaço de que dispunha. Partindo de uma base assinalada por dois traços, as ramagens espalham-se, subindo até ao topo, definindo um eixo vertical à composição. Pelo meio, breves apontamentos de leves pinceladas, assumem-se como as folhas desses mesmos ramos de flores. Estas, em esponjado, uma das características que define a Faiança Ratinha, exibem a sua riqueza cromática, nos seus magníficos azuis, limitados pelo correr do pincel, em traços cheios ou ondulados, numa interpretação livre dos seus autores.
 
 
 
Entre outros materiais, considerados mais ricos e nobres, a pobreza da faiança coimbrã, moldada pelas mãos rudes e trigueiras dos seus artesãos, revela toda a sua riqueza nas formas, na policromia, na decoração e num enternecer que aquece as almas.


 
 
 
Palangana de ramo central de flores de linho. Sereno e belo. Toda a sua pujança está na cercadura, encordoada, num entrelaçar entre círculos esponjados e  traços elegantes e leves. A sua bicromia - azul e manganés - sobressai no fundo branco leitoso do seu revestimento esmaltado.
 
 

 
 
Duas terrinas que poderão ser atribuídas à produção (?) de Coimbra. Os seus tons de azul conjugam bem com as peças ratinhas anteriormente caracterizadas. A forma hexagonal de uma delas é usualmente atribuída a Coimbra. A sua decoração marmoreada lembra os lambris de azulejos, igualmente marmoreados,  que cercavam muitas das composições azulejares que podemos observar in loco ou nos museus. Ambas têm um tamanho mignon . Por isso ainda mais atraem o nosso olhar.
 
 
 
 
 


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Bandeira e Fervença! Who knows...




Bandeira? Fervença? Qual das fábricas! Atribuir a produção das faianças às respectivas fábricas  torna-se uma tarefa ingrata. Certezas são poucas. Incertezas muitas mais.
Um pequeno conjunto com um elemento comum - o galo - mas em temáticas diferenciadas. Uns referenciam a força e a predominância masculinas, numa clara alusão à supremacia do homem sobre a mulher. Ideias vigentes na sociedade europeia desde tempos remotos, que reverenciavam a  superioridade masculina face à fragilidade feminina. Seres superiores, quer física, quer intelectualmente, à mulher estava reservada  a dedicação à família, a orientação/organização da casa e a representar condignamente o papel social que lhe era atribuído.







Este é, com forte probabilidade, um prato Bandeira. Esta fábrica produziu essencialmente modelos vulgares, de uso doméstico embora de riquíssima ornamentação. A sua decoração caracteriza-se por uma cercadura cheia, com folhas de carvalho bem recortadas  e flores, numa composição cheia de cor e alegria. Usavam a estampilha, complementada por elementos de pincel, que completavam a cena interior do covo. Neste caso, aludindo a um provérbio popular "onde há galo não canta a galinha", numa clara referência à superioridade masculina, face à delicadeza feminina. Os provérbios, carregados de sabedoria popular, dizem, em parcas palavras, verdades evidentes (!!!).







Um prato de grandes dimensões, diferindo do anterior por apresentar uma guardadora de aves, função que normalmente competia às jovens, por ser um trabalho mais leve e de menor exigência. A mesma estampilha do anterior, embora simulando uma cena campestre. Uma árvore dá sombra, enquanto o casal de galináceos se comporta em conformidade com as exigências sociais: superioridade e submissão. Menos rico em colorido, apresenta uma cercadura leve, de pequenos malmequeres azuis. Atribuição (?) ... aceitam-se alvitres. Gaia?







Este prato, com possibilidade de ser atribuível a Fervença, apresenta uma cercadura com conjuntos de pétalas separadas por uma traço contínuo, ondulante, no verde esbatido desta produção. No covo, em destaque central, uma pequeno galo, impante e orgulhoso, pela função que lhe foi cometida: guardião da chave que une os dois corações. Ladeiam-no  conjuntos de pétalas e folhas e rabiscos finos, traçados a ponta de pincel. Diz-nos Luiz A. de Oliveira que Fervença "fabricou louça de faiança muito bem laborada, proporcionando todos os materiais de primeira qualidade para a manufactura"1.







 Aplica-se uma quadra popular, expressando em palavras, o sentir do autor da composição.

Aqui tens meu coração
E a chabe pro abrir
Num tenho mais que te dar
Nem tu mais que me pedir




1- Luiz A. de Oliveira "Exposição Retrospectiva de Cerâmica Nacional em Viana do Castelo", Porto, 1920, Pág.135.









sábado, 28 de maio de 2016

Vilas operárias II

 
 
Novamente as vilas operárias. Este gosto por conhecer Lisboa tornou-se em mais um dos meus interesses. Quem sabe, tanta dispersão, a que resultados levará? Mas, um pouco de loucura, faz bem à alma e enriquece a vida.  
Há poucos dias, numa volta por Campolide, freguesia onde vivi até casar, deparei-me com algumas vilas operárias. Uma, que já tinha podido "ver em tempos", numa visita de estudo organizada pela CMLisboa, com o objectivo de contextualizar urbanisticamente o Aqueduto das Águas Livres. Nos seus tempos mais áureos a Vila Romão da Silva, assinalada por uma inscrição algo escondida no pilar do portão, anunciar-se-ia por uma placa cerâmica ou de outro modo mais digno. Hoje, a recordação fica-se por letras pintadas manualmente. São tão dignas como a mais elaborada das pinturas. 


 
 
Construída nas traseiras daquele que foi o Palácio Laguares, edifício do século XVIII, ocupado durante muitos anos pela escola primária nº13, actualmente aí funciona a Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul.
Com o incremento da industrialização tornou-se premente a necessidade de construir casas, económicas e salubres, para o operariado, parte integrante da nova realidade social que se forma nos finais do século XIX e se sedimenta nos primórdios do século XX. Necessitados de casas com melhores condições de habitabilidade, e dada a escassez de terrenos bem localizados, que fossem próximos dos locais de trabalho, e permitissem uma construção económica, assistimos ao aproveitamento de espaços nas traseiras dos prédios, muitos deles destinados à pequena burguesia.  Na Rua Professor Sousa da Câmara temos dois exemplos. A Vila Romão da Silva, com um amplo pátio, circundado por habitações de rés do chão e primeiro andar, onde um habitante solitário goza uma réstia de Sol e
 
 
 
 
 




 
 

a Vila Raúl com entrada por um portão gradeado, entre dois edifícios que dão directamente para a rua. Característicos das primeiras décadas do século XX, um deles ainda habitado, outro já com o destino traçado - o abate. Casas que ladeiam uma rua de acesso, porta e janela, num convívio quase forçado, entre os seus ocupantes




 

 
 
 
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A condessa do Paço do Lumiar, em 1889, vendeu terrenos que detinha na zona de Campolide, para a construção do Bairro Novo de Campolide. As primeiras ruas delineadas e posteriormente executadas, designadas inicialmente pelos números 1 a 4, deram, posteriormente, origem às ruas Conde das Antas, General Taborda, Victor Bastos e D. Carlos de Mascarenhas. Para além de edifícios mais elaborados e com projecto de autor vamos, mais uma vez, encontrar as já "famosas" vilas operárias.
Na Calçada dos Mestres, rua que deve o seu nome aos mestres de ofícios que, no século XVIII, vieram trabalhar para o aqueduto das Águas Livres, também deparamos com a Vila Emília, com acesso por um portão de ferro e um arco, por debaixo do prédio, entretanto recuperado.
 
 






Encontrei o portão fechado. Mas o engenho e uma máquina "mignone" permitiram uma fotografia. Mais uma vez se nos depara uma rua estreita, com leve inclinação para o centro, talvez com o intuito de permitir que as águas escorressem, ladeada por casas baixas, aparentemente bem conservadas. Habitação menos remediada entre outras mais remediadas. Os operários ocupavam-nas, embora hoje os seus habitantes sejam outros, pois os filhos dos primitivos ocupantes fugiram para casas mais modernas, nos dormitórios adjacentes a Lisboa.
 
 

 
 

 
 
 
Na Rua Soares dos Reis, perpendicular  à Rua General Taborda, a Villa Motta, com acesso por um arco sob o prédio, portão gradeado, aberto, convidando a entrar. Não me fiz rogada. Sorrateiramente fui andando e deparei-me com uma senhora, gozando o sol de uma tarde amena. Orgulhosamente, informou-me que tinha nascido no nº 2, a casa por trás de si. Rua com calçada à portuguesa, de casa bem tratadas, algumas exibindo, com donaire, sinais exteriores de riqueza.
Continuando para a rua General Taborda a nossa vista encontra-se com a Villa Borba, com acesso através de um arco que passa por baixo do prédio. O mesmo esquema de edificação - rua bordejada por correnteza de casas, com três pisos.
 
 







Estas vilas, expressamente destinadas a famílias operárias, tinham regras bem definidas para a sua construção. O Regulamento Camarário de 1930 definia-as como "edificações destinadas a uma ou mais moradias construídas em recintos que tenham comunicação, quer directa, quer indirecta, com a via pública, por meio de serventia"1.


Ainda deambulando pela Rua Professor Sousa da Câmara,  deparei-me com a fachada azulejada de um palacete, encimado por balaustrada e peças de faiança: jarrões e pinhas.
 
 




 


 
 

Mas as surpresas ainda não tinham findado. Não muito ao  meu jeito, por regra sou tímida, entrei pelo portão do dito palacete. Devia ter sido a entrada de honra, mas agora está reduzido a  pequenas oficinas, uma delas de restauro de móveis. Qual não é o meu espanto quando avisto azulejos de figura avulsa, recolocados ao acaso, nos muros e paredes. No meio deles, sem qualquer relação, um motivo que nunca tinha visto - jarras de flores. Que vontade de os trazer comigo. Que belíssimo painel formariam, depois de devidamente restaurados. C'est la vie! Fica o prazer de os ter encontrado e de os dar a conhecer.
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 

Nuno Teotónio Pereira "Pátios e vilas de Lisboa, 1870 - 1930:a promoção privada do alojamento operário". Análise Social, vol.XXIX, 1994, pág.512.













segunda-feira, 2 de maio de 2016

Passeio Avó e Neta ou prospecção de fragmentos de faiança

 
Num sábado de Abril, manhã cedo, mas já com o movimento de uma cidade muito apreciada pelos turistas, descemos a Rua Augusta, numa cumplicidade de avó e neta, dispostas a viver um programa dedicado às jovens.  Como pano de fundo o arco da Rua Augusta e a estátua equestre de D. José. A Catarina em pose . O objectivo era passear sem rumo, em passos (in)definidos, que nos levassem a nenhum lugar em especial. Mas, quase por um não acaso fomos ter à ...

 


onde um letreiro nos chamou a atenção: "Rainha Dona Amélia". O que fazia o nome da última rainha de Portugal num lugar, tão afastado do seu  tempo. Intrigadas pela curiosidade, entrámos e ...  



 

uma bela imagem nos marcou de imediato: a figura da rainha D. Amélia sobressaía numa das paredes do fundo. Se era uma confeitaria, alguma relação teria que haver com bolos. Gulosamente curiosas, com uma ideia a tomar forma, entrámos e ...



 
 
lá estavam, uniformemente dispostas, as Donas Amélias! O nosso apurado paladar saboreou, em antecipação, as iguarias expostas.
 
 

 
 
Depois de instaladas, conhecemos a história destas deliciosas queijadas.  São vendidas na Pastelaria "O Forno", que se situa em Angra do Heroísmo, Ilha Terceira.  Conta a tradição que "certo dia, D. Amélia, a Rainha, veio à ilha. As gentes da Terceira ofertaram-lhe os bolos melhores da rondura do seu horizonte. E em honra da rainha se chamam agora, Donas Amélias"1.
No ano de 1901, o casal régio deslocou-se em visita oficial aos arquipélagos da Madeira e Açores. Nos dias 2,3 e 4 de Julho do referido ano, visitaram a ilha Terceira. Terá sido num dos vários eventos do apertado programa a cumprir, que as diligentes Senhoras terceirenses terão apresentado as queijadas que, por terem sido elogiadas pela Rainha, dela receberam o nome. Em boa hora as provámos, pois são deliciosas.
 
 
Programa seguido pela família real na ilha Terceira. Para as diversas cerimónias vêm indicados os tipos de traje a usar. Curiosos são os pormenores detalhados, com a letra da rainha D.Amélia, para as diferentes toiletes a vestir de acordo com as diversas ocasiões. São mencionadas, também, as casas de modas ou as modistas que podiam ser "Fornecedoras da Casa Real", título muito cobiçado pelos proprietários, que gostavam de os exibir nas tabuletas identificativas das suas lojas, bem como nos cabeçalhos das facturas.
 
 
Dali partidas, rumámos ao Terreiro do Paço. Atrevida, tirou uma selfie. Serve de recordação, argumentava ela, na sabedoria e irreverência dos seus onze anos. Por que será que as avós se deixam convencer?
 
 
 
 
 
A mesma elegância! A mesma delicadeza! A mesma postura! A diferença está no sorriso.
 

 


A maré baixa permitiu-nos procurar, por entre as conchas e seixos, pequenos fragmentos de faiança. Uma amostra dos que encontrámos...


 
 
Entre todos o mais precioso (?) pela textura, pelo esmalte, pelo colorido bicromático: azul cobalto e manganés. Um pequeno fragmento de uma  possível peça malegueira (?), de arestas bem arredondadas, pelo roçar nas areias resultante do movimento das marés.





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Como mera hipótese, mostra-se um pequeno exemplar de faiança malegueira, cujos tons se aproximam dos exibidos pelo pequeno fragmento.



 
 
 
1 - Folheto publicitário "Bolos D. Amélia" da Pastelaria "O Forno".