quinta-feira, 22 de março de 2018

A Faiança Ratinha na colecção Abecassis





O Eng. José Abecassis foi um apaixonado coleccionador de faianças, com especial destaque para os paliteiros. Criterioso, reuniu um acervo do que de melhor se produziu na faiança nacional, sendo um dos seus enfoques a denominada Faiança Ratinha. 
O Palácio de Correio Velho leiloou a sua colecção, em Março de 1996. 

PCV, Catálogo
Colecção de Faianças
Eng. José Abecassis

PCV, Catálogo, Pág.18
Como já tinha sido referido, entre a sua colecção de faiança sobressaem os Ratinhos. Reuniu uma variedade impressionante de pratos, com  motivos decorativos diversificados. Enunciá-los, seria excessivo. A imagem fala por si mesma. Dos exemplares representados nesta página, dois se podem mostrar. 





Bicromático, em tons de verde e manganés. Pesado e de pasta compacta. Na cercadura e centro revelam-se encordoados, que se entrelaçam entre si, num entrecruzar sinuoso de linhas, que nos deixam admirados pela riqueza do desenho, conseguida pela utilização de instrumentos simples e de fácil manuseamento: pincel e cana de secção circular. 




Neste exemplar, com uma decoração mais requintada, podemos intuir a influência (?) de alguns painéis azulejares. A taça, onde se entrevêem dois corações asseteados, quiçá alusivos a amores incompreendidos, está ladeada por dois pássaros. Um ramo florido ornamenta o vaso. Observa-se uma paleta cromática - verde, amarelo ocre e manganés -, tão característica da faiança de Coimbra. Com três cores consegue uma decoração rica e sugestiva. Temporalmente, podemos situá-los no último terço do século XIX.

PCV, Catálogo, Pág.19

Esta página do catálogo mostra-nos, essencialmente, figuras humanas. Umas representam imagens de nobres mas, na generalidade, caracterizam figuras populares. Era a  faiança produzida para os menos favorecidos economicamente, mas que também tinham direito à imaginação e criatividade dos artesãos que, com forte probabilidade, a eles destinavam as suas pinturas. Também desta página se mostram dois exemplares.




A senhora, no seu traje de ver a Deus, de saia de riscas, mais curta do que era usual, presa na cintuda com uma faixa  que lhe dá um ar distinto. Blusa com decote pronunciado, mas não em exagero, que cai sobre as ancas, formando uma sobressaia. Na cabeça, um chapéu "mignon", com fitas duplas que caiem sobre as costas.
Envolve-a uma dupla cercadura florida,  preenchendo a superfície restante do covo.





A seu lado, como se fosse o seu acompanhante, mas que sabemos que tal não poderá ter acontecido, pois a figura representada - um jovem trabalhador, provavelmente agrícola -, não está vestida com os trajes adequados, comparativamente àqueles envergados pela senhora.
Uma cercadura mais leve e simples, formada por esponjados e linhas onduladas, que estabelecem a união entre as flores. A policromia exibida inclui já o azul, se bem que em apontamentos muitos escassos. Temporalmente, aponta para finais do século XIX. O desgaste que se nota no vidrado permite-nos concluir, com alguma certeza, o uso que lhe foi dado pelos seus utilizadores até ao momento em que entrou numa colecção sendo, desde então, considerado como elemento destinado a expôr e a preservar.


PCV, Catálogo, Pág.24


Nesta página, mais uma vez, predominam as figuras. Na última linha, os músicos: tocadores de viola, de gaita de foles e guitarristas. Todos eles, homens e mulheres, pelos trajes que envergam, mais populares e simples, sugerem pertencer ao povo. Muitos mais instrumentos musicais surgem, também, nas representações figurativas da Faiança Ratinha. No entanto, estes são aqueles que aparecem em maior número, talvez pelo carácter recriativo que lhes está subjacente.




Este prato, nas palavras do leiloeiro "dos melhores da colecção", tem uma presença marcante. Mostra-nos uma senhora abastada - colar e brincos de pingente - que, delicadamente, segura uma flor na mão. Saia comprida, listrada, e um corpete, apertando frontalmente com uma fileira de botões. A senhora tem como base para apoiar os pés, uma estrutura, semelhando um murete. 
Envolve-a uma dupla cercadura florida,  preenchendo a superfície restante do covo.

PCV, Catálogo, Pág.25
Esta página brinda-nos com a riqueza e variedade das representações zoomórficas: aves e peixes, com predomínio para as primeiras.



Uma  palangana com uma decoração excepcional: um soberbo pelicano. A representação desta ave ocupa uma forte tradição no imaginário social. Símbolo escolhido pelo rei D. João II traduz os valores fundamentais da fidelidade e do sacrifício. Zela extremosamente pelos filhotes, alimentando-os com o próprio sangue. Enrola-se sobre si mesmo, numa atitude de protecção.
Apresenta uma decoração cheia, de cores fortes e marcantes. Aliás, tem a comprovação de ter pertencido à colecção do Eng. Abecassis.








quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Meninas prendadas


Sempre gostei de bordados e de bordar. Nestes últimos tempos tenho vindo a reunir alguns mostruários bordados a ponto de cruz, feitos pelas mãos sempre habilidosas de jovens adolescentes. É o caso deste, que tem a particuralidade de ter informações de carácter sociológico, o que nos permite inferir sobre a educação proporcionada às raparigas, na cidade de Lisboa.




Maria da Anunciação, 14 anos de idade. A data,14 de Abril de 1830, mostra-nos a sua provecta idade. Está quase a completar dois séculos - 188 anos. A jovem Maria da Anunciação, bordou esmeradamente o seu mostruário, introduzindo-lhe informações que pudessem vir a ser úteis para os seus descendentes. Pode ter sido educada num estabelecimento de ajuda à infância desvalida, que era um dos nomes que davam aos lugares onde eram acolhidas as crianças orfãs ou de fracos recursos económicos. Muitas vezes eram as próprias famílias que as entregavam aos cuidados dessas instituições. A criação destas instituições pode ter ficado a dever-se quer a iniciativas privadas, quer de associações ou ainda estatais. Localizavam-se, principalmente, junto dos grandes centros urbanos, existindo, também, ao longo do território.
Cumpriam a sua função social de acolhimento, protecção e educação. Os femininos insistiam na execução das tarefas domésticas pelas alunas e na aprendizagem de competências como bordar e costurar.Na posse destas competências podiam aspirar a uma "carreira  auspiciosa" de bordadeiras ou costureiras.




Um outro exemplar, mais tardio, mas com uma execução mais cuidada, visível numa cercadura florida, que circunda um cesto de flores. Indica-nos o ano e mês, bem como as iniciais da sua autora. 

Estes "Exemplaires" serviam de mostruário para os profissionais de bordados. Muitas vezes os desenhos eram copiados de outros mais antigos ou ainda de catálogos, que circulavam entre as pessoas. Considerados como documentos da história dos bordados, da sua execução e ensino, começam a despertar o interesse dos grandes museus, como foi o caso do VA de Londres e da Casa-Museu Anastácio Gonçalves. 
                                               




Uma pequena tira de linho serviu, também, de mostruário. Pequenas figuras, do senhor e da senhora e dos empregados, talvez escravos, pela cor da sua pele. Pormenores estranhos e que nos fazem sorrir o que têm nas mãos: cesto, chave, flores, trela do cão.

Estas curiosidades que nos chegam às mãos, plenas de interesse e de histórias, são alienadas pelos herdeiros, na ânsia de acrescentarem alguns cêntimos à parca herança que receberam.

Um mostruário já com alguma idade.



















sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Ratinhos mais modernos






Mais um duo de ratinhos. Desta vez com uma ornamentação mais avant-garde, estilizada quer no formato, quer  na disposição decorativa.
A mesma arca, já aqui mostrada diversas vezes, representa o casamento perfeito para qualquer tipo de faiança. Traz memórias de ranchos, de criados (desculpem a palavra, mas era a que se usava em casa dos meus avós, uma casa agrícola na qual trabalhavam homens e mulheres). Em pratos grandes, mas de esmalte, eram servidas as refeições, em comunidade. Agrupados à volta da mesa, cada um com o seu garfo de três dentes, em ferro, retirava calmamente a comida que, de seguida, molhava  no prato ao lado.
Não sei dizer porquê, mas aquela refeição, aos meus olhos e dos meus primos, sabia melhor comparativamente à que tinha sido servida à mesa. As arcas serviam para guardar as fornadas de pão que se coziam quinzenalmente. Trigo e centeio, este último escuro, mas com um sabor tão próprio, que ainda hoje perdura no paladar.
Extravasei o tema.



Exemplares já mais avançados no tempo, talvez das primeiras décadas do século XX, mas com  características decorativas dos ratinhos, observáveis na cercadura e no apontamento da pluma de pavão. Coloridos, tons ricos de azuis e verdes, mostram flores, únicas, que dominam e captam o nosso olhar.



A flor, esguia e elegante, espraia-se pelo covo, numa conjugação perfeita com os esponjados presentes na aba. O pintor, sabedor do seu ofício, rapidamente delineou uma flor que avulta ao centro, rodeada de folhas e flores em botão.




Este prato, palangana pelas dimensões, apresenta também uma flor única, enquadrada pelas folhas e demais folhagem. Policromia exuberante, forte, em que sobressaem os zuis e os verdes. Centralmente domina o amarelo ocre, tão do gosto dos artesãos conimbricenses. Ao cimo, quase que a esconder-se, a pluma de pavão, de raízes orientalizantes e uma das marcas da Faiança Ratinha.
Num artigo saído no jornal Público, de 3 de Fevereiro de 1998, a sua autora Luísa Soares de Oliveira diz que "com a cerâmica ratinha, estamos com toda a certeza perante a adaptação mais genuína dos padrões orientais, que séculos antes tinham já influenciado a azulejaria e a cerâmica europeias".

Este post é dirigido a todos os que apreciam esta faiança que acalma o olhar e enriquece  a alma.









segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Natal 2017







Presépio de linho.
Nossa Senhora segura o Menino  nos seus braços, sob o olhar enternecido de S. José.
Um Bom Natal, pleno de saúde e paz.




sábado, 28 de outubro de 2017

Ana e Mateus ...os Meninos Gordos



Ana e Mateus, seu irmão, eram naturais do Piemonte, Itália, onde nasceram na primeira metade do século XIX. Por serem anormalmente obesos, inseriam-se na categoria de "curiosidades". Uma vez apresentados à corte do Piemonte, a partir daí iniciam uma digressão pelas diversas cortes europeias, chegando a Portugal no ano de 1842. 
Sendo uma forma de fazer dinheiro, graças à sua extraordinária obesidade, percorreram o nosso país, "tendo sido mostrados nas vilas e cidades por onde foram passando, em salas de espectáculo improvisadas"1. 
Para que o público acorresse a ver estas crianças, os promotores dos espectáculos recorriam à publicidade, imprimindo prospectos com imagens e descrição das crianças em causa.


2


Mateus e Ana Perrera   percorreram algumas localidades do norte - Porto, Braga e Guimarães - tendo como seu empresário o Sr. Teixeira, que os apresentava em espaços improvisados, a preços convidativos e num horário alargado, que conviesse a todos.
Nas gravuras e folhetos que circulavam, eram retratados ambos de saias. Ana diferenciava-se pelo cabelo e por ter uma boneca nas mãos. Seu irmão, Mateus, "mostrava uma espécie de suspensório enviesado e colocado sobre o seu ombro direito"3.

Por serem diferentes, eram recordados e motivo de conversas nos serões e entardeceres, originando histórias que se perpetuaram na memória de muitos. Uma dessas memórias chegou até aos nossos dias na faiança portuguesa. Sempre foi do gosto dos ceramistas a reprodução de datas  e factos marcantes da nossa história e vida social. Os Meninos Gordos são disso exemplo. "O prato com os Meninos Gordos contava, narrava um acontecimento que se conhecia e outros conheciam, ou de que, pelo menos, tinham ouvido falar"4.



Assim sendo, os artesãos reproduziram largamente as imagens dos Meninos, quer porque os tenham visto ao vivo, quer por terem tido acesso às gravuras que circulavam entre as pessoas. Vários tipos de peças foram produzidas - pratos, canecas e paliteiros - sendo os primeiros os que restaram em maior quantidade, talvez  porque muitos desses pratos só serviam em ocasiões especiais.



                  




Relativamente à cronologia, podemos concluir que estas peças foram produzidas seguramente a partir de 1842-43, até um período bem mais dilatado de cerca de quarenta anos, dado que as figurações, continuavam em uso durante mais alguns anos. 
Quanto aos centros de fabrico, com segurança, podemos atribuir a sua produção à fábricas do norte, principalmente as existentes em Gaia e Viana. As características evidenciadas por esta última são fáceis de imputar. Distinguir as fábricas gaienses é problemático, dadas as semelhanças que apresentam entre si. São elas Bandeira, Fervença, e Afurada.


Bandeira(?)

Localizada no Largo do Mártir Sebastião, laborou desde a década de vinte até finais do século XIX.
Vive principalmente da sua decoração vistosa, policromia viva e forte e das suas cercaduras totalmente preenchidas com recurso à técnica da estampilha, sendo evidente o horror ao vazio.


Fervença (?)

Fundada em 1824 por Manuel Nunes da Cunha, situava-se no lugar de Fervença, perto do convento da Serra do Pilar. Produziu faiança de boa qualidade, rica em policromia. Entre as peças que lhe estão  atribuídas, destaca-se um prato todo em azuis, com uma aba decorada por estampilhagem, onde sobressai uma faixa formada por porcos.

Afurada (?)

Esta fábrica surgiu em 1789, no lugar do Lazareto, Gaia, fundada por Joaquim Ribeiro dos Santos. Fechada durante o período das Invasões Francesas, vai conhecer um período conturbado, passando pela mão de vários proprietários. O prato mostra uma decoração menos vistosa e com espaços mais livres e uma cercadura polícroma, executada à mão livre.


Viana 


Situada na margem esquerda do rio Lima,  fronteira à cidade de Viana do Castelo, a fábrica de Viana exportava grande parte das suas peças
 para o Brasil e Galiza. A produção dos pratos dos Meninos Gordos pertence ao terceiro período (1790-1820) de laboração da fábrica, caracterizada por uma decoração mais pobre, de composições simples e estampilhada.
Revela uma aba encordoada com perfil ondulado.

Este texto teve como suporte o livro "Meninos Gordos Faiança Portuguesa", de Isabel Maria Fernandes.Porto, Civilização Editora, 2005.

1 - Isabel Maria Fernandes " Meninos Gordos Faiança Portuguesa", pág.7.
2 - Isabel Maria Fernandes " Meninos Gordos Faiança Portuguesa", pág.8.
3 - Isabel Maria Fernandes " Meninos Gordos Faiança Portuguesa", pág.16.
4 - Isabel Maria Fernandes " Meninos Gordos Faiança Portuguesa", pág.23.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Miragaia II

 
 
Um conjunto de faiança de Miragaia

Os belos azuis, profundos, ressaltando do branco do fundo, são uma das marcas que identificam a produção da fábrica de Miragaia, com o motivo País. Aprendi a apreciar esta faiança através dos excelentes textos, publicados nos seus blogs, da Maria Andrade e do Luís Montalvão, 
Iniciei este conjunto com uma loucura. A primeira peça, adquirida a um particular, resultou de uma desejo momentâneo e de uma vontade irresistível de posse. As outras, já mais acessíveis e com valores razoáveis, foram compradas em leilão. Agrupadas, enriquecem a arca, resultando num conjunto harmonioso.
 
 
João da Rocha in "Fábrica de louça de Miragaia", pág.5

No ano de 1775, a fábrica de Miragaia foi fundada por João da Rocha e seu sobrinho João Bento da Rocha, nas traseiras da igreja de Miragaia, estendendo-se, pelas escarpas e adoptando uma edificação em patamares.
Beneficiou da proximidade das margens  do rio Douro que permitia a chegada das matérias-primas, essenciais para a sua produção e um rápido escoamento das peças para o Brasil e África.
 
 
Gravura de Raimundo Joaquim da Costa, Colecção MNSR
 
O motivo conhecido pela designação País, vive unicamente dos azuis e branco. A qualidade destas cores imortalizou-se e das peças decoradas com estes tons diz-se que são "azul de Miragaia". Do livro de receitas da fábrica constam dezoito modos de produzir esta cor, havendo referência a vários tons de azul, destacando-se,  a receita nº 37 descrita como "receita de azul melhor de uso comum da fábrica"1. A sua composição continha óxido de cobalto, sal de tártaro e silicato de cobalto.


In "Fábrica de louça de Miragaia", pág:89
 

A prospeção arqueológica junto das fábricas tem contribuído para trazer luz a muitas das dúvidas que se colocavam quanto á atribuição de peças a determinados centros de fabrico, pois os vários fragmentos que se encontram in situ permitem obter algumas certezas. Também em Miragaia foi feita uma sondagem e colhidos vários elementos.
A importância das marcas existentes no tardoz das peças permite a certeza da sua produção. Quando não existe, as atribuições fazem-se tendo em conta critérios estilísticos "considerando a apreciável similitude das produções das diversas unidades fabris do Porto e Vila Nova de Gaia desde os finais do século XVIII e ao longo da centúria seguinte"2.
 

                                                In "Fábrica de louça de Miragaia", pág:101
 
 
 O motivo País vai derivar da faiança denominada Herculaneum Pottery, de Liverpool, criada por Ralph Mansfield. A influência inglesa torna-se predominante após a derrota de Napoleão Bonaparte. A louça produzida em Inglaterra entra em força na Europa trazendo, como novidade, a decoração pelo processo da estampilha. "Grande parte destas peças, por facilidade técnica, era decorada a azul e utilizava como modelo as gravuras em voga na época, a maior parte das quais descreviam paisagens inglesas com as suas ruínas, castelos e casas apalaçadas que o romantismo tanto apreciava, ou então continuava a seguir as decorações orientais que nunca deixaram de influenciar as composições decorativas europeias"3.
 
 
 

 
 
 
As travessas, moldadas e de covo acentuado, bordo recortado, ambas de produção de Miragaia, apresentam uma decoração similar, marcadas por pequenas diferenças, patentes no completar da composição: base e vegetação envolvente. A aba mostra uma decoração de fundo esponjado, com flores e folhagem a azul e branco. As marcas, a letra gótica, uma delas ladeada de ramos de louro. 

 

In "Fábrica de louça de Miragaia", pág:220
 
 

 
 
 
 Dois pratos de serviços diversos. As marcas de fábrica também são diferenciadas. A da esquerda apresenta as iniciais M.P (Miragaia/Porto). Peças moldadas, circulares, de covo pouco acentuado e aba levemente levantada, com canelura junto ao bordo e recortado em forma de aletas. A aba mostra uma decoração de fundo esponjado, com flores e folhagem a azul e branco. As marcas, a letra gótica. Uma unicamente com as iniciais e outra com a expressão "Miragaia Porto", ladeada de ramos de louro. 

 
 
1- Isabel Maria Fernandes "Fábrica de louça de Miragaia", pág.55.
2- Manuela Ribeiro/ António Silva "Fábrica de louça de Miragaia", pág.85.
3- Margarida Rebelo Correia "Fábrica de louça de Miragaia", pág.101.




 
 
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Monte Estoril: estância de veraneio





 
 
 
Num fim de tarde, em que a neblina começou a assentar arraiais sobre o mar, passear na marginal do Monte do Estoril tornou-se um  imperativo. A paisagem apresentou-se de um modo difuso, quase lembrando uma manhã fria de Inverno.  A placa indicativa, grafitada, evoca tempos mais recuados e os passeios de domingo com toda a família. 
Mas recordemos os primeiros passos do Monte Estoril como estância balnear da moda. A partir do altura em que a família real  escolheu Cascais como local de vilegiatura e os reis D. Luís e D. Carlos se instalaram no Palácio da Cidadela para gozarem os meses de Setembro e Outubro,  a corte e muitas famílias aristocratas os acompanharam. Era um local in. Convinha ver e ser visto. Edificaram-se Chalets exóticos, inspirados nos desenhos românticos e revivalistas franceses, suissos e ingleses. Também a rainha D. Maria Pia aqui adquiriu o seu palacete.
 
"Foi precisamente nas ruas sinuosas do Monte Estoril, mais sobretudo no seu lugar mais alto -o Monte Palmela -, que se assistiu a um grande surto construtivo, que teve os seus primórdios no ano de 1889 com  a criação da Companhia do Monte Estoril e a sua ambição de tornar aquele local numa estância balnear de luxo, equiparada às que então se viam no sul da França"1 que se construíram, pelo risco do arquitecto Rafael Duarte de Melo,  na primeira década de novecentos, numerosas casas de veraneio, desta vez para a burguesia citadina lisboeta, que pretendia emular a aristocracia. Os seus projectos demonstram homogeneidade pelo recurso constante à arte do ferro forjado, dos azulejos e, de um modo geral, às características do gosto reinante na época em reporte, o neo-românico.
As faixas azulejares com que adornava as fachadas das casas que projectou, deram ao local "um novo gosto por uma decoração elaborada, em que se tirava partido da utilização de azulejos Arte Nova"2, numa simbiose perfeita com os restantes materiais usados na edificação e os pequenos jardins, bem organizados, seguindo o modelo francês.
 
 
 
 
Grande parte das casas projectadas pelo arquitecto Rafael Duarte de Melo foram edificadas a pedido de Manuel Ferreira dos Santos, um "brasileiro" de grosso cabedal, que quis investir na promissora zona do Monte Estoril. As obras de Rafael Duarte de Melo são de fácil identificação "pelo coroamento do corpo central, pela entrada alpendrada, pelas colunas com os seus graciosos capitéis, os gradeamentos de varandas, portões e muros com ondulantes trabalhos de ferro forjado, pelo uso da pedra trabalhada a emoldurar as janelas"3 e ainda hoje subsistem, como é o caso das vilas Malvina e Laura.
 
 

 

 
 
 
 
 
A Vila Malvina, encomendada por Manuel Ferreira dos Santos para sua residência de Verão, apesar de ter sido modernizada, exteriormente não apresenta grandes alterações relativamente ao projecto inicial. É de salientar o característico alpendre, assinalando a entrada principal, antecedido de uma escadaria. São também da sua traça grandes janelões ornamentados com frisos de azulejos ou trabalhos em pedra, bem como o uso de estruturas em ferro forjado, como é o caso da pérgola.
 


 
 
Também, como era frequente na época, recorreu às faixas azulejares, policromáticas, em estilo Arte Nova, distribuídas pela construção, num claro contraste com o branco da alvenaria. Aplicados tanto na fachada principal, como nas laterais, são "exemplares artísticos de excelente qualidade"4, evidenciando  temáticas de inspiração floral e vegetalista.

 


 
 
 
 O projecto da Vila Laura, localizada na Avenida Sanfré, onde ocupa um lugar predominante, pela sua cor e elegância. O edifício, de autoria de Rafael Duarte de Melo, foi encomendado por Eduardo Esteves de Freitas. A revista "A Architectura Portuguesa" no ano de 1911, assinala a sua localização como um dos locais mais aprazíveis da estância balnear do Estoril.
 
 

 
 Mais uma vez, todo o conjunto mostra as características comuns ao traço do seu autor: "superfície exterior inferiormente revestida com aparelho de tipo ciclópico, sendo o restante a reboco pintado, onde se exibem frisos decorativos azulejares de temática vegetalista e figurativa; a típica entrada principal alpendrada, que resguarda uma escadaria de acesso à porta; o uso de pequenos colunelos de capitéis com volutas e os janelões com guarda em ferro forjado"5.
 

 
 
 As bandas azulejares, de desenhos tipicamente Arte Nova, sobressaem no conjunto arquitectónico pela sua qualidade pictórica e técnica. São de autoria de Joaquim Luís Cardoso, pintor de azulejos da Fábrica do Desterro, sendo considerado, na sua época, um dos "doze pintores mais destacados, que se ocuparam do azulejo nos inícios do século XX"6.
 
 
 
 
1/2/3/4/5/6 - Rita Fonseca "A Arquitectura de Rafael Duarte de Melo  no Monte Estoril", Revista Museu, IV Série, Nº 13, 2004, pág.121, 132, 143, 153, 158.