segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Bandeiras ... do meu enternecimento


Era uma vez ... 
Dois pratos - um galo e um prato de garfo e faca - peças belíssimas, atribuídas à fábrica de Bandeira.
Foram adquiridos por meu Pai, em Borba, pela exorbitante... quantia de vinte escudos. Numa das suas viagens de serviço, acompanhado por um colega, este verdadeiro apreciador de faianças, entusiasmou-se e iniciou a sua e... minha colecção.
Muitos anos moraram na parede da sala de jantar, numa curiosa miscelânea, em que imperavam como únicos exemplares da produção de faiança portuguesa. 
Tão grande era a minha afeição que, quando foi a minha hora de "voar mai'lo meu homem", me seguiram. Outros se lhe juntaram. Formam, nos seus conjuntos - casario, garfo e faca e outros de que brevemente falarei - famílias decorativas, garridas e joviais, alegrando festivamente as paredes da sala.


Casarios inseridos em paisagens. Assemelham-se no conjunto arquitectónico. Diferenciam-se no tipo de vegetação - as árvores - e nas cercaduras.

A Fábrica da Bandeira nas palavras de Pedro Vitorino era "pequena, produzindo faiança vulgar e de uso doméstico; pintura policrómica predominando a estampilhagem"1. Não era costume desta Fábrica - tal como acontecia na generalidade da nossa faiança - marcar as peças, pelo que, muitas vezes, a sua atribuição se torna difícil e algo empírica. No entanto, os tons quentes que a caracterizam, a decoração "vistosa e densamente aplicada"2, o horror ao vazio que predomina nas suas abas e os pormenores de pintura à mão livre que completam as suas composições constituem indícios que tornam mais próxima a sua identificação/classificação.
Apesar de ser uma faiança "ordinaria e de uso doméstico"3, a sua produção foi distinguida com menções honrosas, na exposição de 1882, no Palácio de Cristal, no Porto e na de 1894, realizada em Gaia.



Nestes dois pratos, o casario envolve-se de forma harmoniosa com a vegetação, sendo de salientar a noção de perspectiva, se bem que ainda rudimentar. Aba com rosas e folhas, em tons quentes e vivos, principalmente os alaranjados. Igualizam-se  na disposição do conjunto de casas, mas distinguem-se nas envolvências: base e arvoredo.



Estes exemplares, mais pobres pela ingenuidade na composição das casas, demonstram uma mão algo insegura. Revelam, no entanto, uma acrescida singularidade na vegetação: palmeiras e cedros (?) e outras espécies que não consigo identificar. Na decoração da aba do primeiro prato ressaltam mal-me-queres, unidos por linhas onduladas em tom de azul.




Outra gramática decorativa: garfo e faca cruzados, intercalados com postas de peixe. Nas abas podem ver-se rosas e camélias, por entre folhas espessas, vibrantes nos seus tons de verde. 
A mesma tendência de profusão de cores, de superfície completamente decorada, na tentativa conseguida de agradar aos olhos, fazendo esquecer as dificuldades quotidianas que se sentiriam.


Para o fim, o prato mais especial. Um garfo e duas cabeças de peixe. Rico no desenho, na paleta cromática, na alegria e ingenuidade do tema.
Bom apetite!









1 - Pedro Vitorino "Cerâmica Portuense", Edições Apolino, Gaia- Portugal,MCMXXX
2 - Isabel Maria Fernandes "Meninos Gordos Faiança Portuguesa", Civilização Editora, 2005, Pág. 34
3 - Charles Lepierre "Cerâmica Portuguesa Moderna", Lisboa, Imprensa Nacional, 1899,Pág. 108



5 comentários:

  1. Este seu último prato, com o peixe e os talheres, e o casario da quarta fotografia deixam-me sem fôlego! Não conhecia esta variante dos peixes com os talheres e é lindíssima.
    Quanto ao do casario, a harmonia cromática do arranjo da cena no covo é perfeita.
    E o traço das pinceladas que foram feitas em torno do casario desta quarta fotografia faz-me lembrar as que são colocadas em torno do motivo "país" de Miragaia ou até Sto. António. Só o cromatismo não tem nada a haver.
    Os parabéns por todos estes espécimes, os quais perfazem um conjunto de uma beleza que só é possível na nossa faiança de antanho - será que ainda não estamos preparados para ver esta beleza na que é feita agora?
    Será a razão principal o facto da de hoje ser uma cerâmica para "inglês ver" (e comprar), sem a veracidade e arte instintiva original das antigas?
    Será que o facto das tristes cópias que vamos vendo à venda sejam mesmo má qualidade? A mim parecem-me de muito má qualidade, mas talvez esteja a ser pouco neutro e com olhos já treinados para outro tipo de peças.
    Fico sempre com receio de não ser imparcial, mas é que não consigo sentir qualquer gosto pelo que vejo à venda, feito hoje em dia
    Manel

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  2. Manel
    Muito obrigada pelas suas palavras, sempre tão sabedoras.
    A sala ganhou outra vida com o colorido e a alegria das composições. Um dos pratos de talheres foi o que o meu pai comprou em Borba, por dez escudos. A quantos cêntimos correspondem?
    Realmente, as reproduções actuais não têm o mesmo fulgor das de antanho, como refere. Por essa razão é que as tanto apreciamos.
    Ivete

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  3. Querida Ivete.

    Estes pratos são peças de Museus e das melhores casas de leilão. Gosto deles de modo geral (desde que antigos ou, quando muito, até meados do XX concordando com o Manel).
    Mas é claro que se há distinção entre este e aquele, entre esta fábrica e outra. Coisa que ainda não faço nem tenho condições de fazer. Então fico de olho e vou pegando por aqui o que estiver ao alcance das mãos, do bolso e do coração... Esta semana mesmo encontrei um pratinho quase de graça na Praça XV com motivo "cebolinha", se não me engano, azul, sem marca alguma com jeito de estanhola, Mas talvez seja um exemplar dos tantos puramente comerciais (quem disse que os antigos eram "doados" ou não foram feitos para "inglês ver" e comprar?) do final do XX que as grandes fábricas de toda parte produziram e que veio sem marca por acaso, uma falha. Mas como disse, era tão barato que peguei logo. Qualquer dia faço uma postagem com estas peças suspeitas talvez vocês possam opinar.
    Estes seus pratos com garfos cruzados e postas de peixes têm toda uma simbologia, li em algum lugar. Nunca tinha visto este das 2 cabeças com um garfo só. Acho interessantes, mas gosto tanto dos peixes inteiros... Sei que os peixes são para alimento e nenhuma crueldade esportiva ou decorativa, neste caso. As "naturezas mortas" quando trazem aves e roedores dependurados não me agradam... Mas quando um galeto me é servido quentinho esqueço este sentimento. Coisas de nossa condição presente. E os que sem dúvida, só me recordam coisas alegres são aqueles de personagens bailando ou tocando instrumentos como o do seu perfil. Parabéns pela crescente coleção.
    Um abraço.
    ab

    PS. Depois Você apaga o borrado.

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  4. Avó a faiança bandeira despertou-me muito interesse porque esta faiança e muito bonita. As imagens são muito boas

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