quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Obviamente... Miragaia







As excelentes peças da Fábrica de Miragaia, publicadas pela Maria Andrade e pelo Luís Montalvão, muito têm contribuído para incentivar o meu interesse pelo estudo da sua produção. O motivo da série País, correspondente ao 2º período da sua laboração, que podemos situar entre 1822 a 1850, é o que mais me atrai. Os seus azuis, intensos e brilhantes, fascinam.  A pouco e pouco, devagar, interiorizam-se e ficam, marcantes, assenhoreando-se  de todo o nosso sentir.
A travessa que hoje mostro, com dimensões bastante grandes (39cm por 33cm), é uma peça que, por si só, irradia expressiva beleza: numa parede, coberta com faiança dos mais diversos tons de azul, proveniente de vários centros de fabrico, sobressaía pela riqueza das cores e pela decoração cheia. Apelava aos sentidos, como que pedindo que a observasse, a sentisse, a admirasse. Sentir-lhe o toque, macio e aveludado, perceber a sua textura, entender as técnicas decorativas, foi uma satisfação plena. A surpresa maior: a marca "Miragaia Porto". Desta vez não há interrogações, incertezas, nem dúvidas. Obviamente ... é produção da fábrica de Miragaia. 





Caracteriza-se como peça moldada, rectangular, pouco funda, com a aba decorada em esponjados, onde ressaltam as flores e folhagens. Ao centro, paisagem oriental, com um conjunto de edifícios, formado por vários corpos. Um deles coberto por uma cúpula. Um outro exibe um crescente. Toda esta composição está rodeada de árvores e vegetação.







Se bem que de dimensões um pouco maiores, esta travessa de Miragaia, marcada, é em tudo semelhante a uma outra que o respectivo Catálogo apresenta:  no formato, na composição decorativa e na paleta cromática.


In"Fábrica de Louça de Miragaia", MNSR, 2008, pág.245


Francisco da Rocha Soares (1806-1857)
in "Cerâmica Artística Portuense"

Francisco da Rocha Soares, homem de ideias avançadas para a sua época, sucedeu a seu pai na direcção e propriedade da fábrica. Antevendo a concorrência da louça inglesa, resolveu iniciar a produção em novas formas e decoração. Para concretizar a pretendida reconversão, chamou técnicos e artistas que lhe assegurassem a execução dos moldes. Concomitantemente, importou  peças inglesas para servirem de modelo. Iniciou a produção de faiança ao estilo britânico, sendo a série "País" uma das que mais aceitação teve em terras portuguesas.
Com incursões na politica, por várias vezes fugiu, chegando a estar preso. Arruinado, declara a falência.
Faleceu em 1857.




Fábrica de Louça de Miragaia, MNSR, Porto, 2008.
Vasco Valente " Cerâmica Artística Portuense dos séculos XVIII e XIX", Porto.
Luiz Augusto de Oliveira "Exposição Retrospectiva de Cerâmica Nacional em Viana do Castelo no ano de 1915", Porto, 1920.


6 comentários:

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  3. É verdade, Ivete, é uma grande satisfação encontrarmos uma peça desta beleza e com a qualidade Miragaia devidamente identificada!
    Alguns serviços seriam enormes e por isso, apesar de serem muito valorizados e estimados pelas famílias que ainda os possuem, e de as travessas serem escassas, lá vão aparecendo de vez em quando para nosso deleite. Parabéns!
    Um abraço

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  4. Obrigada pelas suas palavras sempre tão simpáticas. De facto foi uma sorte ter encontrado esta travessa, que se destacava no conjunto de azuis onde estava inserida. Eram peças que, pela sua beleza intrínseca, eram guardadas e valorizadas através dos tempos.
    Um abraço
    if

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  5. Tal como a Ivete, a louça do 2º período da sua laboração de Miragaia (1822 a 1850) é das coisas que mais me encanta na faiança portuguesa. Julgo que foi uma adaptação livre e ingénua, mas muito feliz do modelo original inglês.

    Há uns tempos, em serviço visitei uma casa antiga de um Senhor, que tinha um serviço de Miragaia da série País, quase completo exposto na parede. Digo quase completo, porque o serviço era tão grande que o resto estava guardado. Era um espectáculo visual fabuloso, que nos permitia avaliar a beleza que tinham estes serviços completos.

    Um abraço e parabéns pelo post

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  6. Luís
    Esta travessa também estava integrada num conjunto, todo em tons de azul. Eram peças de diferentes formas e provenientes de várias fábricas e zonas. No entanto, não deixavam de ser um regalo para os olhos. O azul (a minha cor favorita), bem como outras cores, permite belíssimas composições, nomeadamente, quando recorre aos degradés, o mesmo acontecendo com alguns painéis de azulejos.
    Agora, imaginar um serviço completo deve ser, de facto, fabuloso.

    Um abraço

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