domingo, 11 de janeiro de 2015

Figuras de convite




"Nas entradas dos palácios, patamares de escadas e jardins são colocados, no século XVIII, grandes figuras de azulejos, designadas por Figuras de Convite, em atitude de receber o visitante. Representam alabardeiros, criados de libré e guerreiros armados, tema iconográfico utilizado como sinal de prestígio e de largas repercussões  na organização de espaços ligados às entradas de casas e palácios. Contribuíram para a elaboração deste tipo de figuras a vivência cortesã, cerimoniais e regras de etiqueta"1.

Alabardeiro com a libré das guardas reais, com faixas drapeadas
     à cinta e à tiracolo, insígnias da sua alta patente militar

As Figuras de Convite, também chamadas Figuras de Respeito, Figuras de Cortesia, Mordomos ou Porteiros  são, nas palavras de Santos Simões, "principalmente do foro da residência civil e nobre"2.
A magnificência do gosto e da mentalidade barrocas, exaltadas magnificamente pela corte de D. João V, são, de seguida, adoptadas pela nobreza nos seus palácios. Simbolizam a importância do seu estatuto social, principalmente nas entradas, acessos e no salão nobre. Elementos dinamizadores de convivência, as Figuras de Convite geralmente encontram-se nos pátios de entrada, nas escadarias, algumas com frases que aliciam os visitantes a subir, encenando o ritual da recepção, momento que a etiqueta rigorosa elegia para a construção de um cenário pleno de pompa.
São representadas "em escala natural, dialogam com o espectador, enfrentando-o com o olhar e a sua gestualidade falante, elementos essenciais dos efeitos que produzem. Acrescenta-se a estes aspectos a magnificência da indumentária (...)"3.
Património original da azulejaria portuguesa, foram criadas nas oficinas de Lisboa, no século XVIII, surgindo tanto em casas e residências nobres, como em igrejas e edifícios religiosos. 
A fim de responder à necessidade da reconstrução da cidade de Lisboa após o terramoto de 1755, a sua produção continua no período pombalino e ainda  no século XIX. 
A partir do terramoto, as Figuras de Convite passam, também, a decorar as entradas de edifícios que, embora não qualificáveis como palácios, os seus proprietários desejam caracterizar como prédios nobres, ostentando-as como marca distintiva  e diferenciadora dos  normais  prédios de habitação e rendimento. 

 Sabe-se que, na tradição da exportação de azulejos para o Brasil, houve outras encomendas, já no século XIX, feitas a oficinas portuguesas, por particulares, para as suas residências privadas. Muitas dessas Figuras integram colecções públicas e privadas.No Brasil, e especialmente na zona da Baía, encontramo-las, também, nas grandes construções religiosas





Procurando manter a ideia de opulência e riqueza, surgem imagens fantasiadas de guerreiros romanos, medievais e turcos, inspiradas quer em gravuras, quer em trajes de teatro e ópera. Os pintores davam asas à sua imaginação, criando figuras idealizadas, mas cheias de brilho e cor. Uma das que mais respeito impunha era a do guerreiro turco - o janízaro.


Janízaro do Restaurante Aviz
Imagem retirada da internet
O janízaro, Figura de Convite da época pombalina,  exposto numa das paredes do Restaurante Aviz, encontrava-se coberto com uma espessa camada de cal. Descoberto aquando das obras ali efectuadas, brilha agora, em toda a sua magnitude, recebendo com cortesia os clientes.                         












A época medieval inspirou a produção de figuras mais populares, que talvez animassem com a sua música e malabarismos, jardins ou entradas de prédios pombalinos. São eles: o tocador de sanfona, o homem da marioneta e o ginasta, que se alegra a  ele mesmo, tocando pandeireta. 

A antiga Confeitaria de Belém, fundada em 1837, foi decorada em finais do século XIX, com uma Figura de Convite, sobressaindo num painel de figura avulsa.




Trajando à moda do século XVIII, "libré, calções, cabeleira e sapatos de fivela"4, este mordomo convida-nos cortesmente a entrar, para saborearmos um delicioso pastel de nata.

Agradeço ao proprietário a cedência das imagens e que gentilmente permitiu a sua publicação.

1/3 - Luísa Arruda "Azulejaria Barroca Portuguesa Figuras de Convite", Edições Inapa, 1996, texto na contracapa e pág.29.
2 - Santos Simões, "Azulejaria em Portugal no século XVIII", Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1979, pág.9.
4 - Luísa Arruda "Figuras de Convite em Portugal e no Brasil", Revista Oceanos nº 36/37, Outubro 1998/Março 1999, pág. 127.

5 comentários:

  1. Querida Ivete.

    Que figuras maravilhosas estas de Convite.

    Imagina se nossas casas tivessem delas... Os amigos seriam tão mais bem recebidos.

    Ao que parece, este gosto da corte (nas casas como "Black Moors") foi introduzido na Arte Sacra também. Muitas figuras "angelicais" (com ou sem asas), chamadas de Anjos Tocheiros, são na verdade estes "anfitriões" eternos. Um belo e monumental exemplo são os do S. Bento do Rio. Coisa maravilhosa.

    Mas na falta deles em nossos pobres lares, umas plantinhas, um abraço sincero e um cafezinho quebram o galho...

    Um abraço.

    ab

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    1. Amarildo
      Vistos no seu decor natural, ao vivo e a cores são ainda mais imponentes.
      Alguns, pelo seu ar um pouco mais sisudo, impunham ainda mais respeito... mas não deixavam de ser corteses e convidar-nos a entrar.
      Um abraço
      Ivete

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  2. Fico sempre ensimesmado com estas figuras de convite.
    Não existindo onde nasci, só tomei contacto com elas bastante mais tarde e ... achei-as absolutamente fantásticas, pois dão-nos as boas vindas da forma mais calorosa possível, ainda que em azulejo.
    Ganham vida, parece que nos falam, e completam todo um ambiente palaciano que hoje é difícil reproduzir, dado terem caído em desuso e serem consideradas um pouco ostensivas.
    Lastimo a falta de uma, que a colocaria de imediato no meu ambiente ruralíssimo (à mistura com ovelhas e tudo!) do Alentejo, faria um contraste fantástico, daqueles que gosto de criar nas pessoas.
    Ainda bem que aqui trouxe este tema. Um bom final de semana
    Manel

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    1. Manel
      São peças absolutamente fantásticas: pelo porte, pela cor, pelo brilho, pela elegância, pela perfeição, por recordar todo um conjunto de regras de etiqueta e bem viver, tão do agrado das sociedades a que se reportam.
      Gostava de ter uma na entrada da casa (esta teria que condizer com o tamanho da figura) e como isso não é possível... limito-me a sonhar!
      Ivete

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    2. Ivete

      As figuras de convite são outras das criações imaginativas da azulejaria portuguesas. Julgo que foram um processo barato de substituírem as esculturas que antigamente ornamentavam as escadarias.

      É também engraçado encontrar nestas figuras a moda das "turqueries", que se foi divulgando pela Europa pela segunda metade do XVIII. Até já encontrei num altar de talha dourada em Sousel, turcos a servirem de atlas, a estruturas cheias de anjinhos e símbolos cristãos.

      Um abraço

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